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Após anos de comportamento bizarro, assassino de Nashville conseguiu suas armas de volta

Metro Nashville PD
Polícia de Nashville prende o atirador Travis Reinking na segunda-feira (23) Imagem: Metro Nashville PD
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Alan Blinder, Simon Romero e Julie Bosman

Em Nashville, Tennessee (EUA)

25/04/2018 00h03

Ele já tinha sido denunciado à polícia de Illinois por levar um fuzil AR-15 no porta-malas de seu carro e então seguir para uma piscina pública, vestindo um robe feminino cor-de-rosa. Houve a vez em que se queixou a um policial de que a cantora Taylor Swift o estava assediando. E então, em julho, foi pego pelo Serviço Secreto quando tentou forçar sua entrada nos jardins da Casa Branca.

Travis Reinking, 29 anos, estava no radar das autoridades muito antes de ser levado sob custódia na segunda-feira, acusado de invadir um restaurante da rede Waffle House em Nashville, no fim de semana, e abrir fogo, matando quatro pessoas e ferindo outras quatro.

Mas mesmo após a polícia de Illinois ter cassado sua licença de porte de arma e ordenado que suas armas fossem transferidas para seu pai, Reinking as conseguiu de volta, incluindo o fuzil AR-15 usado no massacre no Tennessee, disse a polícia. O caso levanta questões sobre como um indivíduo problemático pôde portar armas legalmente por tanto tempo e continuou portando mesmo após seu porte de armas ter sido cassado.

"Temos um homem que exibia instabilidade significativa", reconheceu Dan Aaron, um porta-voz do Departamento da Polícia Metropolitana de Nashville.

A polícia diz que o pai de Reinking, Jeffrey, dono de uma empresa de guindastes localizada perto da cidade de Morton, Illinois, devolveu as armas ao filho, permitindo a Travis realizar o massacre no fim de semana.

O ato de Jeffrey Reinking de devolver as armas ao filho é "potencialmente uma violação da lei federal", disse o agente especial Marcus Watson, do Birô de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos, em uma coletiva de imprensa.

Jeffrey Reinking não pôde ser encontrado para comentários na segunda-feira. Após a prisão de Travis Reinking em Washington em 2017, o FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana) passou as informações sobre ele para as autoridades locais em Illinois, onde ele foi ordenado a cumprir 32 horas de serviço comunitário em uma igreja batista próxima de Morton. O FBI encerrou sua investigação de Reinking em outubro.

Cerca de 160 agentes da lei estiveram envolvidos na busca por Reinking, que as autoridades disseram ter iniciado seu ataque ao restaurante, no sudeste do centro de Nashville, pouco antes das 3h30 da madrugada de domingo. O episódio enervou uma das maiores cidades do Sul, voltando novamente a atenção para a facilidade com que muitas pessoas, incluindo as com problemas mentais, podem ter acesso a armas de fogo.

Reinking foi pego na tarde de segunda-feira em uma área de mata a menos de 2 km da Waffle House. Ele carregava uma mochila contendo um revólver carregado, mas a polícia de Nashville disse que ele se rendeu sem incidentes. As autoridades disseram que ele estava se recusando a falar com os detetives.

As autoridades identificaram os mortos como sendo Akilah Dasilva, 23 anos; DeEbony Groves, 21; Joe R. Perez, 20; e Taurean C. Sanderlin, 29. As autoridades disseram que o derramamento de sangue teria sido maior caso um cliente de 29 anos, James Shaw Jr., não tivesse tomado o fuzil de Reinking enquanto ele estava recarregando. Reinking fugiu do restaurante depois do ataque, disse a polícia, nu, exceto por uma jaqueta verde.

George Walker IV/The Tennessean/AP
Polícia inspeciona o restaurante Waffle House após o ataque Imagem: George Walker IV/The Tennessean/AP

Reinking é branco e as quatro vítimas eram afro-americanas e latinas, mas o prefeito de Nashville, David Briley, disse não ter motivo para acreditar que as mortes foram por motivos raciais. Segundo o político, há "indicação suficiente de que há um elemento de doença mental associado ao caso".

Após viver grande parte de sua vida em Illinois, Reinking se mudou recentemente para a área de Nashville para trabalhar em construção.

Em relatórios, o departamento do xerife do condado de Tazewell, Illinois, descreve Reinking como um homem hostil com a polícia, que já ameaçou cometer suicídio e que acreditava ser molestado por sua família.

Seu pai, mãe e avó se preocupavam o bastante com seu comportamento a ponto de pedirem ajuda. Eles informaram à polícia que Reinking vinha sofrendo delírios desde agosto de 2014.

Em maio de 2016, os policiais responderam a um chamado em um estacionamento em Morton, depois que a família de Reinking relatou que ele falava em se matar e possuía armas de fogo. Reinking disse aos policiais que estava sendo assediado pela cantora Taylor Swift e que sua conta da Netflix tinha sido hackeada.

Poucas semanas antes, ele disse aos policiais, ele perseguiu Taylor Swift em uma tentativa de fazer com que ela parasse de assediá-lo. "Travis declarou que estava dizendo a verdade e que tinha prova em seu telefone de que tinha sido hackeado", segundo o relatório. "Mas Travis não nos mostrou o telefone."

Reinking foi levado a um hospital para ser avaliado. Em junho de 2017, a polícia foi chamada a uma piscina pública em Tremont, Illinois, onde mergulhou na piscina usando um robe, que então tirou, ficando apenas de cueca.

Segundo o relatório, Reinking começou a gritar com os salva-vidas e então "mostrou sua genitália, dizendo que era um homem".

Mesmo assim, ele não foi preso.

"Este é um relatório informativo, para mostrar o estado mental de Travis Reinking", apontou o relatório. Quando a polícia contatou o pai de Reinking, ele disse que tirava três fuzis e o revólver de seu filho "quando Travis estava tendo problemas", mas que depois os devolvia.

Os policiais aconselharam Jeffrey Reinking a "trancar as armas até que Travis obtivesse tratamento mental, o que ele declarou que faria".

Em agosto de 2017, Travis Reinking, dirigindo um Mitsubishi azul, encostou ao lado de uma viatura policial e disse que queria prestar uma queixa. Cerca de 20 a 30 pessoas estavam hackeando seu celular e computador, ele disse à polícia. Ele podia ouvir pessoas do lado de fora de sua casa latindo como cães, mas não sabia quem eram. Em uma loja do Walmart recentemente, ele sentiu que um homem vestindo camisa preta o estava vigiando.

"Travis disse que estava cansado de as pessoas o importunarem", disse o relatório. O policial aconselhou Reinking a chamar a polícia caso ouvisse de novo pessoas latindo como cães. "Nenhuma ação adicional foi tomada", disse o relatório.

Posteriormente naquele mês, após o incidente na Casa Branca, a polícia entregou a Reinking e seu pai uma cópia do documento de cassação de seu porte de armas. Ele entregou o cartão e ajudou a polícia a recolher todas as suas armas e munição, que foram entregues a Jeffrey Reinking.

"Jeffrey foi aconselhado que precisava manter as armas em segurança e longe de Travis", disse o relatório policial. "Jeffrey declarou que o faria."

Segundo a lei de porte de armas de Illinois, uma pessoa precisa receber um cartão de Identidade de Proprietário de Arma de Fogo (Foid, na sigla em inglês) para poder possuir uma arma de fogo. Cerca de 2,1 milhões de pessoas no Estado possuem esse documento de identidade.

Mas segundo a lei, o processo para manter armas de fogo fora das mãos de uma pessoa cujo porte foi cassado é fraco, permitindo que muitas pessoas continuem tendo acesso às armas com pouca ameaça de fiscalização ou punição.

A Polícia Estadual de Illinois cassou mais de 11 mil portes de arma em 2016, disse um porta-voz, o tenente Matthew Boerwinkle. Pessoas cujo documento foi cassado são obrigadas a entregar o cartão e quaisquer armas a uma autoridade local de manutenção da lei. Mas há um artigo que permite que as pessoas que tiveram seu porte cassado transfiram suas armas para outra pessoa com um porte válido, como o pai de Reinking tinha.

Os departamentos locais de polícia são obrigados a documentar que a pessoa entregou o documento e as armas.

Mas as agências locais de manutenção da lei com frequência falham em agir. Em 2016, apenas cerca de 4.000 das 11 mil pessoas cujos documentos de porte de arma foram cassados apresentaram os relatórios obrigatórios explicando qual foi o destino de suas armas, como o jornal "The Chicago Tribune" noticiou em 2017.

"Elas são obrigadas a fazê-lo, mas não há força na lei que obriga que as agências de manutenção da lei o façam", disse Boerwinkle na segunda-feira.

Não há nada na lei que obrigue que a pessoa que recebeu as armas as tranque, ou mesmo more em uma casa diferente da pessoa cujo cartão Foid tenha sido cassado, disse Boerwinkle.

A transferência das armas de fogo para outro morador de Illinois que não tenha um cartão válido é um crime no Estado. Jeffrey Reinking indicou à polícia que devolveu as armas ao seu filho, mas não está claro como e quando o fez, disse Aaron, o porta-voz da polícia de Nashville.