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Sufocadas pela poluição, as cidades polonesas estão entre as mais sujas da Europa

Maciek Nabrdalik/The New York Times
Purificador de ar foi instalado em parque em Cracóvia, na Polônia Imagem: Maciek Nabrdalik/The New York Times
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Maciek Nabrdalik e Marc Santora

Em Monte Zar (Polônia)

30/04/2018 00h01

Olhando do alto do teleférico de esqui, no Monte Zar, sul da Polônia, não se conseguem ver os vilarejos abaixo. No começo, parecem estar encobertos pela neblina da manhã. Mas a névoa amarela não vai embora. Ela persiste, pesada, em contraste com a neve branca, deixando claro que há algo de errado.

O que há de errado é o ar. A Polônia tem parte do ar mais poluído de toda a União Europeia, e 33 de suas 50 cidades mais sujas. Nem mesmo os refúgios nas montanhas estão imunes.

O problema em grande parte se deve à paixão que o país tem pelo carvão. Assim como em outras partes da Polônia, a maioria das casas nos vilarejos abaixo do Monte Zar ainda são aquecidas por carvão. Cerca de 19 milhões de pessoas dependem do carvão para se aquecerem no inverno. Em toda a União Europeia, 80% das casas particulares que usam carvão estão na Polônia.

O carvão, que costuma ser chamado de “ouro negro”, é visto como uma alternativa patriótica ao gás russo neste país, que se libertou do controle soviético três décadas atrás e permanece profundamente desconfiado de seu vizinho a leste. Queimar carvão faz parte do dia-a-dia.

Em muitas esquinas da cidade, perto de pontos de ônibus e de bonde, há recipientes conhecidos como braseiros que queimam coque, um derivado do carvão que é basicamente carbono. Em uma manhã em Swietochlowice, ao norte, crianças jogavam gravetos e papéis dentro dos braseiros, inalando a fumaça.

Fornalhas obsoletas também queimam carvão. Andrzej Machno, que vive na pequena cidade de Skawina, a nordeste do Monte Zar, usa a mesma fornalha há mais de três décadas.

Ele está esperando por subsídios do governo local para trocá-la por um modelo mais novo e menos poluente. Mas não está claro quando o dinheiro vai chegar, ou se ele sequer estará apto a recebê-lo.

“Acho que todas as promessas vêm com as eleições”, disse Machno. Mas uma vez que as campanhas terminam, segundo ele, todas as ideias grandiosas desaparecem.

Enquanto isso, a poluição está em todo lugar.

Quem atravessa de carro os pequenos vilarejos perto de Rybnik, cerca de duas horas a noroeste da montanha e uma das cidades classificadas como as mais poluídas da União Europeia, vê fumaça abundante saindo das casas à beira da estrada principal.

Era noite, mas estava estranhamente claro com as partículas de fumaça dispersando a luz dos postes das ruas, criando um misterioso brilho laranja. “Isso não me parece certo”, disse um pai que passava correndo com seu filho, puxando a jaqueta até a boca.

Em Cracóvia, com seu majestoso castelo dominando a cidade antiga, muitos dos prédios ainda são equipados com fornalhas de décadas atrás. No começo do inverno, entregadores de carvão costumam percorrer a cidade.

Mas agora quem também percorre a cidade são os consultores ambientais que trabalham para o governo local, que assumiu um dos projetos mais ambiciosos no país para ir tirando aos poucos as pessoas do hábito de queimar carvão ou lenha.

O governo de Cracóvia proibiu o uso do carvão mais barato e mais poluente, e até 2019 pretende banir totalmente a queima de carvão e de lenha.

Os funcionários do governo estão tentando ajudar os moradores com a transição para combustível e fornalhas mais limpas, e a orientá-los como acessar os recursos disponíveis para pagar por eles.

Maciek Nabrdalik/The New York Times
Poluição atinge cidade de Rowien Zory, na Polônia Imagem: Maciek Nabrdalik/The New York Times

Se a tentativa der certo, ela pode ser um modelo para outras cidades do país. A medida já cortou o número de fornalhas obsoletas para cerca de 10 mil, mais da metade do número de alguns anos atrás.

Outras cidades como Katowice, a cerca de uma hora a oeste de Cracóvia, estão usando drones para monitorar emissões domésticas.

Mas tem faltado uma ação geral por parte do governo nacional do Partido da Lei e da Justiça, que durante muito tempo defendeu a poderosa indústria do carvão.

Em dezembro, o primeiro-ministro Mateusz Morawiecki usou um de seus primeiros discursos para anunciar planos de construir duas novas minas de carvão em Silesia, a região industrial no sudoeste da Polônia.

Com o aumento de danos decorrentes do problema da poluição, especialmente para as crianças, o governo também está sofrendo maiores pressões, inclusive a possibilidade de ser multado por violar os padrões da União Europeia.

Estima-se que cerca de 48 mil poloneses morram anualmente de doenças causadas pela má qualidade do ar. O Greenpeace calcula que 62% dos jardins de infância da Polônia se encontram em áreas extremamente poluídas.

Em resposta, o governo anunciou que gastará US$ 8,8 bilhões (mais de R$ 30 bilhões) ate 2028 para combater a poluição.

“Não queremos que nossos filhos associem inverno a máscaras, mas sim a neve, a trenós e a bonecos de neve”, disse Morawiecki.

A indústria e o transporte também contribuem muito para a poluição. A Polônia é famosa por ter os carros mais velhos da União Europeia, com uma idade média de 13 anos para sua frota.

Um movimento social surgiu em todo o país para combater a poluição e educar as pessoas, especialmente as crianças.

Fisioterapeuta de profissão, Jolanta Sitarz-Wojcicka se tornou uma ativista dois anos atrás, quando teve um bebê e percebeu que o ar estava tão ruim que ela não podia sair de casa sem arriscar a saúde de seu recém-nascido.

Ela abraçou a causa em sua cidade natal de Zakopane, a sudeste da montanha, e hoje esse é seu único foco. Vencer a guerra contra a poluição requer que se mudem hábitos profundamente arraigados na cultura. Ela começa educando os alunos de escolas.

Em uma escola primária de Nowe Bystre perto de Zakopane, ela mostrou às crianças diferentes fotos de lixo e perguntou a elas quais poderiam ser queimados em uma fornalha.

“Quanto menor o vilarejo, mais interessantes as respostas”, ela disse. Não é o que se ensina a eles, segundo ela, mas sim o que eles veem. E muitas vezes eles veem as pessoas queimando qualquer coisa que possa ser queimada.

Graças a uma bolsa da União Europeia, ela pode se dedicar em tempo integral à causa. Mas ela está preocupada.

Ela diz que se a situação não melhorar nos próximos anos, ela pretende se mudar para a Suécia.

Outros já se mudaram para fugir da poluição. Andrzej Bargiel, um conhecido alpinista polonês, morava no centro de Zakopane, onde o ar lhe causava constantes dores de cabeça. Ele conta que se sente melhor desde que se mudou para o alto da cidade.

Aneta Seidler, uma líder local de um grupo de Alerta de Poluição em Nowy Targ, no sul da Polônia, tem um filho e está grávida de um segundo, e tenta não deixar que sua família saia de casa, onde eles têm vários filtros de ar. Eles costumam deixar o país no inverno.

“Para respirar”, diz.

Oliwer Palarz, um ativista do grupo de Alerta de Poluição de Rybnik, faz seus filhos Antoni e Tymon usarem máscaras anti-poluição quando estão fora de casa. Ele está processando o governo polonês, alegando que a falta de ação contra a poluição está violando seus direitos civis.

Muitos não acreditam que as coisas estejam indo na direção certa. O Tribunal Europeu de Justiça decidiu que a Polônia infringiu leis de qualidade do ar entre 2007 e 2015 ao exceder continuamente os limites de poluição.

Enquanto a União Europeia continua tendo um papel de liderança na ação para limitar o aquecimento global, a Polônia provavelmente continuará sendo um ponto fora da curva por algum tempo.

O apetite da Polônia por carvão é tão grande, que está até importando mais desse material dos Estados Unidos, onde o governo Trump tem tentado reavivar a indústria.

Em Belchatow, a Polônia mantém a maior usina movida a carvão da Europa, à beira de uma mina de carvão de 13 km de comprimento e 3 km de largura.

Ela não mostra sinais de que irá desacelerar, e continua expelindo carbono a um ritmo impressionante. É a maior emissora de carbono da Europa.