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Para manifestante de Gaza, viver ou morrer "é a mesma coisa"

Wissam Nassar/The New York Times
Saber Al-Gerim protesta na fronteira de Gaza com Israel Imagem: Wissam Nassar/The New York Times
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Iyad Abuheweila e David M. Halbfinger

Em Cidade de Gaza

02/05/2018 00h01

Ninguém nunca notaria Saber al-Gerim no meio das multidões de palestinos que têm protestado contra Israel ao longo da cerca repleta de guardas que ajudou a transformar a faixa de Gaza em uma prisão a céu aberto.

Não por sua aparência jovial. Aos 22 anos de idade, ele usa jeans rasgados e tênis branco, um corte de cabelo da moda e carrega alguns quilinhos extras decorrentes de muitos meses sem trabalho.

Não por sua raiva. Ao gritar “Allahu akbar” (Deus é maior) e lançar pedras com um estilingue, ou ao puxar um cabo preso na barreira de arame farpado de Israel na esperança de derrubá-la, ele é só mais um em meio a uma multidão febril, um protagonista somente de sua própria tragédia.

Nem mesmo por sua disposição em correr o risco de morrer, ou pelo seu sonho de ir para casa, um pedaço de terra que ele nunca viu e não consegue de fato visualizar.

Mas olhemos mais de perto esse homem: filho de um pedinte, a poucos metros de Israel, e bem no meio da linha de fogo. Os soldados, os únicos israelenses que Al-Gerim já viu de perto, podem ser notados através da fumaça dos pneus em chamas, andando de um lado para outro sobre elevadas bermas de areia, às vezes lançando gás lacrimogêneo, às vezes balas de verdade. Pelo alto-falante, alguém alerta os palestinos a recuarem, do contrário correrão risco de morte.

Al-Gerim, bem ao alcance dos soldados, e descansando entre uma pedra jogada e outra, grita: “Queremos voltar!”

Wissam Nassar/The New York Times
Saber Al-Gerim atira pedras contra tropas israelenses durante protesto Imagem: Wissam Nassar/The New York Times

Digam o que quiserem sobre causas primordiais e imediata, sobre incitamento e militância, sobre cerco e controle, sobre quem fez o quê primeiro para quem, mas uma coisa é clara. Mais de uma década de privação e desespero, com pouca esperança de alívio, levou milhares de jovens de Gaza a se jogarem em um protesto que poucos acreditam que possa de fato conquistar seu objetivo declarado: um retorno para as casas naquilo que hoje é Israel, que seus antepassados deixaram para trás em 1948.

Em cinco semanas de protestos, 46 pessoas foram mortas, e centenas de outras ficaram gravemente feridas, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza.

Com seu índice de 64% de desemprego entre os jovens, Gaza, que se encontra sob um bloqueio mantido por Israel e pelo Egito há anos, apresenta a inúmeros homens como Al-Gerim as mais sombrias das opções.

Eles podem estudar como preparo para vidas e carreiras que agora parecem fora de alcance e esperar por uma oportunidade de um dia emigrar. Eles podem se juntar a grupos como o Hamas ou a Jihad Islâmica, dedicando-se ao conflito armado com Israel em troca de sobrevivência e de sentir que pertencem a algo. Ou eles podem ficar em casa, tentando driblar o tédio fumando tabaco aromatizado em narguilés, ou substâncias mais fortes, esperando que as coisas mudem.

Al-Gerim não se considera nem terrorista, nem insurgente. Ele não é muito de orações, nem de política; diz que não pertence ao Hamas ou ao Fatah ou qualquer outra facção. Ele é um jovem sem nada para fazer, para quem os protestos ofereceram uma oportunidade de fazer churrasco com os amigos de madrugada, dormir até tarde na maioria dos dias, ser útil enquanto canta canções de amor ou martírio ou fim do sofrimento, e atacar um inimigo odiado a tarde inteira.

“Não me importa se eles atirarem em mim ou não”, ele disse durante um momento de quietude dentro da tenda de sua família. “Morte ou vida é a mesma coisa”.

Os protestos, que como um festival ao ar livre incluem jogos, performances e programação criativa e carnificinas todos os dias devem ir escalando até um clímax no dia 15 de maio, dia que marca para os palestinos a “nakba” (ou catástrofe) da sua luta e expulsão quando Israel foi criado 70 anos atrás.

O protesto, que cresceu a partir da página de Facebook de um jovem ativista e foi uma iniciativa popular antes de ser adotada, organizada e promovida pelo Hamas, o grupo militante islamita que governa Gaza, praticamente não assustou os israelenses a ponto de alterar sua política de base. Israel continua a tratar o pequeno enclave costeiro como um vírus letal a ser posto em quarentena e, fora isso, meio que o ignora.

Mas tem sido um sucesso em um aspecto importante: ele colocou em evidência o problema não solucionado que é Gaza, e tem lembrado um mundo que parecia voltar a atenção para crises mais urgentes de que seus 2 milhões de habitantes, privados de água limpa, liberdade de deslocamento e de um abastecimento estável de eletricidade, estão se encaminhando firmemente para o desespero.

Al-Gerim também é típico de uma outra forma. Ele não pensa em Gaza como seu lar, mas ele não faz ideia do que seja um lar.

Sua avó, Haniya al-Kurdi, 80, era uma garotinha quando sua família deixou o que hoje é Ashdod, em Israel, em 1948. Ela nunca voltou, mas ouviu dizer que há uma cafeteria ao lado de onde costumava ser sua casa. O mais próximo que qualquer outra pessoa da família chegou foi em 2013, quando a irmã de Al-Gerim, Sabreen, hoje com 26 anos, teve câncer e recebeu permissão de passar um ano em Tel-Aviv recebendo tratamento. No caminho para lá, sua mãe, Iktimal al-Gerim, pediu para que o motorista apontasse Ashdod para eles a partir da estrada.

Para Al-Gerim, a antiga propriedade da família é mais uma ideia do que um lugar que ele consiga de fato imaginar.

Ele teve mais experiência com os israelenses em si. Quando tinha cerca de 10 anos, antes que os israelenses evacuassem seus assentamentos em Gaza em 2005, Al-Gerim subiu em uma árvore do lado de fora da casa de seu avô para conseguir olhar melhor os soldados a algumas centenas de metros de distância. Então ele caiu no chão e quebrou sua mão direita.

Desde então, ele tem sido tão aventureiro quanto azarado.

Ele costumava criar pombos e galinhas no telhado de sua família, por diversão e para alimentação, até que um ataque aéreo israelense atingiu a casa de um vizinho e ela desmoronou sobre o galinheiro, matando todas suas aves.

Às vezes ele sonha em trabalhar em uma montadora de automóveis, em viajar para o exterior para aprender como construir carros, e depois voltar para Gaza para fabricá-los. Mas o mais perto que ele chegou disso foi carregando tuk-tuks, motos com caçambas, ou empurrando um carrinho de mão para distribuir sacos de farinha, açúcar e outros mantimentos doados a seus colegas refugiados.

Wissam Nassar/The New York Times
Palestinos tentam atravessar arame farpado colocado por militares israelenses Imagem: Wissam Nassar/The New York Times

Durante o outono, às vezes Al-Gerim colhe azeitonas. Quando há trabalho na construção civil, ele procura por oportunidades para empilhar tijolos ou despejar concreto. Ele nunca teve um trabalho regular.

Ele é estoico para um rapaz de 22 anos, embora essa possa ser uma reação à adversidade adquirida: Al-Gerim conta que seu pai é doente mental, propenso a ter surtos destrutivos por qualquer mínima frustração. Sua família, dois irmãos mais novos, uma irmã e seus pais, divide um único quarto de chão de azulejo, com cobertores mas sem cama. O chão da cozinha é de areia. As dívidas da família estão os sufocando, segundo ele.

A diligência de Al-Gerim aparece nos protestos, assim como seu estoicismo.

Na quinta-feira, ele chegou cedo à tenda de sua família, uma gambiarra espaçosa fornecida a eles pelos organizadores do protesto, e começou a varrer o chão de lona pela primeira de muitas vezes, antes de preparar uma fogueira e cozinhar berinjela com tomate que funcionários da prefeitura estavam distribuindo para os necessitados.

No almoço, uma instituição de caridade distribuiu refeições compostas de frango e arroz, e depois Al-Gerim varreu as migalhas e os ossos do chão, enquanto cantava uma música romântica.

Ele não tem namorada, nem esperanças de se casar. “Não tenho dinheiro, não tenho trabalho”, ele explicou. “Casamento não é de graça”.

Depois do almoço, ele foi até a cerca para olhar rapidamente para os soldados israelenses, e depois foi procurar lenha. Ele arrastou um tronco de quase dois metros por mais de 400 metros até a tenda, e o partiu em pedaços com os pés e as mãos.

Mais tarde ele montou pipas com gravetos, plástico transparente e papel e cogitou prender a elas latas de refrigerante contendo trapos embebidos em gasolina, para enviá-las do outro lado da cerca e talvez atear fogo em alguma coisa ou alguém.

Às 22h, ele e seus amigos começaram a preparar churrasco para 12 pessoas, que só terminou às 2h30 da manhã. Leva-se muito tempo para cozinhar 10 kg de asinhas de frango em uma grelha com 45 cm de largura.

Sentado junto à fogueira, um amigo chamado Abu Moaz, 25, disse que queria usar uma pipa para soltar folhetos em hebraico e árabe alertando os soldados israelenses para que “evacuem suas casas e voltem para os países de onde vieram”.

Todos gostaram da ideia.

Al-Gerim foi para casa dormir, mas voltou para a tenda às 8h. Na sexta-feira, voltou a varrer, preparar a fogueira e beber chá com os vizinhos.

Ele foi para a oração da sexta-feira, e depois comeu um sanduíche de falafel.

Às 14h30, agachava-se atrás da barreira de arame farpado, girando seu estilingue como um helicóptero, mirando em vão nos soldados israelenses, repetidas vezes.

Por volta das 17h, ele viu um grupo de homens a algumas centenas de metros ao sul, e correu para ver o que estavam fazendo. Eles haviam conseguido passar pelo arame farpado, e estavam tentando chegar até a cerca principal que marca o território israelense. Al-Gerim recuou e não tentou se juntar a eles.

Perto dele, um homem caiu, depois de ser atingido na barriga por algo que parecia um fragmento de granada, segundo Al-Gerim.

Ele não ficou chocado com aquilo, contou depois.

“Posso ser baleado ou morto a qualquer momento”, ele disse. “Não importa”.

Já anoitecera, e os manifestantes voltavam para casa. E em breve Al-Gerim estava cantando novamente, desta vez uma música libanesa sobre a fadiga do conflito.

“Já chega”, ele cantou baixinho em árabe. “Chega de desgraças, promessas e palavras. Estudantes, sinos de igreja, um soldado, um cavaleiro e chamados para orações. Todos rezam para que a paz prevaleça”.