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Cidade mineradora australiana quebra silêncio sobre passado sombrio de abuso sexual

Fitas em apoio a vítimas de abuso sexual são colocadas em frente à Catedral de São Patrício - Asanka Brendon Ratnayake/The New York Times
Fitas em apoio a vítimas de abuso sexual são colocadas em frente à Catedral de São Patrício Imagem: Asanka Brendon Ratnayake/The New York Times

Jacqueline Williams

Em Ballarat (Austrália)

07/05/2018 00h01

Rob Walsh estava recentemente do lado de fora da Corte dos Magistrados de Melbourne, aguardando por uma audiência pré-julgamento do cardeal George Pell, a terceira mais alta autoridade do Vaticano, quando, segundo ele, se deparou inesperadamente com o próprio cardeal.

O encontro não foi o primeiro deles. Ambos foram criados na mesma velha cidade mineradora, o motivo para o cardeal ter estendido sua mão, convidando Walsh a apertá-la. Walsh se recusou, um gesto que demonstrava o impacto persistente de um escândalo de abuso sexual que durou décadas e abalou a cidade, Ballarat, e causou ondas de choque por todo o mundo.

"A ondulação ainda está no lago e ainda está ocorrendo", disse Walsh de sua casa em Ballarat, referindo-se aos efeitos duradouros desse escândalo, no qual padres abusaram de crianças, incluindo Walsh, nos anos 60 e 70.

"Ela atinge famílias e gerações", ele disse.

A cidade de cerca de 100 mil habitantes já foi o centro da corrida do ouro da Austrália, mas agora é mais conhecida como epicentro da rede de pedofilia, na qual o clero católico abusava daquelas que mais dependiam dele, as crianças dos bairros pobres e operários de Ballarat.

A escala do abuso em Ballarat foi impressionante. Gerald Ridsdale, o ex-capelão da Escola Primária de Santo Alípio, na cidade, foi preso por abusar sexualmente de 65 crianças do início dos anos 60 até o final dos anos 80. Ele foi apenas um dos vários padres condenados por abusar das crianças.

Estima-se que cerca de 45 vítimas cometeram suicídio, provocando uma enxurrada de pesar por parte de pais antes católicos devotos, que disseram que a Igreja lhes roubou seus filhos.

Hoje, os sobreviventes falam em casamentos arruinados, crianças sendo criadas sem pais, vidas desperdiçadas para as drogas e álcool e da entrada e saída de instituições de tratamento.

O que aconteceu aqui é com frequência comparado com uma grande nuvem negra pairando sobre a cidade, que nunca realmente passa.

"É uma história sem fim", disse Walsh, cujos dois irmãos e primo também sofreram abuso na Escola Primária de São Alípio. Nos anos que seguiram, todos os três cometeram suicídio.

"É uma coisa que não passa", acrescentou Walsh, que não alegou ter sofrido abuso por Pell.

Os sobreviventes em Ballarat permaneceram em silêncio por décadas. Até recentemente, a cidade se orgulhava de ser uma comunidade conservadora na qual a Igreja Católica era altamente respeitada. Algumas vítimas se sentiam presas, temendo que suas famílias não acreditariam nelas. Outras temiam o domínio da Igreja aqui.

Na estrada de Melbourne, a capital estadual, para a cidade, o presbitério de Santo Alípio de tijolos vermelhos em estilo gótico imediatamente se destaca. Entrando na cidade, igrejas ornamentadas têm uma presença imponente em muitas das principais ruas.

A Diocese de Ballarat, uma das maiores na Austrália, é um grande centro de poder. Com sua propriedade e outros ativos, estima-se que o patrimônio da Igreja Católica em Ballarat e arredores valha mais de 175 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 460 milhões), segundo a imprensa.

Muitas das famílias católicas da cidade são descendentes de imigrantes irlandeses pobres que eram católicos e vieram para Ballarat nos anos 1800 para trabalhar em suas minas de ouro. Longe das mansões de outras partes da cidade, eles tendiam a se reunir na área de classe operária de East Ballarat, à procura de comunidade em igrejas como a Santo Alípio, após o declínio da indústria de mineração no início dos anos 1900.

East Ballarat "era realmente um vestígio dos dias da corrida do ouro", disse Maureen Hatcher, que morou na cidade por grande parte de sua vida. "Havia muita gente incrivelmente pobre que vinha para cá e nunca conseguiu ganhar o dinheiro que achava que ganharia."

Os bares também exerceram um papel importante na vida de Ballarat desde a corrida do ouro, dizem historiadores. E apesar de terem encolhido em número, alguns moradores disseram que eles contribuíram para o mal do alcoolismo e depressão que persiste até hoje.

O abuso foi particularmente danoso porque, sem a falta dos serviços sociais básicos que predominam hoje, os moradores de East Ballarat dependiam da igreja para apoio, que servia como alicerce para sua comunidade.

No final, os padres traíram aqueles que deveriam proteger, dizem as vítimas.

"Esta comunidade foi devastada pela Igreja Católica", disse Stephen Woods, que sofreu abuso quando era criança nos anos 70.

Foi apenas nos anos 90 que os abusos vieram à tona, disse Woods, que foi vítima em Santo Alípio e posteriormente no próximo Colégio São Patrício, um externato e internato católico.

Ele revelou publicamente seu abuso em 1994 e esteve entre aqueles que abriram caminho para que outros revelassem o que lhes aconteceu.

Mas ele acrescentou que foi o movimento Loud Fence, que teve início há cerca de três anos, que finalmente deu à comunidade sua voz para falar sobre seu passado sombrio.

O movimento teve início quando milhares de moradores e pessoas por toda a Austrália começaram a pendurar fitas coloridas na cerca em torno de Santo Alípio e São Patrício para demonstrar apoio às vítimas.

Hatcher, a fundadora do movimento, disse que apesar das fitas às vezes serem arrancadas das cercas pelos paroquianos, elas uniram as pessoas e agora servem como símbolo de denúncia de abuso.

"Há mais fitas coloridas na cerca agora do que antes", disse Frank Sheehan, um ex-legislador estadual de Ballarat.

Encontrar sua voz ajudou Ballarat a se tornar algo mais. Assim como a corrida do ouro transformou a cidade de uma pequena comunidade de criadores de ovelhas em uma grande cidade mineradora, a nova disposição de falar sobre o escândalo de abuso transformou a localidade de uma ex-cidade mineradora e industrial conservadora, fechada, em uma comunidade mais tolerante e inclusiva.

Belinda Coates, a ex-vice-prefeita da cidade, disse que percebeu a mudança, com muitas grandes organizações daqui agora escolhendo líderes do sexo feminino.

Ballarat é a primeira cidade da Austrália a se juntar à Rede de Cidades Interculturais do Conselho da Europa, uma declaração de intenção de se tornar uma comunidade mais acolhedora e culturalmente diversa, como também visto na aceitação por Ballarat de um número crescente de novos imigrantes de países como Sudão e Afeganistão.

"Há uma espécie de revolução silenciosa em curso em Ballarat", disse Coates.

"Quando você começa a contestar o status quo, isso provoca ondas na comunidade", ela acrescentou. "Mais pessoas estão encontrando suas vozes."

Mas essa transformação se deve em grande parte a uma grande tragédia. Moradores e ex-vítimas esperam que decisão do tribunal sobre se Pell será julgado por "crimes sexuais históricos", que ocorrerá em breve, ajude Ballarat a encontrar um encerramento.

"Estamos todos aguardando pela decisão", disse Walsh. "A Igreja Católica realmente precisa mudar. É simples assim."

Tradutor: George El Khouri Andolfato