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Opinião: Elon Musk é o Donald Trump do Vale do Silício

Elon Musk está cada vez mais parecido com Donald Trump em suas atitudes - Diego Donamaria/Getty Images
Elon Musk está cada vez mais parecido com Donald Trump em suas atitudes Imagem: Diego Donamaria/Getty Images

Bret Stephens

29/05/2018 00h01

Ele é propenso a reações impulsivas e desequilibradas pelo Twitter. Não consegue lidar com críticas. Critica a mídia de notícias por sua suposta desonestidade e ameaça criar um aparato ao estilo soviético para checá-la. Ele enrola as pessoas para que desembolsem dinheiro em troca de promessas que não cumpre. É um bilionário cujos negócios flertam com a falência. Ele vendeu a si mesmo como um iconoclasta esmagador do establishment quando na verdade é pouco mais que um artista da enganação incomumente hábil. Suas legiões de devotos são fanáticas e, vamos falar a verdade, um pouco estúpidas.

Eu falo do presidente-executivo da Tesla, Elon Musk, o Donald Trump do Vale do Silício.

Há não muito tempo, um amigo sábio com uma reputação invejável em Wall Street me escreveu para descrever seu assombro com a Tesla, a chamando de "uma situação diferente de tudo que já vi".

"A valorização das ações da empresa é estratosférica", ele disse, "ao mesmo tempo que seus títulos são vistos como junk (de alto risco)".

"Enquanto isso", ele acrescentou, Musk "joga com seu público com tuítes constantes de alegações que, em grande parte, de forma repetida e visível, não se cumprem. E a Comissão de Valores Mobiliários, que supostamente deveria impedir empresas assim de levantarem dinheiro junto ao público sob falsos argumentos, não faz nada".

Palavras fortes, fortes demais, se você perguntar aos clientes satisfeitos com o Modelo S (preço mínimo, US$ 74 mil) e X (US$ 79 mil) da Tesla. Mas ela é supostamente a fabricante de carros do futuro, não uma fabricante de bugigangas para ricos.

Tesla Model 3 - Jason Lee/Reuters - Jason Lee/Reuters
O Modelo 3 é um dos principais veículos da Tesla
Imagem: Jason Lee/Reuters

A empresa raramente deu lucro em seus quase 15 anos de existência, altos executivos estão fugindo como se fosse um Ford Pinto explodindo e a empresa está em uma briga feia com o Conselho Nacional de Segurança nos Transportes. Ela queima dinheiro a um ritmo de US$ 7.430 por minuto, segundo a agência de notícias "Bloomberg". Ela não atingiu suas metas de produção de seu Modelo 3 de US$ 35 mil, para o qual mais de 400 mil pessoas fizeram um depósito de entrada de US$ 1.000, e no qual se apoia em grande parte a sorte da empresa.

Além disso, o carro é um limão. Assim como a antiga piada do Borscht Belt, em Nova York, a comida é ruim e as porções são muito pequenas.

Assim, o que dizer de Elon Musk resolver a mudança climática e tudo mais que prometeu fazer, como construir cidades em Marte ou (ainda mais absurdo) solucionar o trânsito de Los Angeles? A esta altura, seria suficiente Musk salvar sua empresa e os empregos de seus cerca de 37 mil funcionários. Para eles e suas famílias, salvar o mundo exige primeiro que Musk faça com que seus negócios existentes deem lucro, não inventar histórias sobre os futuros.

Deixarei aos analistas de mercado determinarem se isso pode acontecer (alguns realmente acham que sim), apesar de que a solução não virá de encontrar o próximo John Sculley para disciplinar o Steve Jobs de Musk. A Apple dos anos 80 era uma ideia brilhante com um líder terrível.

A Tesla atual, por sua vez, é uma ideia terrível com um líder brilhante. A ideia terrível é a de que carros elétricos são a onda do futuro, ao menos para o mercado de massa. A gasolina tem vantagens em densidade de energia, custo, infraestrutura e transportabilidade que a eletricidade não terá ainda por décadas. O brilhantismo é a habilidade, como a de Trump, de Musk de fazer as pessoas acreditarem nele e em suas promessas absurdas. A Tesla sem Musk seria Oz sem o Mágico.

Grande parte da culpa pelo fiasco da Tesla se deve ao governo, que, em nome da virtude verde, decidiu subsidiar os hobbies dos milionários na ordem de US$ 7.500 em crédito fiscal federal por carro vendido, além dos descontos adicionais estaduais. A Tesla seria uma empresa viável sem subsídios? Eu duvido. Quando Hong Kong eliminou os subsídios no ano passado, as vendas da Tesla caíram de 2.939 para zero. Seria injusto descrever a Tesla como uma Solyndra sobre rodas, mas não muito.

Mas a história da Tesla não é apenas sobre os riscos do desenvolvimento mal direcionado liderado pelo governo e de empreendedores espertos à caça de subsídios. E não se trata de questionar a virtude daqueles que gostam de ambientalistas idôneos que apresentam estofamentos veganos. Trata-se de arrogância e credulidade, a arrogância de alguns poucos que fingem saber o futuro e a da credulidade de muitos que os seguem.

Os veículos elétricos deveriam ser os carros do futuro porque estávamos ficando sem gasolina, até não estarmos mais. E Musk deveria ser um visionário, porque falava de visões, para as quais sempre haverá uma grande público receptivo. Procurar por uma causa e um salvador no qual acreditar é o que americanos demais fazem ultimamente, talvez em consequência da rejeição das causas e salvadores nos quais costumávamos acreditar.

Trump há muito tempo percebeu que a verdade é aquilo que ele consiga emplacar, um tipo de sabedoria cínica que explorou até chegar à Casa Branca e com cujas consequências convivemos diariamente. Com Musk, as consequências não chegam a ser tão sérias, mas o padrão essencial é o mesmo. Talvez ele tente nos vender a seguir uma máquina do tempo e prometer viagens a qualquer um disposto a fazer um depósito de US$ 10 mil. O dinheiro, com certeza, viria a calhar para a Tesla.

Tradutor: George El Khouri Andolfato