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Cantora taiwanesa que já foi proibida na China ainda faz sucesso no coração de Pequim

Guo Xueyan canta as canções de Teresa Teng em um restaurante em Pequim - Yan Cong/The New York Times
Guo Xueyan canta as canções de Teresa Teng em um restaurante em Pequim Imagem: Yan Cong/The New York Times

Javier C. Hernández

Em Pequim

27/01/2019 00h01

Com uma cerveja em uma mão e um microfone na outra, Meng Xiaoli começa a cantar no meio de um restaurante lotado.
 
"Seu sorriso é doce como mel/Como flores desabrochando na brisa de primavera/Onde será que eu te vi?"
 
Durante a semana, Meng, 53, um analista de orçamento certinho que usa um broche vermelho do Partido Comunista Chinês na lapela, passa seus dias entre reuniões e relatórios trabalhando para uma estatal.
 
Mas nos finais de semana, ele se retira para aquilo que chama de seu "lar espiritual", um restaurante e museu de dois andares em Pequim que é templo para a mulher que ele considera uma deusa: a cantora pop taiwanesa Teresa Teng, uma das artistas mais celebradas da Ásia.
 
"Ela sabe o que é ser humana, encontrar o amor e cometer erros", disse Meng.
 
Teng, que morreu repentinamente aos 42 anos de idade, ficou conhecida por transformar canções tradicionais taiwanesas e chinesas em sucessos melosos no estilo ocidental. Ela chegou a ser banida uma vez no continente, tendo sua música condenada pelas autoridades como "decadente" e "pornográfica".
 
Mas ela nunca perdeu sua base de fãs fervorosos aqui, mesmo quando as tensões escalaram entre a China e Taiwan, a ilha autogovernada que Pequim considera como parte de seu território.
 
Seus seguidores mais fanáticos hoje se reúnem em um restaurante temático em homenagem a Teresa Teng, em um bairro residencial da zona oeste de Pequim, perto de lojas de bebidas, churrascarias e restaurantes de hot pot. Um retrato enorme de Teng, que sorri enquanto segura uma rosa branca, decora sua porta de entrada.
 
Do lado de dentro, cantoras trajando elegantes vestidos fazem interpretações de suas músicas mais famosas, como "The Moon Represents My Heart" ("A lua representa meu coração") e "Sweet as Honey" ("Doce como mel"). Os clientes degustam pratos inspirados na música de Teng, que incluem "panquecas lunares" e abóbora frita com molho de mel.
 
Mais de duas décadas após sua morte, os fãs de Teng no continente dizem que sua voz doce e sua personalidade meiga ainda são únicas.
 
"Ela é uma contadora de histórias", disse Zheng Rongbin, executivo de mídia que abriu o restaurante em 2011. "Ela parece uma garota comum".
 
Em uma apresentação recente na hora do almoço, Wu Yingwei, 30, observava enquanto sua filha, Muyao, 2, dançava ao som de uma interpretação de "Ask Yourself", música onipresente em todos os bares de karaokê da Ásia.
 
Wu disse que sua filha só gostava de ouvir as músicas de Teng e que sabia cantar vários de seus sucessos, inclusive "Sweet as Honey".
 
"O estilo de Teresa Teng nunca envelhece", ela disse. "Suas músicas são muito suaves e aquecem demais meu coração".
 
Muitos habitantes da China continental alegam que Teng é uma deles, embora ela tenha nascido em Taiwan.
 
Seu pai, que cresceu no continente, na província de Hebei, fazia parte das forças nacionalistas que combateram os comunistas de Mao Tsé-Tung na Guerra Civil Chinesa. Ele se refugiou em Taiwan em 1949, quatro anos antes de Teng nascer.
 
Teng foi uma das primeiras cantoras estrangeiras cuja música entrou na China desde que o país começou a abrir sua economia para o mundo, no final dos anos 1970.
 
Mas sua música logo foi proibida como parte de uma campanha do governo comunista para bloquear a "poluição espiritual" do Ocidente. O governo taiwanês usava sua música como uma arma psicológica, tocando-a de alto-falantes posicionados perto do continente.
 
Fitas com músicas de Teng circulavam em um mercado negro no continente, e sua popularidade era evidente. Devido ao seu sobrenome, que em chinês usa os mesmos caracteres que o líder comunista Deng Xiaoping, às vezes as pessoas a chamavam de Pequena Deng, sinal de sua presença no imaginário da população.
 
De vez em quando Teng se expressava politicamente, realizando shows em solidariedade aos manifestantes pró-democracia que se reuniram na Praça da Paz Celestial em Pequim em 1989. Ela nunca se apresentou no continente.
 
Contudo, nos últimos anos, o governo começou a gostar de sua música e a mídia estatal celebra suas raízes continentais.
 
Em 2011, as autoridades inauguraram um memorial em homenagem a Teng na cidade natal de seu pai, Daming, para onde seus fãs peregrinam no aniversário de sua morte.
 
O continente tem pelo menos dois restaurantes dedicados a Teng, incluindo o de Pequim, que fica no centro de uma iniciativa de disseminação cultural conhecida como Taiwan Street.
 
Zheng, o proprietário, disse que a música de Teng ainda era popular no continente porque lembrava as pessoas de quando elas ouviram suas músicas pela primeira vez nos anos após o caos da Revolução Cultural de Mao.
 
"Para muita gente, foi uma experiência muito nova e muito diferente do que eles ouviram durante a Revolução Cultural", disse. "Hoje, quando as pessoas ouvem a música, eles se lembram de como era ser jovem".
 
Teng é saudada como um símbolo de comunhão entre a China e Taiwan em um momento de deterioração das relações, tendo o presidente chinês Xi Jinping alertado, recentemente, que tentativas de Taiwan de afirmar independência poderiam ser recebidas com força militar.
 
Mas Zheng diz que não tinha política em mente quando abriu o restaurante.
 
"A música não tem fronteiras", ele disse.

Tradutor: UOL