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China cobiça porto italiano esquecido como uma entrada para a Europa

Construção em uma plataforma no porto de Trieste, um dos projetos que poderiam se beneficiar de um acordo econômico sino-italiano, em Trieste, Itália - Nadia Shira Cohen/The New York Times
Construção em uma plataforma no porto de Trieste, um dos projetos que poderiam se beneficiar de um acordo econômico sino-italiano, em Trieste, Itália Imagem: Nadia Shira Cohen/The New York Times

Jason Horowitz

Em Trieste (Itália)

20/03/2019 00h01

Durante séculos, essa cosmopolita cidade portuária na ponta norte da costa adriática da Itália foi um ponto geográfico crucial entre impérios. Depois, ao longo de quase 70 anos, o brilho geopolítico de Trieste foi se apagando e sua mistura de culturas europeias tornou-se rançosa, como um strudel velho em um de seus elegantes cafés.

Agora, graças à ascensão da China, Trieste parece estar pronta para voltar ao centro de um mundo em realinhamento.

Esta semana, o presidente chinês Xi Jinping chega a Roma para uma visita oficial, na qual a Itália deve se tornar a primeira nação do G7 a participar do vasto projeto de infraestrutura da China chamado Um Cinturão, Uma Rota. O simbolismo é notável. Poderosa, a China rompe a aliança econômica que já dominou o mundo no passado e dá um grande golpe no governo Trump, crítico à iniciativa do Cinturão e da Rota.

Para a Itália, o acordo abriria o país para mais investimentos dos chineses em infraestrutura, especialmente em portos como Trieste. O governo italiano espera que conglomerados financiados por Pequim, como a China Communications Construction Co., apostem centenas de milhões de euros em concessões para a infraestrutura.

Para a China, ter um ponto de apoio em um dos portos históricos da Europa traria condições alfandegárias favoráveis, uma rota comercial mais rápida para o coração do continente e acesso direto a ferrovias para levar seus produtos para dentro da União Europeia.

“Basicamente, o que está acontecendo é que o porto de Trieste está voltando ao papel logístico para a Europa que tinha para o império austro-húngaro”, disse Zeno D’Agostino, presidente da autoridade portuária de Trieste, em seu escritório tomado por presentes de delegações chinesas e um livro sobre relações culturais entre Europa e China.

Quem caminha por Triste consegue notar como a cidade já se abriu para a China. Turistas chineses compram o café Illy, marca registrada da cidade, e tiram fotos do elegante Caffè Degli Specchi com seus celulares da Huawei. Um cruzeiro novinho em folha, construído em estaleiros próximos especificamente para passageiros chineses, prepara-se para fazer a rota de Marco Polo para o Extremo Oriente.

Mais significativos ainda são os peões de obras com equipamento de mergulho erguendo fundações perto do local onde um novo píer deve se tornar a base da China no porto. Durante anos após a Segunda Guerra Mundial, os americanos mantiveram grande influência em Trieste, e Washington tem tentado, até o momento sem sucesso, impedir o acordo da Itália com Xi, caracterizando a iniciativa Cinturão e Rota como uma ameaça econômica e possivelmente militar.

Embora outros membros da União Europeia, incluindo a França e a Alemanha, também tenham expressado reservas quanto ao acordo com a China, apoiadores na Itália dizem que não há nada com que se preocupar e que os críticos estão meramente incomodados com o fato de que Trieste e outros portos italianos, como Gênova e Palermo irão ficar com uma fatia de seus negócios. Eles rejeitam as comparações com o porto de Pireus na Grécia, que a China basicamente comprou, e dizem que a legislação italiana torna impossível uma aquisição como essa ou a criação de armadilhas de dívidas por parte dos chineses.

Michele Geraci, ministro de Desenvolvimento Econômico da Itália que está conduzindo as negociações com Pequim, disse em uma entrevista que navios chineses que carregam materiais de casa ou de sua vasta rede de interesses na África através do Canal de Suez simplesmente precisavam encaminhar suas mercadorias para mercados europeus o mais rápido possível.

“Trieste consegue cumprir essa exigência rapidamente”, disse.

Autoridades italianas dizem que inicialmente os americanos pareciam desinteressados no acordo. O vice-premiê Luigi Di Maio, líder do Movimento Cinco Estrelas, fez várias viagens para a China nos últimos meses, e quase teria assinado o acordo durante uma visita feita a Pequim em novembro. Após o fato, diplomatas americanos começaram a argumentar, mas os italianos disseram que era visível que o acordo não vinha recebendo atenção americana, durante reuniões de alto nível em Washington.

Mas este mês, Garrett Marquis, porta-voz do assessor de segurança nacional dos EUA, John R. Bolton, atacou o acordo em um post no Twitter e em diversas entrevistas, enquanto a conta oficial do Conselho de Segurança Nacional no Twitter também publicou uma crítica no dia 9 de março.

“Endossar a Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota confere legitimidade à abordagem predatória da China para os investimentos e não trará nenhum benefício para o povo italiano”, afirmava o tuíte.

Em Trieste, autoridades municipais estão focadas nos benefícios econômicos para o porto.

Para além da conveniência de sua localização, a cidade comemorou na segunda-feira (18) o 300º aniversário da declaração de Trieste como “porto franco” por parte do imperador Carlos 6º da Áustria. Esse status ainda confere privilégios especiais, com a isenção de cobranças alfandegárias ou de limitações de tempo sobre o armazenamento de mercadorias.

Se o acordo for aprovado, os proponentes preveem que empresas chinesas trabalhem com empresas italianas, contratando mão de obra local para montar bens importados antes de colocá-los em trens a serem despachados para o resto da Europa ou em navios de volta para a China. Se a quantidade de trabalho e de componentes usados atenderem às exigências alfandegárias, esses produtos podem receber o rótulo Made in Italy.

Mas algumas lideranças empresariais dizem que abraçar completamente o programa Um Cinturão, Uma Rota traria riscos e complicaria as iniciativas para trazer outros investimentos para Trieste.

Vittorio Petrucco, presidente da I.CO.P, construtora que atua no porto, disse que ele e um ex-consultor da Microsoft em Trieste, que abriga um setor de pesquisas pulsante, haviam começado a explorar seu “sonho” de construir um centro de processamento de dados submarino que resfriaria os servidores de gigantes da tecnologia americanos.

“Prefiro olhar para o Ocidente no lugar do Oriente”, disse Petrucco a respeito de seu projeto, planejado para uma área perto de uma antiga siderúrgica com vista para o píer que os chineses pretendem usar. Ele acrescenta que ambos os projetos demorariam anos para ser concluídos, e teme que a oposição americana e a controvérsia que ronda o acordo do Cinturão e da Rota acabem atrapalhando sua proposta.

“É triste”, disse, “mas não há nada que eu possa fazer a respeito”.

Roberto Dipiazza, prefeito de Trieste, disse que os Estados Unidos poderiam naufragar o acordo se realmente quisessem. Ele disse que sua cidade tinha muito a ganhar com uma relação mais próxima com a China, mas que os chineses tinham ainda mais a ganhar com os portos profundos, benefícios alfandegários e pátios ferroviários de Trieste.

“Vamos encontrar um ponto de concordância entre a China e os Estados Unidos”, disse, mostrando um boné Make America Great Again que ganhou de presente, autografado pelo presidente Donald Trump. A Itália, observou, foi parar “no meio da disputa” entre os dois países.

Tradutor: UOL