Marcela Sanchez: Uribe começa a acreditar que é indispensável

Marcela Sanchez

Em uma entrevista no mês passado à BBC, o presidente colombiano Álvaro Uribe não conseguiu esconder sua exasperação. O entrevistador, contudo, tinha feito uma pergunta aparentemente inofensiva: "O senhor quer ser presidente por mais quatro anos?"

"Próxima pergunta, amigo", disse Uribe ao jornalista argentino que conduzia a entrevista. "Estude a história do seu país e deixe a democracia colombiana em paz."

  • AFP

Pode-se dizer que o desejo não declarado de Uribe por um terceiro mandato no próximo ano e a controvérsia que cerca a reforma constitucional necessária são assuntos delicados. Após sete anos no cargo -e uma reeleição anterior que também exigiu uma reforma constitucional- Uribe continua muito popular e seus sucessos significativos nas áreas de segurança nacional e economia persuadiram muitos, inclusive ele mesmo, de que Uribe é indispensável.

Contudo, é melhor que Uribe mantenha sua sensitividade e excesso de segurança sob controle. Apesar do apoio de Washington ter sido chave para as vitórias de Uribe, o governo Obama não está convencido de sua indispensabilidade. Apesar dos elogios a Uribe nos últimos anos, é difícil encontrar atualmente políticos americanos de qualquer lado do espectro que apóiem um terceiro mandato.

"Aos olhos de muitos americanos, a democracia envolve limites de governo e poder", disse um representante de um senador republicano no início desta semana. Ele acrescentou que Uribe arrisca ser percebido -como os líderes da Venezuela, Bolívia e Nicarágua- como alguém tentando se segurar no poder.

No mês passado, esses sentimentos foram ecoados nas páginas de opinião do "Washington Post", que frequentemente publica artigos apaixonados em apoio a Uribe. Os editores argumentavam: "Uribe demonstrou quanto um presidente capaz pode realizar; hoje, ele tem a chance de demonstrar a importância de colocar instituições e o Estado de direito acima de qualquer líder."

Por causa desses sentimentos, Uribe agora precisa demonstrar aos colombianos que suas relações com Washington continuam fortes e que a ajuda e o comércio com os EUA vão continuar a crescer. Ele vai tentar reforçar seus laços com os EUA quando visitar Washington no dia 29 de junho para encontrar-se com o presidente Obama.

Obama provavelmente vai elogiar Uribe por seus sucessos contra grupos paramilitares e guerrilheiros e por seus esforços incansáveis contra traficantes de drogas. Não está tão claro se Obama vai pressionar Uribe publicamente (ou mesmo privadamente), enquanto evita passar a impressão de estar se metendo em assuntos internos da Colômbia.

Depois de investir mais de US$ 6 bilhões (em torno de R$ 12 bilhões) na Colômbia na última década, Washington tem alguma influência, e grupos de direitos humanos esperam que Obama a use. Organizações como o Grupo de Trabalho da America Latina e o Centro de Política Internacional vão pedir a Obama que expresse preocupações sobre tendências preocupantes de direitos humanos na Colômbia. Na questão específica de um potencial terceiro mandato para Uribe, Adam Isacson, especialista na Colômbia do Centro de Política Internacional diz que os grupos vão argumentar que Obama não precisa discutir a reeleição, mas tem o dever de lembrar Uribe da importância das instituições democráticas e suas regulamentações.

Isso não significa que os grupos queiram que Obama ameace Uribe. Apenas querem que Obama admita publicamente que um terceiro mandato ameaçaria a posição colombiana em Washington.

Enfrentando uma recessão econômica e demandas crescentes de ajuda para combater o crime organizado em outras partes do hemisfério, os líderes do Congresso americano estão tendo maiores dificuldades em justificar a continuidade da assistência à Colômbia. Um terceiro mandato para Uribe tornaria quase impossível a ratificação do acordo pendente de livre comércio bilateral.

Assistência e comércio, entretanto, continuam essenciais ao futuro da Colômbia. Após ajudar a assegurar o país militarmente, a assistência americana agora está sendo usada para garantir a paz. Milhões de dólares estão sendo usados para fornecer alternativas sustentáveis para produtores de coca e prover apoio a cerca de 3 milhões de refugiados internos -o maior número do mundo, conforme um relatório desta semana do Alto Comissariado de Refugiados da ONU.

Além disso, o apoio americano à capacidade judicial continua crucial, especialmente após novas denúncias de violência e abuso. Mais recentemente, as autoridades judiciais do país começaram a estudar casos nos quais militares mataram civis e outros nos quais o serviço de inteligência do governo grampeou juízes da Suprema Corte, líderes da oposição, ativistas e jornalistas.

Apesar de seu governo estar sob fogo pelos dois escândalos, Uribe não foi diretamente implicado. Ainda assim, ele frequentemente culpa seus inimigos por fabricarem os problemas.

Claramente, um dos contratempos de deter o poder por muito tempo é o de fazer inimigos. Outro é a tentação de priorizar suas próprias necessidades sobre as do país. Outro ainda, ao que parece, é que a pessoa se esquece de reagir ativamente, como Uribe fazia tão eficazmente no passado.

Tradução: Deborah Weinberg

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