Marcela Sanchez: As precariedades do multilateralismo

Marcela Sanchez
Washington (EUA)

Os delegados de Honduras que chegaram aqui na semana passada para reunirem-se com os membros do congresso e outras autoridades dos Estados Unidos estavam nitidamente insatisfeitas com a resposta norte-americana à deposição no mês passado do presidente hondurenho Manuel Zelaya. Insistindo que estavam aqui para defender a democracia - e não apenas Zelaya - os delegados sentiram que o governo Obama não estava fazendo tudo o que podia.

"Eu nunca fui ativo em nenhum partido político... Estou aqui para defender o nosso sistema de legalidade que nos custou tanto", afirmou Jari Dixon, um advogado do gabinete do procurador-geral hondurenho que no ano passado participou de uma greve de fome de 38 dias para promover a independência do Judiciário. "Este é um golpe contra todos nós", acrescentou Dixon.

Assim, Dixon e os outros delegados acreditam que as autoridades norte-americanas deveriam usar toda a sua influência para pressionar os líderes do golpe a deixar o poder - impondo sanções comerciais, suspendendo todos os auxílios bilaterais, congelando as reservas internacionais hondurenhas mantidas em bancos norte-americanos, retirando o embaixador norte-americano em Honduras e cancelando os vistos para os Estados Unidos.

Exatamente quando o governo Obama se empenha em responder em conjunto com a comunidade internacional, e especialmente com os países da América, alguns indivíduos desejam uma postura mais unilateral. É esta a ironia existente na manutenção da promessa de Obama de promover uma nova era de parceria entre as nações da América.

Em um discurso recente no Conselho de Relações Exteriores, a secretária de Estado, Hillary Clinton, afirmou que a diretriz central da nova política externa do governo Obama é a "profunda responsabilidade para exercer a liderança norte-americana para resolver problemas em conjunto com outros países". Hillary Clinton acrescentou que "outros países veem os Estados Unidos como uma potência que não presta contas a ninguém, e que não perde tempo em impor a sua vontade em detrimento dos interesses dessas nações e dos nossos princípios", tornando a liderança dos Estados Unidos suspeita e objeto de desconfiança.

Com relação à crise hondurenha, o governo Obama está adotando uma abordagem respeitosa e baseada em princípios na sua diplomacia. Embora Obama tenha se unido rapidamente aos líderes dos outros países americanos na condenação ao golpe e no apoio à suspensão da filiação de Honduras à Organização dos Estados Americanos (OEA), ele também manteve uma postura discreta em relação ao problema.

Aqueles que estão em Honduras, defendendo a democracia do país, veem esta postura discreta como inação. Para eles, o tempo é essencial. Cada dia que se passa sem o presidente eleito no poder é uma vitória para o presidente de facto, Roberto Micheletti, que parece acreditar que só precisa ocupar a presidência até a eleição presidencial de novembro para conseguir eliminar a ameaça representada por Zelaya.

Mas esta é uma visão limitada do que vem a ser sucesso. Sem uma resolução que agrade Zelaya e os que o apoiam - ou, de forma mais geral, os que se opõem ao golpe -, o potencial para repressão e violência aumenta. Muitos observadores concordam que a polarização em Honduras já está aumentando. A mais recente pesquisa conduzida pelo instituto CID-Gallup, com sede na Costa Rica, revelou que 44% dos hondurenhos desaprovam Zelaya e que 49% são contrários a Micheletti.

A política externa respeitosa de Obama também enfrenta desafios em Washington. Ao afirmar que o golpe foi legal e ao legitimar o governo Micheletti recebendo os seus enviados, os parlamentares republicanos abalaram a suposta frente unida contra a deposição de Zelaya.

De acordo com Lisa Haugaard, diretora-executiva do Grupo de Trabalho da América Latina, com sede em Washington, esse "esforço concentrado" para apoiar o golpe vem sendo liderado pela delegação da Flórida no Congresso. "Isso é um reflexo do medo do presidente venezuelano Hugo Chávez; um medo que está se manifestando de maneira realmente exagerada", diz ela.

Chávez, um dos aliados políticos de Zelaya, não desempenhou um papel construtivo na crise hondurenha. Mas esses membros do congresso norte-americano também não ajudaram: eles detestam tanto Chávez que aceitaram a expulsão forçada de um presidente democraticamente eleito e legitimaram os responsáveis pelo golpe.

Talvez o verdadeiro fator para a avaliação da nova era do engajamento internacional de Obama na América Latina será o seu efeito sobre a Venezuela. Embora Hillary Clinton não tenha se referido especificamente a Chávez no seu discurso sobre política externa, ela prometeu conversar com aqueles que discordam dos Estados Unidos, apesar dos obstáculos.

Ela afirmou que o objetivo de longo prazo é "criar uma arquitetura global diferente - uma arquitetura que apresente incentivos bastante claros para a cooperação e para o cumprimento das responsabilidades, bem como fortes desincentivos para que indivíduos coloquem-se à margem dos processos ou semeiem a discórdia e a divisão".

Ainda no seu discurso, Hillary Clinton reconheceu que "o cultivo dessas parcerias...exige tempo e paciência; e também persistência. Isso não significa a procrastinação das questões urgentes". Para aqueles que defendem a democracia em Honduras, nada disto está sendo imediatamente evidente.

Tradução: UOL

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