Marcela Sanchez: Furiosos com a Colômbia

Marcela Sanchez

Uma base é fechada, busca-se uma substituta e de repente a América do Sul fica furiosa. Os presidentes do Brasil e Chile, Luiz Inácio Lula da Silva e Michelle Bachelet, estão incomodados com a ideia. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, alerta sobre uma guerra potencial. E os líderes sul-americanos convocam um encontro de cúpula extraordinário para exigir explicações.

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O furor gira em torno de uma maior presença militar americana na Colômbia. No mês passado, o Equador encerrou um acordo de 10 anos que permitia que os Estados Unidos lançasse missões de combate às drogas da Base Aérea de Manta, na costa do Pacífico equatoriana. Assim, os Estados Unidos precisavam de uma forma para seus aviões E-3 AWACS e outras aeronaves de vigilância manterem as operações de combate ao narcotráfico ao longo de um trecho de território frequentemente usado pelo tráfico de cocaína, que passa pela América Central e México e entra nos Estados Unidos. Meses atrás, as autoridades americanas começaram a negociar com seus pares colombianos a permissão para que militares americanos e empresas contratadas usassem até cinco bases aéreas colombianas e dois portos.

Em resposta aos protestos públicos que se seguiram, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, embarcou recentemente em uma viagem de três dias por sete países sul-americanos para acalmar os temores em torno do acordo. O presidente Obama assegurou aos críticos que as bases não serão instalações americanas, e o general James Cartwright do Corpo de Marines americano, o vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, pediu para que o processo seja o "mais transparente possível".

As reações negativas na região não são novidade: há 10 anos, o Plano Colômbia apoiado pelos Estados Unidos criou uma controvérsia semelhante. A maioria dos líderes regionais expressou desconforto, muitos exigiram explicações e Chávez, que estava apenas iniciando sua presidência, alertou que o plano poderia levar a um "conflito de média intensidade" na América do Sul.

Mas as mais recentes objeções são desanimadoras, em parte porque 10 anos de presença americana na Colômbia demonstraram, acima de tudo, a eficácia da cooperação. A assistência americana não apenas fortaleceu o combate da Colômbia às drogas ilegais e às guerrilhas violentas, mas também ajudou a profissionalizar as forças armadas do país e melhorar seu histórico de direitos humanos.

Os temores de um conflito -de média intensidade ou qualquer outro- até o momento provaram ser infundados. A incitação renovada do medo parece particularmente ridícula considerando que os Estados Unidos simplesmente realizarão as mesmas missões que têm realizado há 10 anos no Equador.

Ainda mais desanimador, essas objeções revelam quantas pessoas na região ainda estão em negação a respeito das implicações transnacionais do tráfico de drogas e do crime organizado. Em 2000, o presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, se referiu à produção e tráfico de drogas na Colômbia como um "problema doméstico" que não deveria exigir interferência externa. E após a recente visita de Uribe a Brasília, as autoridades brasileiras pareceram igualmente não preocupadas com o impacto internacional das drogas ilegais e não ofereceram cooperação.

Felizmente, esse pensamento não é universal.

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Logo após declarar guerra contra os cartéis das drogas mexicanos, o presidente do México, Felipe Calderón, contatou a Colômbia para fortalecer a cooperação, e durante sua visita em 13 de agosto a Bogotá, ele destacou que a luta contra o crime organizado deve ser uma "responsabilidade compartilhada" por todo o hemisfério.

O Peru aumentou igualmente a cooperação com a Colômbia no combate às drogas. Os dois países agora contam com oficiais militares posicionados nas bases um do outro ao longo da fronteira, e o presidente peruano, Alan García, foi aquele que deu mais apoio dentre todos os líderes visitados por Uribe durante seu giro pela América do Sul. Essa crescente cooperação entre Peru, México e Colômbia deve inspirar confiança e acalmar as suspeitas que cresceram em outros países nos últimos dias.

A embaixadora da Colômbia nos Estados Unidos, Carolina Barco, estava ávida em destacar a cooperação Sul-Sul contra o crime organizado e o tráfico de drogas. "Nosso hemisfério está evoluindo nessa direção", ela disse em uma recente entrevista, acrescentando que o espírito de parceria promovido pelo presidente Obama na região deve "dar um maior ímpeto a esse trabalho".

Obama expressou frustração com a aparente "hipocrisia" dos líderes da região, que continuam a apontar dedos para os Estados Unidos. Respondendo recentemente às críticas de que Washington não agiu com força suficiente contra os líderes do golpe nas Honduras, Obama lamentou que "os mesmos críticos que dizem que os Estados Unidos não intervieram o suficiente em Honduras são os mesmos que dizem que estamos sempre intervindo e que os ianques precisam sair da América Latina. Não dá para fazer as duas coisas".

Se os líderes regionais querem continuar mantendo Washington à distância, é melhor eles começarem a fazer mais por conta própria.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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