O mito da guerra necessária

Robert Kagan*

O presidente Barack Obama recentemente defendeu o combate americano no Afeganistão como uma "guerra de necessidade", e não uma "guerra de escolha". Ele pegou emprestada essa distinção supostamente clara de Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores e autor de um recente livro sobre o assunto. Haass rapidamente corrigiu o presidente, provando como essa distinção é de pouca ajuda. O Afeganistão é uma "guerra de escolha", escreveu no dia 21 de agosto para o "The New York Times", "uma escolha do Obama".
  • Rafiq Maqbool/AP

    Soldados acompanham a eleição de Obama pela TV, na base militar de Fortress (Afeganistão)


Obama entrou em um território pantanoso que deve ser evitado. Houve poucas guerras claras de necessidade na história dos EUA - se alguma. A Revolução Americana não foi uma guerra de necessidade, pois tanto os defensores da independência quanto os britânicos tinham outras escolhas, no caso britânico, melhores. A Guerra Civil americana ainda é considerada por alguns historiadores como um derramamento de sangue desnecessário e catastrófico (a escravidão, argumentam erroneamente, eventualmente teria morrido de causas naturais.) Esqueçamos a guerra dos EUA com o México, a guerra hispano-americana, as muitas intervenções dos EUA na América Central e o Caribe ou, na opinião de muitos, a Primeira Guerra Mundial.

Os próprios exemplos de Haass não se encaixam tampouco. Ele cita a guerra do Golfo Persa como uma "guerra de necessidade". Mas Colin Powell, então chefe das Forças Armadas, junto com 48 membros do Senado americano e quase todos os que se diziam "realistas", argumentou na época que os EUA poderiam ter se limitado à defesa da Arábia Saudita e tentado "conter" Saddam Hussein no Kuwait. Política ruim? Sim, e com todos os tipos de consequências negativas para o Oriente Médio e o mundo. Mas também haveria muitas consequências negativas se os EUA não tivessem declarado guerra em 2003 e se Hussein permanecesse no poder nestes últimos seis anos.

Até mesmo o risco de sofrer uma perda estratégica séria não exige automaticamente que se entre em guerra. Em parte depende do custo. Teria sido ruim se os EUA não tivessem defendido a Coreia do Sul em 1950 -outra guerra de necessidade citada por Haas- mas não teria sido o fim do mundo tampouco. Os EUA e o Ocidente sofreram muito mais com a distribuição do exército Vermelho da União Soviética pela Europa Oriental após a Segunda Guerra Mundial, mas ninguém, nem Haass, alega que era necessário entrar em guerra com o líder soviético Josef Stalin em 1945.

O fato é que, a não ser que uma nação seja invadida ou sua própria sobrevivência esteja eminentemente ameaçada, travar uma guerra sempre é uma escolha. Então, qual é o ponto de tentar fazer essa distinção elusiva de qualquer forma: para muitos, inclusive Obama, o propósito é distinguir o Afeganistão do Iraque, a guerra "boa" de Obama da guerra "ruim" de George W. Bush. Mas não vai funcionar. Como argumenta corretamente Haass, certas ou erradas, ambas foram guerras de escolha.

Há também uma razão mais profunda para Obama alegar necessidade no Afeganistão. Faz parte do que cada vez mais parece ser uma luta pela pureza moral em assuntos internacionais em seu governo. Obama e seus altos assessores se desculpam pelos pecados anteriores dos EUA, implicitamente sugerindo que não vão voltar a cometê-los. E isso serve para as guerras. As pessoas não culpam alguém por entrar em guerra se acreditarem que foi por necessidade. Todas as inevitáveis mortes de inocentes em uma guerra -desde civis até o mau comportamento ocasional das tropas ou erros dos comandantes- são mais perdoáveis se a pessoa não tiver escolha. A alegação de necessidade elimina as ambiguidades morais inerentes ao exercício do poder. E impede o escrutínio dos motivos, que nas nações, como nos indivíduos, raramente são puros.

Esse alívio das cargas morais é, entretanto, uma ilusão. Só porque os EUA declaram que algo é necessário não significa que o resto do mundo, especialmente suas vítimas, vai acreditar que é justo. A argumentação de necessidade não vai absolver os EUA, ou o Obama da responsabilidade de suas ações.

Como o teólogo Reinhold Niebuhr salientou há muito, os americanos acham difícil admitir a ambiguidade moral do poder. Eles relutam em encarar o fato que é apenas pelo exercício ambíguo do poder que qualquer coisa boa pode ser realizada. Obama está certo em fazer a guerra no Afeganistão e deve comandá-la com ainda mais vigor. Mas ele não vai evitar o peso moral e prático de travar esta guerra alegando que não tem escolha. Uma ação pode ser correta ou justa sem ser necessária. Como grandes presidentes no passado, Barack Obama terá que explicar por que sua escolha, apesar de difícil e complexa, é correta e melhor que as alternativas.

*Robert Kagan é do Carnegie Endowment pela Paz Internacional, escreve uma coluna mensal no "The Washington Post".

Tradução: Deborah Weinberg

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