Um carro de sonhador, mais promessa do que realidade

Phil Patton

O advento do carro elétrico moderno deu origem a uma classe de empreendedores que busca concorrer com os maiores fabricantes de carro do mundo.

Apesar dos repetidos fracassos de planos semelhantes ao longo dos anos - nomes como Kaiser, Tucker e DeLorean logo vêm à mente - os sonhadores por trás de companhias como a Tesla, Fisker e Aptera e outras companhias emergentes não se intimidam. Como seus antecessores, eles acreditam que podem ter sucesso oferecendo os carros do futuro.

  • Cortesia de Petersen Automotive Museum/The New York Times (sem data)

    Gary Davis exibe um Davis Divan, um dos carros mais excêntricos da história dos EUA

Entretanto, eles poderiam examinar o exemplo do Davis Divan, outro carro do futuro.

O Davis foi um dos grandes carros excêntricos da história norte-americana, ao lado de novidades como o Stout Scarab e o Crosley. Já faz 60 anos desde que a breve onda de celebridade do Divan atingiu o ápice e quebrou na praia; e o Museu Automotivo Petersen, em Los Angeles, vem enfatizando o exemplo do carro.

"O carro do futuro do passado", como definiu Leslie Kendall, curador do museu Petersen, o Divan era um carro de formas arredondadas e três rodas que, em 1949, apareceu na capa do suplemento de domingo de um jornal popular, o Parade. Com seu corpo aerodinâmico, faróis escondidos e parachoques cromados, o Davis Divan parecia um carrinho bate-bate de parque de diversão (ou um aspirador de pó Hoover da época, sem a haste). O Davis do museu Petersen, um entre os cerca de doze Divans que foram construídos, é azul e tem o topo removível.

Glenn Gordon Davis, conhecido como Gary, era um empresário que, como seus contemporâneos Henry Kaiser e Preston Tucker, tentou inovar com uma nova abordagem no design de automóveis, criando sua própria companhia automobilística.

"O mercado tinha muita procura e todos aqueles que sempre quiseram entrar no negócio de automóveis tentaram", disse Kendall sobre a época do pós-guerra. "O Davis não foi mais longe do que o Tucker".

Mas não foi por falta de tentativa. Davis era um ávido e incansável vendedor de carros usados quando teve a inspiração para fabricar o Divan. Depois da guerra, ele adquiriu um carro curioso e único de três rodas que havia sido construído para Joel Thorne, o herdeiro milionário de uma fortuna no banco Chase e corredor entusiástico.

O carro era obra de Frank Kurtis, um engenheiro habilidoso que também construiu os bem-sucedidos carros de corrida Kurtis-Kraft para a Indianapolis 500. O carro que Davis comprou chamava-se Californian, e ele teve a ideia de criar uma versão para ser produzida em série.

Em 1946, ele aceitou depósitos de futuros negociantes crédulos, levantando mais de US$ 1 milhão de dólares para construir seu carro dos sonhos. Mas por fim ele mostrou que era um vendedor bem melhor do que um engenheiro.

Seus talentos persuasivos estão em exibição num cartaz pendurado atrás do Divan no museu Petersen: "O Davis está anos à frente! Nunca houve um carro como este... Nunca houve um carro tão baixo e rápido, elegante e seguro... Nunca houve um carro tão veloz como um gato no trânsito!".

"Não, nunca houve um carro como este!"

  • Cortesia de Petersen Automotive Museum/The New York Times

    Carro Davis Divan de 1948: 'o carro do futuro do passado', segundo o curador do museu Petersen

O Divan usava motores de fabricantes independentes, Hercules e Continental. Os modelos remanescentes costumam ter motores mais novos, melhorados.

Davis se vangloriava da facilidade de estacionar um carro de três rodas. Seu teto removível se transformava num pequeno círculo, e significava que não havia pontos cegos. (Na época, Davis dizia que o carro poderia fazer uma curva a 88 quilômetros por hora.) Ele faz até 17 quilômetros por litro, disse Davis.

Davis dizia que havia se inspirado nas tecnologias e métodos de fabricação de aviões para construir um carro melhor. "Seu corpo de alumínio se combina com o fluxo do movimento para diminuir a resistência do ar ao mínimo", declarava o panfleto do Davis, "atingindo uma perfeita beleza de contorno". Esta é uma frase maravilhosa, "beleza de contorno".

Ele dizia que o carro tinha um centro de gravidade baixo e uma direção suave "graças às suspensões ao estilo das aeronaves". Mas a coisa mais parecida com um avião no Davis era o lugar onde era montado, um hangar de aviões em Van Nuys, Califórnia.

O sonho do Davis vem de uma época mais romântica, quando em vez de salvar as companhias automobilísticas, o homem as estava fundando - e os marqueteiros podiam contar com pessoas que sabiam que o divã era uma peça romântica de mobília. Uma propaganda do Divan dizia: "Eles dizem 'impossível' - então, Davis o fez!"

Os fãs do Davis parecem ter uma determinação semelhante. Um deles, Tom Wilson, de Ypsilanti, Michigan, resgatou um Davis abandonado em 1967 e o restaurou. Perguntando-se quantos outros exemplares haviam sobrevivido, Wilson fundou o Davis Registry em 1993 e durante dez anos rastreou os remanescentes.

O Davis de Wilson está agora na coleção do Lane Motor Museum em Nashville, Tennesee. Graças a Wilson e a outros que de fato acreditam no carro, o excêntrico Davis têm sido apreciado novamente nos últimos anos. Um Davis apareceu na tira de quadrinhos "Zippy the Pinhead". Outro surgiu num episódio de uma série do Discovery Channel, "Chasing Classic Cars" [algo como "Perseguindo Carros Clássicos"], no ano passado.

Enquanto os materiais de promoção para o carro prometiam a velocidade de um gato no trânsito, Kendall, o curador do museu, mencionou uma característica diferente no exemplar do outono de 2008 da publicação trimestral do museu Petersen. "Dirigir o Davis é uma experiência memorável, não por causa de seu desempenho e direção - que são terríveis - mas por causa de sua capacidade de atrair a atenção dos motoristas", escreveu.

Davis vivia no mundo de fantasias de Hollywood. O divã literal do Davis Divan era o seu banco da frente único, parecido com um sofá. Davis, cujas fotos mostram que se vestia com estilo, gostava de colocar um quarteto de quase celebridades no banco da frente para posar para fotos, com a legenda: "Quatro estrelas do futuro no carro do futuro".

O aparecimento do carro no jornal Parede atraiu um grande interesse pelo Davis, mas a companhia já estava em frangalhos. Os negociantes que haviam comprado franquias estavam pedindo os carros e os funcionários da linha de montagem entraram com processos por pagamentos atrasados. O promotor público distrito de Los Angeles investigou o caso e acusou Davis. De acordo com os registros, Davis foi condenado por fraude e eventualmente sentenciado a dois anos de prisão.

Ele nunca parou de pensar em carros como o Divan. Antes de morrer em 1973, Davis falava sobre um "carro seguro" de três rodas com um parachoque em toda a volta. Depois de sair da prisão, ele foi para outro extremo do setor automotivo, o lado do show business no qual ele sempre se destacou: ele ajudou a desenvolver os carrinhos bate-bate dos parque de diversões , que naturalmente fazem lembrar miniaturas do Davis Divan.

"Esta é uma metáfora para Los Angeles", disse Kendall.

Tradução: Eloise De Vylder

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