Marcela Sanchez: Nenhum bom motivo

Marcela Sanchez

É a temporada das tradições natalinas: decorar a casa, entoar cantigas, embrulhar presentes e, é claro, perseguir um peru bêbado no quintal.

Bem, eu pessoalmente não participei deste último, mas meus pais sim. Quando crianças, eles eram encarregados de correr atrás dos perus que tinham sido embriagados com algumas doses de poderosa aguardente.

Parece bárbaro, eu sei, mas a prática já foi muito comum na Colômbia. O motivo exato não está claro - todo mundo parece ter uma explicação diferente: minha mãe diz que a caçada faz o sangue das aves se acumular em sua cabeça, deixando a carne mais branca; uma amiga afirma que isso dilata os capilares da ave, o que amacia a carne; meu pai simplesmente acredita que a carne de um peru bêbado fica mais saborosa. Em outras palavras, não há um bom motivo.

É um pouco como a recente visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, à América do Sul. Ahmadinejad, é claro, não é um peru, muito menos bêbado. Mas as diversas explicações de seus anfitriões e seguidores - Bolívia, Brasil e Venezuela - sobre por que ele foi convidado para participar de negociações de alto nível me fizeram pensar que não havia nenhum bom motivo.

As autoridades da Venezuela explicaram a visita em termos de laços comerciais e interesses mútuos. Elas citaram a posição comum do Irã e da Venezuela como grandes produtores de petróleo e um desejo comum de contrabalançar o poderio dos EUA. Isto é mais da loucura habitual de Caracas, especialmente considerando que o Irã nem sequer está entre os 50 principais parceiros comerciais da Venezuela - enquanto os EUA são o número 1.
  • Evaristo SA/AFP

    O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, cumprimenta o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, durante reunião no Palácio do Itamaraty, em Brasília (DF), em novembro último


O presidente boliviano, Evo Morales, aproveitou a ocasião da visita de Ahmadinejad para se manifestar contra os líderes que minam a soberania de seus povos. Ele enfatizou a ameaça inerente de ter uma presença militar estrangeira na América Latina, referindo-se a um recente acordo para aumentar a cooperação militar dos EUA na Colômbia. Não importa que o Irã estivesse diretamente envolvido em dois ataques terroristas na Argentina na década de 1990 - os únicos atos de terrorismo em todo o hemisfério ligados a um grupo estrangeiro, além dos atentados de 11 de Setembro.

Ainda mais surpreendente foi a justificativa do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, para a visita de Ahmadinejad - a primeira ao Brasil por um líder iraniano em 44 anos. Lula explicou que o mundo precisava engajar a república islâmica e falou sobre o "direito [do Irã] a desenvolver seu programa nuclear para fins pacíficos".

Talvez essa posição fizesse mais sentido antes que a usina de enriquecimento nuclear do Irã, por muito tempo escondida, fosse revelada em setembro. Ou antes que Ahmadinejad começasse a recuar de um acordo assinado em outubro para enviar a maior parte do urânio de baixo enriquecimento de seu país para ser reprocessado no exterior, o que o tornaria menos ameaçador.

A comunidade internacional tornou-se cada vez mais cética das afirmativas do Irã de que seu desenvolvimento da tecnologia nuclear é estritamente para usos civis. Em 27 de novembro o conselho de governadores da Agência Internacional de Energia Atômica votou uma censura ao Irã.

Sem causar surpresas, a Argentina votou contra o Irã, de onde tentou sem sucesso extraditar cinco suspeitos - incluindo o atual ministro da Defesa do país, Ahmad Vahidi - envolvidos no atentado a bomba em Buenos Aires em 1994.

Afinal, 25 dos 35 membros do conselho votaram contra o Irã. Até a China e a Rússia, que no passado relutaram em criticar a República Islâmica, aprovaram a censura, demonstrando a ampliação do desencanto internacional com a liderança de Teerã.

Enquanto isso, Cuba e Venezuela votaram contra a censura e o Brasil se absteve. A Bolívia não faz parte do conselho.

Aparentemente, a visita de Ahmadinejad à América do Sul alguns dias antes compensou. A oposição da Venezuela não foi surpresa, mas a abstenção do Brasil parece ingênua e simplesmente errada.

É claro, o Brasil há muito se considera um caso especial e tomou decisões que contrariavam a sabedoria convencional. Algumas vezes essa abordagem foi uma força positiva e permitiu que o Brasil alegasse um alto nível moral.

Isso poderia ser dito sobre sua posição em Honduras, onde Lula parece estar assumindo uma postura forte, baseada em princípios democráticos. Determinado a não deixar que um precedente perigoso se estabeleça na região, ele insistiu que "definitivamente não" reconhecerá os resultados das eleições de 30 de novembro em Honduras, que ocorreram sob um regime "de facto".

Mas então como Lula pode confraternizar com Ahmadinejad, cuja reeleição ele reconheceu apesar de amplas acusações de fraude e brutalidade?

Claramente o Brasil é uma potência global emergente: está liderando a América Latina na recuperação da crise econômica global; pressionou por um novo acordo internacional para combater a mudança climática; e venceu os EUA para hospedar os Jogos Olímpicos de 2016.

Mas seu recente apoio impalatável a Ahmadinejad sugere que o Brasil não é exatamente o líder de altos princípios que imagina ser. Como um novo tipo de ator global, o Brasil ainda é uma obra em progresso.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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