Marcela Sanchez: Ano novo, novas alianças

Em termos de custo e extensão, a Iniciativa de Segurança da Bacia do Caribe (Cbsi, na sigla em inglês) não é exatamente outra Otan. Mas como uma nova abordagem às ameaças compartilhadas pelas Américas, a Cbsi tem uma maior importância do que sua pegada diminuta pode sugerir.

O acordo de cooperação em segurança visa ajudar 15 dos menores países do mundo no hemisfério a combater o tráfico ilegal de drogas e o contrabando de armas, a lavagem de dinheiro, o vício, a violência e a corrupção que o acompanham. Os Estados Unidos e os países do Caribe devem lançar oficialmente a Cbsi no começo do próximo ano.

Os líderes caribenhos contataram inicialmente os Estados Unidos em 2007 em busca de assistência na segurança, enquanto se preparavam para sediar a Copa do Mundo de Críquete, o terceiro maior evento esportivo do mundo. O trabalho inicial de identificação dos pontos fracos em segurança -e os recursos necessários para resolvê-los- estabeleceu a base para um arranjo mais amplo de segurança que se tornou a Cbsi. O Congresso americano aprovou US$ 37 milhões dos US$ 45 milhões pedidos inicialmente pelo presidente Obama.

Os fundos para a Cbsi não se comparam à ajuda americana para segurança à Colômbia, que é em média de cerca de US$ 500 milhões por ano desde 2000, ou à Iniciativa Mérida, que destinou US$ 465 milhões ao México, América Central, Republica Dominicana e Haiti, em 2008, para o combate ao crime organizado. Mas a Cbsi contrasta acentuadamente do estado caótico da cooperação em segurança em outras partes do hemisfério, onde diferenças ideológicas, discursos políticos exagerados, antiamericanismo profundo e uma capacidade aparentemente ilimitada de reviver antigas disputas bilaterais continuam a atrapalhar o progresso.

Peru e Chile, por exemplo, cuja longa história de má vontade recorrente remonta a mais de um século, desde a Guerra do Pacífico, estão de novo esganando um ao outro. Ambos chamaram de volta seus embaixadores, depois que o Peru alegou que o Chile subornou uma autoridade peruana para obtenção de segredos de Estado. O Peru então anunciou planos para compra de tanques chineses e caças brasileiros, contradizendo o pedido anterior do presidente peruano, Alan Garcia, para redução dos gastos militares na região e visando promover uma união sul-americana "sem desconfiança e conflitos".

Enquanto isso, a Colômbia e a Venezuela não conseguem deixar uma à outra em paz. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, continua a armar seu país com base na crença de que as forças armadas americanas lançarão uma invasão a partir do território colombiano. Por sua vez, o ministro da Defesa da Colômbia, Gabriel Silva, anunciou recentemente a construção de uma nova base militar e a ativação de dois novos batalhões aerotransportados na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, para impedir uma agressão venezuelana.

O Caribe também tem sua parcela de preocupações tradicionais de segurança. Ivelaw Griffith, um especialista em segurança caribenha e reitor da York College na Universidade Municipal de Nova York, diz que atualmente há 40 disputas territoriais e de fronteira na região. Mas nos últimos anos, como Griffith disse recentemente ao Congresso, os líderes caribenhos "deram maior ênfase a questões de segurança não tradicionais", porque passaram a reconhecer que as ameaças ligadas às drogas "representam um perigo mais claro e imediato".

A liderança sul-americana não chegou ao mesmo entendimento. Em vez de se concentrar nas influências corruptoras e destrutivas do tráfico ilícito de dinheiro, armas e drogas, muitos líderes regionais passaram os últimos meses reclamando do acordo para aumentar a presença militar americana em bases colombianas.

As autoridades colombianas e americanas reconheceram que poderiam ter apresentado melhor esta nova cooperação de segurança. Mas isso não satisfez os políticos que mais preferem incitar o sentimento antiamericano a tratar da crescente evidência de que a corrupção oficial, falta de lei e violência indiscriminada com armas está passando por uma escalada por todo o hemisfério.

Diferente do Caribe, a América Latina não possui uma entidade multilateral capaz de coordenar os esforços para combater o tráfico ilícito ou pedir apoio americano. Por exemplo, a Colômbia, que tem procurado todos seus vizinhos há anos, possui acordos de cooperação com apenas três outros países na América do Sul -Peru, Chile e Paraguai.

A Colômbia tem uma "imensa necessidade de compartilhamento de inteligência com a Venezuela e o Equador", disse Adam Isacson, diretor do programa de Segurança Latino-americana do Centro para Política Internacional em Washington. "Mas não há nenhum."

Os países caribenhos também estão em negação há muito tempo. E ainda restam preocupações a respeito de soberania, corrupção e diferenças políticas. Mas essas sociedades perceberam que serem meros condutos para o tráfico não as poupou dos efeitos nefastos da atividade sobre a segurança pública, regra da lei e segurança regional como um todo.

E eles agora reconhecem que o problema não pode simplesmente ser tratado aos poucos. Jay Cope, um alto pesquisador da Universidade Nacional de Defesa e um especialista em segurança nas Américas, elogiou este entendimento em uma entrevista, Apostando em uma tendência comum, Cope observou que para combater essa ameaça comum, "este grupo de países descobriu, na primeira década do século 21, que podem trabalhar juntos".

(Marcela Sanchez é uma jornalista baseada em Washington desde o início dos anos 90 e uma colunista distribuída para vários jornais há sete anos.)

Tradução: George El Khouri Andolfato

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