A meta comercial de Obama

Marcela Sanchez

  • Jason Reed/Reuters

    Obama em discurso na Casa Branca, sede oficial do governo dos Estados Unidos

    Obama em discurso na Casa Branca, sede oficial do governo dos Estados Unidos

O presidente Barack Obama diz que quer duplicar as exportações americanas em um prazo de cinco anos como parte de seu plano para gerar empregos. Essa é uma meta admirável e ambiciosa, que, infelizmente, não convence muitos especialistas no assunto.

A última vez que os EUA duplicaram seu intercâmbio comercial demorou três vezes mais do que o período proposto pelo presidente. De 1994 a 2009, o valor das exportações de bens e serviços americanos aumentou 97%, segundo dados do Departamento de Comércio.

Esses 15 anos viram nascer e crescer o maior bloco comercial do mundo: o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta na sigla em inglês). Em 1993, Canadá, EUA e México ratificaram o Nafta, um acordo que acabaria triplicando o volume de intercâmbio de bens e serviços entre os países.

Hoje não há sinal de um projeto de magnitude semelhante. Em novembro passado, o governo Obama anunciou que entraria nas negociações para criar um novo bloco de intercâmbio chamado Acordo Transpacífico. Os EUA já têm tratados de livre comércio com quatro dos países em negociação: Austrália, Chile, Peru e Singapura. Os outros três - Brunei, Vietnã e Nova Zelândia - têm um Produto Interno Bruto que, somado, é igual ao do estado americano da Geórgia.

De fato, a Iniciativa Nacional de Exportação sugerida por Obama pouco difere das estratégias utilizadas nos últimos 15 anos. O plano de três partes - busca de mais acordos comerciais abertos e justos, pressão sobre os parceiros para que cumpram suas obrigações comerciais, assim como promoção e financiamento de exportações de pequenas e médias empresas - não propõe algo que não tenha sido tentado antes.

Ainda existe a possibilidade de um plano inovador a se revelar. No entanto, mesmo que fosse assim, os democratas do Congresso, que são o principal obstáculo para os acordos de livre comércio pendentes, o apoiariam?

Quando Obama anunciou seu plano durante o discurso sobre o Estado da União, ofereceu para "fortalecer nossas relações comerciais com aliados chaves como a Coreia do Sul, Panamá e Colômbia". Mas não fez um apelo ao Congresso pela aprovação imediata dos convênios comerciais já firmados com esses três países. Para aqueles que acompanharam os penosos e infrutíferos processos de ratificação, as promessas comerciais do presidente americano pareceram em vão.

Em meio a uma recessão e com o maior índice de desemprego dos últimos 27 anos, não há dúvida de que nos EUA a opinião pública contra o comércio com outras nações é muito alta. Segundo o instituto Gallup, de 1994 a 2003, mais americanos o percebiam como uma oportunidade em vez de uma ameaça. No ano passado, 52% dos pesquisados tinham uma visão negativa do comércio.

Com tantos outros temas polêmicos sobre a mesa e difíceis eleições legislativas em novembro, é claro que a Casa Branca não está interessada em agitar a discussão sobre esse assunto muito cedo. Levando em conta a oposição dos sindicatos, poucos esperam avanços nos acordos comerciais pendentes antes das eleições deste outono.

No entanto, ao defender o comércio, Obama parece tomar emprestada uma página do roteiro do ex-presidente Bill Clinton. Quando Clinton assumiu a liderança em nome do Nafta, apoderou-se do tema que era propriedade dos republicanos e construiu o apoio bipartidário ao livre comércio, que anteriormente representava um lastro político para os democratas.

Desde que fez seu discurso ao Congresso em 27 de janeiro, Obama estendeu a mão aos republicanos e lembrou-lhes que suas táticas obstrucionistas tornaram sua própria agenda muito mais difícil de alcançar. Durante um recente encontro de deputados republicanos, Obama afirmou que os americanos "nos mandam trabalhar juntos em Washington, obter resultados".

Poder-se-ia argumentar que o presidente enfrenta um ambiente político muito mais polarizado do que o que Clinton enfrentou. Essa será a maior prova de seu compromisso com o livre comércio. Para ter sucesso no Nafta, Clinton arriscou distanciar-se dos sindicatos e desafiou os democratas a transigir.

Economicamente, a possibilidade de alcançar a meta de duplicar as exportações terá muito a ver com a recuperação global depois desta recessão. "Será muito mais fácil que nosso país cresça 4% e a China, 9 ou 10%" ao ano, disse Jake Colvin, do Conselho Nacional de Comércio Exterior.

Embora não haja uma segunda recessão ou uma década perdida, como prognosticaram alguns economistas, o comércio continuará sendo só uma fração da economia americana. No ano passado as exportações representaram 11% do total da produção nacional. Caso dupliquem, seu impacto na geração de empregos deverá ser somente parte de um esforço maior.

Talvez alguns se deleitem em julgar se a meta comercial de Obama é pouco realista ou insuficiente. Mas deveriam admitir que representa um avanço importante o fato de o presidente americano ter reconhecido que seu governo não pode dar mais espaço à questão comercial. Ao amarrá-la a uma agenda mais ampla de geração de empregos, talvez mais políticos considerem difícil obstruir o caminho.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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