Lições que o apartheid na áfrica pode ensinar aos latinos do Arizona (EUA)

Jorge Ramos

  • Luke Sharrett/The New York Times

    Manifestantes se reúnem em Washington (EUA) com placas nas quais se lê "meus sonhos não são ilegais" e "nós todos somos Arizona". Ativistas do Arizona protestam contra a nova lei estadual que transforma em crime a imigração sem documentos, promulgada em 23 de abril

    Manifestantes se reúnem em Washington (EUA) com placas nas quais se lê "meus sonhos não são ilegais" e "nós todos somos Arizona". Ativistas do Arizona protestam contra a nova lei estadual que transforma em crime a imigração sem documentos, promulgada em 23 de abril

Eu sabia que começar minha recente entrevista em Miami com o arcebispo Desmond Tutu fazendo uma pergunta sobre futebol nos distrairia um pouco de nosso tema principal. Mas com a crescente excitação pública em torno da Copa do Mundo eu queria saber se seu país natal, a África do Sul - o primeiro país africano a receber o Mundial - estava preparado para o desafio.

"Sim, creio que sim", disse-me Tutu com o sorriso amplo e livre de um menino travesso. "Ainda temos uma ou duas coisas para fazer, mas foi maravilhoso ver a construção dos estádios e a emoção."

Embora a Copa do Mundo seja importante, minha meta principal era conhecer a perspectiva de Tutu sobre os problemas enfrentados pelos imigrantes nos EUA. Nos anos 1980 ele foi um dos mais ardentes e importantes opositores do "apartheid" na África do Sul - o brutal sistema pelo qual a pequena minoria branca suprimia e discriminava a população negra majoritária. Por essa luta ele foi homenageado em 1984 com o Prêmio Nobel da Paz.

Grupos protestam contra nova lei anti-imigração no Arizona, nos EUA

Alguns talvez não vejam imediatamente a comparação entre as atuais leis de imigração nos EUA e o apartheid na África do Sul - que previa uma clara divisão entre as raças -, mas eu argumentaria que, na prática, as duas são muito parecidas e têm os mesmos efeitos: milhões vivendo nas sombras e temerosos de ser perseguidos, pagamento de impostos sem representação política, deportações que separam famílias e falta de acesso a trabalhos bem remunerados, inclusive para os que teriam as qualidades para realizá-los. A nova lei anti-imigrantes do Arizona, dizem seus críticos, promove a discriminação racial da mesma maneira que ocorreu na África do Sul durante o apartheid.

Tutu concordou e lembrou três valiosas lições aprendidas com a experiência dos sul-africanos negros sob o apartheid, que poderiam ser usadas para apoiar os direitos dos imigrantes hoje.

Lição número 1: Mantenha a fé em sua causa

O que podem aprender os imigrantes latinos que lutam contra a discriminação nos EUA com a luta pelos direitos humanos que ocorreu na África do Sul?, perguntei.

"Uma coisa muito importante é saber que você vai ganhar", ele me disse. "A injustiça não pode continuar para sempre. Quando as pessoas são injustas e tratam as demais de forma injusta, também sofrem. E mais tarde descobrem que é muito melhor se aceitarmos uns aos outros como membros de uma família."

Tutu disse que a fé dos ativistas e da gente comum na justiça e a eventual vitória de sua causa - a luta contra o apartheid - foi o que tornou possível o fim do regime da minoria branca e a transformação da África do Sul em uma nação pluralista, com 11 idiomas oficiais. "É uma forma de celebrar nossa diversidade", disse Tutu. "Por isso dizemos que somos uma nação arco-íris."

Lição número 2: Paciência

O sistema de apartheid na África do Sul não existe mais, e a igualdade e os direitos civis para todos estão incorporados à Constituição do país, mas eu disse a Tutu que durante uma visita a seu país ainda notei sinais de rejeição e discriminação contra a população negra.

Essa mudança levará tempo, ele disse. "Lembra-se como Martin Luther King dizia que não se podia fazer uma lei para que as pessoas se amem, mas que se pode legislar para dizer 'não me linche'? Espera-se que as pessoas comecem a entender que é melhor viver em harmonia do que como inimigos."

Lição número 3: Humildade na liderança

Tutu gosta de falar de "Uvuntu". O que é isso? "Uvuntu é a essência de ser humano", explicou-me. "Eu sou uma pessoa porque você é uma pessoa."

O homem que introduziu esse conceito de "uvuntu" na política foi Nelson Mandela, presidente da nação de 1994 a 1999. Mandela - que passou 27 anos preso por suas atividades de oposição à minoria branca - foi amplamente conhecido por suas políticas de reconciliação e por negociar com seus inimigos.

Perguntei ao arcebispo: O que outros líderes devem aprender com Nelson Mandela? "Creio que é um dom que Deus lhe dá que possa ser um líder", disse Tutu. "E o grande dom é lembrar que você é um líder para o bem daqueles que lidera. Você não é um líder para engrandecer a si mesmo ou enriquecer. Você está aí pelo bem dos que dizem: 'Você é nosso líder'."

Tutu tem uma qualidade extraordinária de fazer as pessoas se sentirem à vontade, em casa. Por isso, embora tenhamos falado apenas alguns minutos, me atrevo a lhe fazer a pergunta mais difícil: Que equipe ganhará a primeira partida da Copa: México ou África do Sul?

"Eu sou do México", começo a lhe dizer...

Ele me interrompeu imediatamente: "Que má sorte!", disse. Seu riso feliz ecoou nas paredes do quarto e não pudemos continuar a conversa. Dei-lhe a mão, ele a tomou entre a suas, fixou seu olhar franco e direto em mim e disse: "Que Deus o abençoe". E continuou rindo.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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