Por um fim ao perigoso isolamento de Gaza

Catherine Ashton* | Do International Herald Tribune

Texto distribuído pelo Sindicato do New York Times

  • Uriel Sinai/EFE

    Imagem mostra o ataque da Marinha de Israel na segunda-feira (31) contra uma frota de seis embarcações com ativistas que tentavam furar o bloqueio à faixa de Gaza e entregar suprimentos à região

    Imagem mostra o ataque da Marinha de Israel na segunda-feira (31) contra uma frota de seis embarcações com ativistas que tentavam furar o bloqueio à faixa de Gaza e entregar suprimentos à região

Até onde sabemos, nove pessoas morreram em águas internacionais além da costa de Gaza, sob circunstâncias que exigem investigação. Esta deve ser uma investigação na qual israelenses, palestinos e, acima de tudo, a população da Turquia possam acreditar. Nós não podemos fugir disso – precisa acontecer, precisa ser crível, rigoroso e imparcial. Nós precisamos descobrir exatamente o que aconteceu na manhã de 31 de maio.

Enquanto isso, nós também precisamos nos recordar do motivo para a flotilha estar seguindo para Gaza.

Três meses atrás eu testemunhei pessoalmente o apuro em Gaza e os temores de Israel, como a primeira política autorizada a cruzar a fronteira entre eles em mais de um ano. Eu encontrei condições em Gaza tão bizarras quanto sombrias. Mesmo vivendo ao lado de um dos países mais modernos do mundo, as pessoas transportam bens por cavalo e carroça. E a lista de produtos que os moradores da região são autorizados a importar desafia a lógica: frutas frescas, mas não frutas em conserva ou secas; farinha, mas não, até recentemente, massa.

Israel se gaba com razão de um bom sistema de ensino e universidades de altíssima qualidade; ao lado, é negado a muitas crianças o ensino básico. Por quê? Porque o conflito levou à destruição de muitas escolas e o bloqueio nega a Gaza os tijolos e cimento dos quais precisa para construir novas escolas ou substituir as ruínas que enchem o interior.

O bloqueio fere as pessoas comuns, impede a reconstrução e alimenta o radicalismo.

Israel tem o direito de assegurar a segurança de seu povo – ninguém nega isso. Também continua a exigir – com razão – a libertação do soldado israelense Gilad Shalit. Mas o bloqueio não é completamente eficaz. Muitos bens são contrabandeados por túneis ilegais, incluindo foguetes que são usados para atacar Israel. Os bens são destinados não para aqueles que necessitam, mas para aqueles com dinheiro e poder. Longe de melhorarem a sociedade civil, esses túneis a degradam ainda mais. Enquanto isso, como vi pessoalmente, é negado a pessoas decentes, normais, a chance de levar uma vida normal, que assim se tornam progressivamente mais ressentidas.

Surgem assim duas perguntas. Como podemos ajudar a melhorar a vida cotidiana das pessoas em Gaza? Como podemos ajudar a melhorar a segurança das pessoas em Israel? Essas duas perguntas devem ser respondidas juntas, pois qualquer tentativa de respondê-las separadamente está condenada ao fracasso.

Esse é o motivo pelo qual estou buscando a reabertura permanente de Gaza para entrada de ajuda humanitária, bens comerciais e para que os civis possam ir e vir. É isso o que o Conselho de Segurança da ONU e a União Europeia exigiram; também é o que Israel acertou com a Autoridade Palestina em 2005. Na minha viagem para Gaza, eu comprei algumas peças fabulosas de artesanato feitas por mulheres notáveis, que superaram condições intimidantes; eu quero colocar um fim à proibição que impede seus tapetes, cachecóis e ornamentos de alta qualidade de serem vendidos e apreciados pelo mundo.

Nesta segunda-feira eu presidirei uma reunião de 27 ministros das relações exteriores da União Europeia. Nós examinaremos um plano prático para permitir que a população de Gaza possa trazer o que precisa. Em vez de uma lista muito restrita de produtos que estão autorizados a entrar, deve haver uma lista curta e discutida de itens proibidos, sobre os quais Israel tenha preocupações legítimas de segurança. A União Europeia treinou funcionários no local que ajudariam a implantar esse plano na fronteira de Gaza, permitindo a entrada dos bens permitidos e impedindo a entrada dos bens proibidos.

Chegar a um acordo para suspensão do bloqueio não será fácil. Será necessária a cooperação tanto de Israel quanto da Autoridade Palestina. Mas o sucesso seria um verdadeiro prêmio pela causa da paz. Certamente restauraria certa normalidade em Gaza. Mas devolver a dignidade e esperança às pessoas também é do interesse de Israel. Além disso, a abertura de Gaza poderia ajudar a estender o alcance da Autoridade Palestina e ajudar na reconciliação do povo palestino.

Isso, por sua vez, poderia abrir o caminho para um sério acordo de paz que é a única forma certa de impedir uma maior perda de vidas de ambos os lados. A suspensão do bloqueio de Gaza é um passo pequeno, mas importante. As conversações de aproximação lideradas pelo senador George Mitchell são um passo maior e, no final, os líderes israelenses e palestinos devem finalmente concordar em um caminho para o avanço. Nós sabemos quais são os elementos para uma paz duradoura. Chegou a hora de começarmos a reuni-los. Ninguém com olhos para ver pode mais acreditar na alternativa: buscar a paz por meio da privação de mais de um milhão de homens, mulheres e crianças de meios para cuidarem de si mesmos e uns dos outros.

*Catherine Ashton é a alta representante da União Europeia para relações exteriores e política de segurança, além de vice-presidente da Comissão Europeia

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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