Japão checa os idosos do país e descobre que muitos já se foram

Martin Fackler

O Japão há muito se vangloriava de ter entre sua população muitas das pessoas mais velhas do mundo – testemunho, diziam muitos, de uma sociedade com uma dieta superior e um compromisso com os idosos inexistente no Ocidente.

Isso foi antes de a polícia encontrar o corpo de um homem que era considerada o mais velho do país, com 111 anos de idade, mumificado em sua cama, morto há mais de três décadas. Sua filha, de 81 anos, escondeu a morte do pai para continuar recebendo sua aposentadoria, disse a polícia.

Alarmado, o governo local começou a enviar equipes para checar os outros moradores idosos. O que eles encontraram até agora foi desanimador.

Uma mulher considerada a mais velha de Tóquio, que teria hoje 113 anos, foi vista pela última vez nos anos 80. Outra mulher, que seria a mais velha do mundo com 125 anos, também está desaparecida, e provavelmente há muito tempo. Quando funcionários do município tentaram visitá-la no endereço registrado, descobriram que o lugar havia se transformado num parque municipal, em 1981.

As autoridades não conseguiram encontrar outros 281 japoneses listados oficialmente com mais de 100 anos. Diante da desaprovação pública, o ministro da saúde do país, Akira Nagatsuma, disse que as autoridades vão procurar todas as pessoas registradas com mais de 110 anos de idade para verificar se estão vivas; as autoridades de Tóquio fizeram a mesma promessa em relação aos 3 mil ou mais moradores listados acima dos 100 anos.

A indignação nacional quanto às revelações atingiu uma proporção tão grande que o número de pessoas desaparecidas tem merecido cobertura diária, e triste, nas primeiras páginas dos jornais. “Esta é a realidade da longevidade do país?”, lamentou um editorial do jornal “The Mainichi”, um dos maiores diários japoneses, na semana passada.

Entre os que foram confirmados vivos está uma mulher de 113 anos no município de Saga, ao sul do país, considerada a mulher mais velha do Japão, pelo menos por enquanto.

A questão dos idosos desaparecidos atingiu o país que envelhece rapidamente – e testou sua autoimagem – num momento em que o Japão já enfrenta dificuldades com os sobrecarregados centros de cuidado para idosos, esquemas criminosos que se aproveitam deles e a descoberta quase diária de idosos que morrem sozinhos em suas casas.

Por enquanto, não há respostas claras sobre o que aconteceu com a maioria dos centenários que desapareceram. Será que o país está testemunhando os resultados de uma fraude nas aposentadorias em grande escala, ou, como dizem a maioria dos funcionários, o problema é resultado de um sistema falho de registros? Ou todo esse problema sórdido, como dizem os comentaristas mais pessimistas, é um reflexo da desintegração dos laços de família, à medida que a geração mais jovem é indiferente e deixa os idosos desaparecerem na obscuridade?

“Isso é um tipo de abandono, pelo desinteresse”, diz Hiroshi Takahashi, professor da Universidade Internacional de Saúde e Bem-Estar em Tóquio. “Agora vemos a realidade de envelhecer numa sociedade mais urbanizada em que os laços comunais estão se deteriorando.”

As autoridades tendem a minimizar as explicações psicossociais. Embora alguns idosos possam ter simplesmente ido para asilos, há uma suspeita cada vez maior de que, como no caso do corpo mumificado, muitos possam já estar mortos, dizem as autoridades.

Oficiais do bairro de Adachi em Tóquio, onde o corpo foi encontrado, disseram que ficaram desconfiados quanto tentaram visitar o homem, Sogen Kato. (Eles o procuraram porque o homem que era considerado o mais velho de Tóquio havia morrido e eles queriam cumprimentar Kato por seu novo título.)

Eles disseram que sua filha deu desculpas conflitantes, dizendo primeiro que ele não queria encontrá-los, e depois que ele estava em outro lugar do Japão dando sermões budistas. A polícia continuou investigando depois que uma neta, que também morava na mesma casa, admitiu que Kato não saía de seu quarto desde 1978.

Num caso mais comum que aconteceu a poucos quarteirões da casa do homem mumificado, os parentes de um homem que teria 103 anos disseram que ele saiu de casa há 38 anos e nunca mais voltou. O filho, hoje com 73 anos, disse às autoridades que continua a receber a pensão de seu pai “caso um dia ele volte.”

“Ninguém de fato suspeita de desonestidade nesses casos”, diz Manabu Hajikano, diretor da sessão de registros de Adachi. “Mas ainda é um crime se você não registra o desaparecimento ou a morte para continuar coletando o dinheiro da aposentadoria.”

Alguns especialistas em saúde dizem que esses casos refletem o desgaste numa sociedade que espera que os filhos tomem conta de seus pais, em vez de colocá-los em asilos. Eles apontam que o aumento da longevidade significa que os filhos devem cuidar de seus pais idosos quando eles próprios têm por volta de 70 anos e possivelmente também precisam de cuidados.

Em pelo menos alguns dos casos, disseram oficiais locais, um parente mais velho desapareceu depois de sair de casa em circunstâncias obscuras. Especialistas dizem que os pais pareciam sofrer de demência ou alguma outra condição que exigia muitos cuidados, e a família sobrecarregada simplesmente desistia, deixando de procurá-los ou reportar seu desaparecimento à polícia.

Embora as autoridades tenham descoberto um grande número de centenários desaparecidos, especialistas em demografia duvidam que isso tenha um grande impacto nos famosos dados sobre longevidade do Japão; o país têm a maior expectativa de vida do mundo – 83 anos – de acordo com o Banco Mundial. Mas as autoridades admitem que o Japão pode ter bem menos centenários do que imaginava. “Viver até os 150 anos é impossível no mundo real”, diz Akira Nemoto, diretor do serviço para idosos de Adachi. “Mas não é impossível no mundo da administração pública japonesa.”

Tradução: Eloise De Vylder

 

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