Quem quer ser vice-presidente dos EUA? Existe alguma vantagem?

Sam Tanenhaus*

  • AFP - 4.abr.2016 e 16.fev.2016

Hillary Clinton e Donald Trump, com suas nomeações quase decididas, estão avaliando agora a escolha do candidato à vice-presidência. Nomes já circulam, mas é cedo para separar os verdadeiros candidatos dos chamarizes.

Hillary deliciou as feministas ao sugerir que está aberta a uma chapa de duas mulheres, mesmo que as três mais mencionadas --as senadoras Kirsten Gillibrand, de Nova York, Amy Klobuchar, de Minnesota, e Elizabeth Warren, de Massachusetts-- venham de Estados onde Hillary não precisa de ajuda local para vencer, enquanto um quarto prospectivo, o senador Sherrod Brown, de Ohio, embora seja homem, possa atrair votos cruciais em um Estado combativo.

Os cálculos de Trump são mais misteriosos. Ele nunca ocupou cargo público; um grande nome envolvido na política ajudaria, mas os republicanos estabelecidos, incluindo seus adversários derrotados, estão enfaticamente desinteressados. "Hahahahahahahahaha", dizia o e-mail enviado por um assessor de Jeb Bush a "The New York Times", quando perguntado se Bush poderia considerar um lugar na chapa de Trump. Dois outros republicanos, o governador de Nova Jersey, Chris Christie, e o ex-presidente da Câmara Newt Gingrich, estão disponíveis, mas ambos são produtos danificados e narcisistas. E a chapa já tem um desses.

Tudo isso revela mais uma estranheza do processo democrático nos EUA. Enquanto a busca quadrienal pelo presidente representa um ritual público que dura mais de um ano --até hoje quase 47 milhões de votos foram dados--, os vice-presidentes, que ficam tão próximos do cargo principal, são escolhidos em segredo. Candidatos sérios passam por uma tribulação desumana, em parte entrevistas rápidas com o nomeado, em parte verificação de ficha corrida pelo FBI, envolvendo imposto de renda, registros médicos e dossiês conjugais.

Essa dura iniciação é necessária. Não existe um "VP" perfeito, mas os anais ressoam com erros terríveis. Em 1972, George McGovern escolheu o senador Thomas Eagleton, de Missouri, que escondeu uma história de depressão e sessões de terapia de eletrochoque. Políticos locais e jornalistas souberam disso, porém, e os fatos vazaram. Eagleton se retirou e McGovern estava acabado.

Mais recentemente, John McCain tentou reviver sua campanha de 2008 com uma aposta em Sarah Palin, a nova governadora telegênica do Alasca. Uma espécie de pré-Trump --populista, demagógica, caótica--, ela emocionou a base republicana, mas enviou os moderados assustados a abraçar Barack Obama e seu bem escolhido colega de chapa, Joe Biden, com seus cabelos de neve, amigo da classe trabalhadora branca.

Encontrar pares nunca é fácil, mas os riscos se multiplicaram graças às redes sociais --seus duendes escondidos embaixo de pontes e abutres famintos circulando no alto. Hillary e Trump não podem ser cuidadosos demais ao avançar lentamente pela corda bamba do desprezo público. O site FiveThirtyEight, que garimpa dados, relatou no início de maio que ambos estão hoje "mais fortemente reprovados que qualquer nomeado nesta altura, nos últimos dez ciclos presidenciais". Um mau passo ao tomar essa primeira e mais importante decisão presidencial pode levar à ruína.

Mas também há esperança de que um companheiro mais jovem e ágil possa animar os insossos comícios de campanha e rejuvenescer os dois nomeados idosos. Hillary Clinton, se for eleita, assumirá o cargo aos 69, o segundo mais velho presidente da história, oito meses atrás de Ronald Reagan. Trump, que fará 70 em junho, estabeleceria o novo padrão.

Por que alguém desejaria esse emprego de ser substituto de um presidente? Certamente não por causa do cargo em si, despido de poder, pasta ou mesmo dignidade. O vice-presidente Richard Nixon sobreviveu a tentativas de derrubá-lo em 1952 e em 1956. Durante tudo isso, ele serviu lealmente a Dwight Eisenhower e foi nomeado para presidente em 1960. No final de agosto, a dez semanas da eleição, Nixon estava emparelhado em uma disputa acirrada com John F. Kennedy, quando Eisenhower foi indagado sobre qual foi a "grande ideia" que Nixon contribuiu durante sua parceria de oito anos. "Se você me der uma semana, poderei pensar em uma", respondeu Eisenhower. "Não me lembro."

Kennedy ganhou, e tratou seu vice-presidente, Lyndon Johnson, de modo ainda mais desdenhoso, proibindo sua entrada nos recintos mais importantes de sua administração. Na frustração, ele "começou a passar cada vez mais tempo em sua fazenda [no Texas], deixando Washington na quinta-feira e só voltando na segunda", escreve Robert Caro em sua monumental biografia de Johnson. "Para passar o tempo, ele jogava intermináveis partidas de dominó com seu capataz."

No entanto, Nixon e Johnson acabaram se tornando presidentes --e igualmente abusaram de seus vice-presidentes.

*Sam Tanenhaus é um escritor americano. Seu próximo livro será uma biografia de William F. Buckley Jr. 

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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