Opinião: Está cada vez mais difícil conseguir sentar e ler um livro

Yuan Ren

  • Vivian Oswald

Está ficando cada vez mais difícil sentar e ler um livro em Pequim. Mesmo com a persistente neblina poluída do lado de fora sendo a desculpa perfeita para ficar em casa, fechar a porta e fazer exatamente isso, não consigo ler cinco minutos do Capítulo 1 sem me preocupar se o rapaz da entrega está tentando entrar em contato comigo pelo telefone.

Tudo acontece muito rápido na China, e a sobrecarga sensorial não deixa espaço para continuidade. Se você faz uma compra online, sua encomenda chega na manhã seguinte. O WeChat —uma espécie de mistura entre Facebook, Twitter e WhatsApp— consome as vidas ao meu redor. Muitas pessoas da minha idade, incluindo amigos atarefados com suas carreiras, estão vivendo mais suas vidas na internet do que fora dela.

Eu costumava apreciar o tempo que passava no metrô de Londres para me deixar absorver por um bom livro. No metrô de Pequim, é quase impossível conseguir um lugar para sentar, e tem sempre alguém do lado assistindo a um vídeo no WeChat sem fones de ouvido. Isso meio que corta o clima, não que alguém esteja tentando ler um livro, de qualquer forma. "Quando foi a última vez em que você viu alguém com um livro em mãos no transporte público?", perguntou um escritor amigo meu. Eu sinceramente não conseguia me lembrar.

No ano passado, depois que a Emma Watson escondeu livros no metrô de Londres para incentivar os usuários a lerem, uma empresa de mídia chinesa tentou fazer o mesmo. Em um estilo tipicamente chinês, ele tentou fazer algo maior e melhor, lançando a iniciativa em várias cidades ao mesmo tempo e recrutando celebridades para esconder os livros. Mais de 10 mil livros foram deixados em estações, trens e táxis. Mas logo fotos de livros empilhados ao lado de uma lata de lixo de uma plataforma começaram a rodar as redes sociais. Foi a deixa para as chacotas, com os usuários perguntando: "Será que os chineses sequer leem livros?"

"Com o excesso de informações online, os hábitos de leitura se fragmentaram muito", me contou Gao Lizhi, editor adjunto do Beijing Publishing Group.

No entanto, o cenário é diferente na Sanlian, livraria 24 horas de três andares em Pequim, há muito tempo conhecida como o "lar espiritual dos intelectuais da China". Mesmo à meia-noite, muitas vezes todas as mesas de leitura estão ocupadas. A popularidade da Sanlian se deve ao seu foco em ciências sociais e artes, bem como à seletividade do editor. "Jovens literários" new age também vão lá para ler, na companhia de um café na cafeteria que funciona a noite inteira no andar de cima.

"As atitudes em relação à leitura se manifestaram em dois extremos", diz Cui Defang, editor da Sanlian Publishing. "Existe uma minoria que adora ler ou lê com fins acadêmicos, e aqueles que leem muito pouco depois que saem da escola porque não veem o que isso tem a ver com a vida real".

"Mas os chineses estão sempre lendo, só que é em seus celulares e não em livros", comentou recentemente um amigo meu. As vendas de livros online de fato cresceram, com e-books para públicos de nicho. Mesmo assim, o número de livros lidos—em qualquer formato que seja—está em declínio. De acordo com uma pesquisa de 2012 feita pelo Instituto de Ciências Sociais, o chinês médio lia somente pouco mais de quatro livros por ano, em comparação com os 10 livros por ano no Reino Unido, se você acreditar nas estatísticas do YouGov. Os números da China já vinham caindo no final dos anos 1990, e em 2014 mais de 40% dos chineses liam menos que um livro, se excluirmos os livros didáticos.

As pessoas ao meu redor também não têm mais o hábito de ler. A cultura de classe média ocidental onde as pessoas discutem novos romances não existe de fato. No entanto, ela existe para os filmes, o que explica por que o hábito de ir ao cinema, algo muito menos cansativo do que ler, se tornou popular.

A falta do gosto pela leitura se origina na abordagem do sistema educacional chinês para a língua e a literatura. Os jovens alunos certamente são incentivados a ler, tendo acesso a centenas de breves ensaios e trechos de romances em seus livros escolares, incluindo mestres contemporâneos como Lu Xu, poetas antigos como Li Bai e até mesmo o romancista francês Alphonse Daudet. No entanto, é uma rede ampla e rasa. Os estudantes raramente têm a chance de estudar um livro inteiro, ou discutir um deles em profundidade. As crianças não são estimuladas a ler com um espírito independente ou a formar suas próprias opiniões.

"A leitura na China está diretamente associada às provas", diz Gao. "O processo se torna muito voltado para resultados, assim como quase tudo na China ultimamente". O mesmo se aplica ao ensino da escrita: boa parte do que aprendi nas aulas de chinês tinha uma sugestão moral ou política. Quando cheguei ao segundo ano do ensino primário, eu já dominava a arte de interpretar textos de uma forma bastante valorizada: eu papagueava qualquer coisa que eles falassem.

Para muitos chineses, a leitura desperta a questão: "Para quê isso me serve?" As recompensas de se acessar um livro do jeito mais demorado são oblíquas demais.

Em uma cultura de resultados rápidos, explica Gao, as pessoas "só querem ler livros que lhes digam como enriquecer, e rápido".

*Yuan Ren é jornalista em Pequim
 

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