Opinião: Confissões de um liberal meio arrependido

Bill Emmott*

  • Daniel Roland/ AFP

Virou moda expressar arrependimento por ser liberal, especialmente quando acompanhado do adjetivo 'cosmopolita' ou do substantivo "elite". Ou se angustiar, como colocou a dupla terrível Theresa May e David Goodhart, por estar desconectado de "algum lugar" ao ser um cidadão de lugar nenhum. Está na hora de parar com essa bobagem. Os liberais têm motivo para pedirem desculpas, mas não por isso. Eles na verdade deveriam sentir vergonha de terem traído seus próprios princípios.

A razão pela qual tantos eleitores estão se rebelando contra os partidos tradicionais nas democracias ocidentais liberais é que essas democracias se tornaram, ao longo das duas últimas décadas, menos democráticas e menos liberais. Não foi de propósito: isso aconteceu em grande parte por negligência, por dar como garantidos os princípios básicos que tornaram o Ocidente tão próspero, tão estável e tão seguro.

Precisamos focar em somente um episódio de nossa história recente, tanto por ter tido um impacto enorme quanto por ter sido devastador: a crise de 2008. Muitas vezes sua importância parece ser minimizada, talvez porque os governos e os bancos centrais tenham trabalhado com tanto sucesso para evitar que a pior crise financeira em 80 anos causasse uma nova Grande Depressão.

Esse é um erro, possivelmente de proporções históricas. Existem muitas outras preocupações arraigadas nas sociedades ocidentais, causadas pelo envelhecimento populacional, pelas inovações tecnológicas que afetam o emprego ou pelo impacto da entrada da China nos mercados mundiais; mas tudo isso são coisas com as quais se poderiam lidar se 2008 não tivesse acontecido.

Sem o choque do Lehman Brothers, Donald Trump não estaria na Casa Branca, o Reino Unido não teria votado a favor do Brexit e a extrema direita não estaria em tanta evidência na política europeia atual. O euro, aproximando-se da sua terceira década de existência, estaria dando um jeito de atingir a estabilidade. A imigração teria causado resmungos, como sempre causou, mas não teria se tornado uma questão política tão polêmica.

A crise de 2008 deveria ser estudada por futuros historiadores não somente como um episódio financeiro, nem mesmo somente por suas ramificações econômicas, mas sim como um acontecimento político, que ilustrou uma perigosa tendência em muitas democracias progressistas. Essa tendência foi a subversão da política pública e da democracia pelo presunçoso poder do setor financeiro e dos indivíduos extremamente ricos conectados a ele.

Wall Street, a City of London e as potências bancárias da França e da Alemanha conquistaram uma influência sobre a política e as políticas que contribuíram para a crise e também moldaram a resposta para ela ao longo da década seguinte. As "regulações leves", as decisões que permitiram que mercados de derivativos continuassem sem monitoração, quanto menos regulação, a vista grossa para os empréstimos agressivos na Espanha, na Grécia e em outros países da zona do euro, tudo isso pode ser atribuído à influência dessas instituições.

Mas isso não seria liberalismo, simplesmente com o prefixo "neo"? Não, foi uma estupidez, em parte cegada pela ignorância, em parte por complacência. A essência do liberalismo, como definida por seu santo padroeiro Adam Smith, era de que os mercados são essenciais, mas que eles precisam de regras para funcionar de forma benigna, juntamente com os governos para fazer com que essas regras sejam respeitadas.

A democracia, assim como o mercado, tem uma falha crucial. A competição para ganhar influência, vencer eleições e direcionar políticas pode acabar concentrando poder. Assim como os mercados criam monopólios que precisam de leis antitruste para domá-los ou rompê-los, as democracias também criam as oligarquias, os grupos de interesse e indivíduos dos quais os partidos políticos passam a depender.

A essência da democracia é a pluralidade, reforçada por um princípio político e legal: a igualdade das vozes e dos direitos políticos. Mas se os bilionários, os hedge funds e os megabancos --ou de fato os sindicatos-- ganham uma voz política desproporcionalmente forte, esse sentido de igualdade pode acabar sendo destruído.

Quando o candidato Trump afirmou que "drenaria o pântano", era isso que ele queria dizer. E ele tinha razão. É por isso também que eleitores do proletariado no norte e no centro da Inglaterra que reclamavam de estar sendo "deixados para trás" e não se deram ao trabalho de votar nas eleições gerais de 2005 ou de 2010, voltaram com um efeito decisivo no referendo sobre o Brexit.

Mas não é o "globalismo" que explica por que as famílias médias britânicas viram seu poder de compra cair ao longo de uma década. Não é a concorrência chinesa, seja ela justa ou não, que explica por que mais de 7 milhões de homens em idade ativa sumiram da força de trabalho americana ao longo dos dez últimos anos.

Se você realmente quer encontrar algo mundial para culpar, então são as movimentações de capitais ultralivres que você deve procurar. São os mercados especulativos gigantes baseados em subsídios públicos na forma de resgates grandes demais para falhar e em fundos de garantia que precisam ser detidos, e não o livre-comércio ou a imigração.

O mundo financeiro pós-2008 precisa ser controlado de forma muito mais rígida, especialmente o vasto e obscuro mundo conhecido como "shadow banking" (sistema bancário paralelo). Podemos culpar todo tipo de gente por isso. No entanto, a razão principal é que os supostos liberais deixaram de entender do que realmente se trata o liberalismo. Que ele sempre foi a busca, embora nem sempre simultânea, infelizmente, de dois valores: abertura e igualdade.

A abertura sempre foi crucial porque a receptividade a novas ideias, a novas elites e a novas oportunidades é o que leva a progressos sociais, econômicos e políticos, ao mesmo tempo em que mantém a responsabilidade.

A igualdade tem sido crucial para tornar aceitáveis as mudanças, e para evitar conflitos sociais. No entanto, muitas vezes longos períodos de desigualdade produziram trancos políticos que levaram a uma redefinição das regras do jogo, algo necessário neste momento.

Em uma frase que costuma ser atribuída a Thomas Jefferson, "o preço da liberdade é a eterna vigilância". O que os liberais precisam fazer para manter a fórmula funcionando é trabalhar a igualdade, para se certificar de que o poder político não se concentre excessivamente e que a massa de cidadãos tenha um verdadeiro e forte sentimento de participação no que está acontecendo. Isso não tem a ver com redistribuição de renda: tem a ver com igualdade de voz e de oportunidades.

A missão para liberais do mundo inteiro é reconstruir esse sentimento de igualdade ao mesmo tempo em que se mantém a abertura. Sem abertura, o Ocidente não pode prosperar; e sem igualdade, não pode durar.

*Bill Emmott é ex-editor da "The Economist" e acaba de lançar seu livro "The Fate of the West: The Battle to Save the World's Most Successful Political Idea" ("O destino do Ocidente: a batalha para salvar a ideia política mais bem-sucedida do mundo")

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