Trump vendeu aos EUA uma cura milagrosa, mas não será responsabilizado quando ela fracassar

Alan Levinovitz

  • Saul Loeb/ AFP

Em seus comícios, eles cantavam "Cadeia para ela!". Os fiéis vestiram as camisetas, usaram os bonés e seguravam as canecas que seriam enchidas de lágrimas dos liberais. "Cadeia para ela!" Não era apenas uma exigência. Era um mantra.

Mas nenhuma tentativa será feita de colocar Hillary Clinton na cadeia.

"Isso funcionou bem antes da eleição", sorriu Donald Trump em uma parada em Michigan de sua turnê "Obrigado" autocongratulatória, silenciando o público com uma série de gestos "trumpianos" como se estivesse lançando um feitiço. "Agora não mais importa."

E simplesmente assim, deixaram de importar. Os apoiadores sorriram, em silêncio.

"Drene o pântano!", eles cantavam, outro mantra que evocava uma fantasia nostálgica dos Estados Unidos, grande de novo, purificado da podridão e das trevas.

Mas o pântano não será drenado. Em vez disso, ele está repleto de doadores bilionários, escolhidos a dedo para nosso presidente bilionário por veteranos de Washington. Essas pessoas vivem em uma bolha tão isolada que algumas precisariam de um briefing a respeito do preço do leite.

"Ele precisará de alguém que ajude a guiá-lo pelo pântano", disse Trent Lott, o ex-senador republicano que virou um importante lobista. "Estamos preparados para fazê-lo."

E simplesmente assim, os apoiadores de Trump mudaram seus princípios. "Se ele precisar fazer uso dos moradores do pântano para tornar a América grande de novo, por que não?" disse Fred Harris, um eleitor de Trump de 42 anos que participou de um comício na Pensilvânia.

Há muitos que esperam que os eleitores de Trump o cobrem. Que insistirão para que ele cumpra suas promessas a respeito de empregos ou atendimento de saúde universal, e que quando essas promessas não forem cumpridas, seu apoio fervoroso se transformará em raiva por terem sido enganados, causando problemas a Trump e posteriormente lhe custando a reeleição.

Quando as pessoas fazem grandes apostas em curas milagrosas que não funcionam, elas raramente se voltam contra os tratamentos ou seus vendedores.

Isso é uma ilusão. A ascensão de Trump ao poder segue uma trajetória semelhante a dos charlatães que vendem panaceias aos desesperados, um mundo bizarro e de partir o coração que estudei por muito tempo. Assim como charlatães,Trump não cumprirá o que prometeu. Mas seus apoiadores encontrarão uma forma de exonerá-lo. Considere a habilidade do "Arcebispo" Jim Humble, um ex-garimpeiro que alega ser de linhagem extraterrestre, em persuadir os pais a encherem seus filhos autistas com Suplemento Mineral Milagroso, apesar de que quando ativado pelo ácido cítrico, se tornar uma forma perigosa de alvejante industrial. Ou os evangelistas da terapia de Gerson, que convencem pacientes com câncer a pagaram milhares de dólares para se desintoxicarem com suco orgânico em uma clínica em Tijuana, México, apesar de estudos mostrarem que a terapia é ineficaz (sem causar surpresa, dado que não foi desenvolvida por oncologistas, mas por um médico vienense do século 20, Max Gerson, com um tratamento fracassado para tuberculose).

Quando as pessoas fazem grandes apostas em curas milagrosas que não funcionam, elas raramente se voltam contra os tratamentos ou seus vendedores. Em vez disso, elas racionalizam sua fé equivocada, visando salvar as aparências, permanecer esperançosas e preservar uma identidade definida por sua capacidade corajosa de rejeitar o status quo.

A semelhança entre Trump e os mascates de conselhos médicos cientificamente questionáveis não poderia ser mais clara. Nosso presidente busca ativamente a companhia deles, de Robert F. Kennedy Jr., famoso alarmista de vacinas, ao dr. Oz, em cujo programa Trump fingiu ser transparente a respeito de sua saúde. Foi uma combinação perfeita: Trump personifica as terapias duvidosas que Oz endossa (dieta milagrosa do feijão, energia que cura) e lembra o próprio Oz, um showman disparando meias verdades e pensamentos mágicos para um público faminto por esperança.

Para aqueles que rejeitam homens desse tipo, o apelo nunca deixa de impressionar. Um médico chamado Oz quer que você acredite em milagres? Qualé! É como se fosse um pastor chamado Dólar querendo que seus fiéis paguem por seu jato particular, ou um narcisista desvairado, que vive em um apartamento revestido de ouro, concorrendo como um presidente populista. Quem, após pesar todas as evidências, poderia levá-los a sério? Apenas idiotas crédulos, não é?

Eu costumava pensar assim, até que, há cerca de uma década, meu pai me ligou para perguntar se eu sabia algo sobre "zapping". Ele me disse que uma amiga próxima, sofrendo de problemas crônicos de saúde, recorreu a um aparelho terapêutico chamado, incrivelmente, Zapper. O aparelho foi projetado por Hulda Clark, uma médica de naturopatia que foi autora de livros com títulos como "The Cure for All Diseases" e "The Cure for All Cancers" (A cura para todas as doenças e A cura para todos os cânceres, respectivamente, ambos em tradução livre e não publicados no Brasil), apenas para morrer em 2009 de câncer no sangue e ossos.

Essa amiga era uma enfermeira formada e viúva de um médico. Perspicaz, articulada, instruída, longe de ser uma tola, mas lá estava ela, usando uma máquina inventada por alguém que morreu daquilo que ela supostamente prevenia. Eu me recordo de ter sentido a mesma descrença, como um soco no estômago, com a decisão dela que sinto hoje a respeito das pessoas que votaram em Trump. Como alguém poderia cair nessa história? Mas decisões como a dela não são exclusividade de tolos. A popularidade de Oz envolve mais do que falta de capacidade crítica. E não são apenas racistas, misóginos, ignorantes e pessoas em desvantagem econômica que votaram em Trump.

Muitos daqueles que confiam em Trump para curar nosso corpo político o fazem pelos mesmos motivos que pessoas como minha amiga, pessoas normais e razoáveis, confiam em charlatões para curar seus corpos. Elas são influenciadas por uma confluência poderosa de fatores, especificamente, incerteza epistêmica, pânico existencial e antielitismo. Esses fatores asseguram que até mesmo quando bate a realidade, quando o preço do plano de saúde sobe, mas o muro não, as pessoas atribuirão a culpa a outras coisas.
 

A incerteza epistêmica, a ideia de que não se pode confiar nas fontes tradicionais de conhecimento, há muito é explorada por gurus médicos maliciosos para atrair pacientes. As técnicas deles espelham as utilizadas por Trump junto a um público maior: conquistar simpatia ao identificar problemas genuínos, como empresas farmacêuticas corruptas que ocultam dados e compram médicos, por exemplo, ou o lobby corporativo entrincheirado em Washington. Mas em vez de propor soluções cheias de nuances, como qualquer pessoa honesta faria, os exploradores da incerteza epistêmica transformam essas críticas legítimas em bombas retóricas rudimentares que lhes permitem atacar todo o sistema. A indústria farmacêutica se transforma em uma força enganadora de proporções satânicas, invocada por alguém que deseja vender um tratamento não comprovado ou afirmar os riscos de um tratamento comprovadamente seguro.

Na névoa desses ataques, qualquer coisa parece possível. A incerteza epistêmica mina a avaliação racional. Emoção e tribalismo, já fatores significativos na determinação da visão de mundo de uma pessoa, se transformam na fonte dominante de suas crenças. Vacinas podem causar autismo.  A mudança climática é uma farsa chinesa. Um homem em Nova Jersey pode estar por trás do hackeamento do Comitê Nacional Democrata. Afinal, em quem você pode confiar quando a Food and Drug Administration (agência reguladora americana de alimentos e fármacos) é controlada pela indústria farmacêutica?

Assim que os fomentadores de incerteza ganham a confiança de sua plateia e minam nossa crença em qualquer outra fonte de informação, se torna virtualmente impossível responsabilizar esses fomentadores. A desintoxicação por meio de suco orgânico não cura o câncer? A culpa é da medicina convencional por ter ministrado primeiro a quimioterapia mortal. O novo sistema de saúde de Trump não conseguirá dar cobertura para todos? A culpa é dos democratas por insistirem que não deveriam, um fato que a mídia tradicional se recusa a noticiar.

Mas mesmo em um mundo infestado de incerteza epistêmica, nem todos caem no golpe. Nem todos votaram em Trump. Aqueles que votaram provavelmente também estão enfrentando um pânico existencial, que por sua vez pode causar um debilitante estreitamento da visão. O pânico existencial ocorre diante de uma grave ameaça ao bem-estar físico, identidade pessoal ou visão de mundo. Veja a história que relatei para a revista "Wired", sobre dois médicos, Jim e Louise Laidler, cujos dois filhos foram diagnosticados com autismo. Apesar de seu amplo conhecimento da medicina convencional (Jim também possui Ph.D. em biologia), o desejo deles pela vida "normal" que sonhavam era tão forte que se transformaram em defensores de terapias alternativas, colocando seus filhos em dietas livres de glúten e caseína e os submetendo a uma série de tratamentos não comprovados. Eles frequentavam conferências que Jim Laidler descreveu mais como comícios, coleções de entusiastas com teorias contraditórias, unidos apenas na oposição a todos os demais.

Na saúde e medicina é fácil provocar o pânico existencial, porque ainda há condições letais e debilitantes para as quais a ciência tem poucas respostas: câncer, autismo, Alzheimer, entre outras. Trump fez o mesmo na esfera política: em vez de explorar o aumento das doenças, ele invoca o aumento da criminalidade urbana. (Na verdade, ambos estão em queda.) Ao longo de toda a campanha, Trump ofereceu uma retórica que caracterizava o estilo de vida americano como estando à beira do colapso completo. Em vez de toxinas, terroristas.

Os problemas identificados e soluções apresentadas pelos médicos charlatães e por Trump seguem os mesmos arquétipos, apenas variam em detalhes específicos. Invasores estrangeiros (produtos químicos, imigrantes, tudo o que não é natural) nos adoecem, tomando conta de nossos sistemas. Nós devemos expulsá-los, desintoxicar, deportar e então mantê-los de fora, seja por meio de um reforço de nosso sistema imunológico com suplementos ou por meio da construção de um muro gigante.

Abrir mão da visão mística não apenas ameaçaria o senso de esperança e segurança dos crentes, como também ameaçaria sua dignidade.

A nostalgia exerce um grande papel em ambos os casos. "Vivemos em um mundo tóxico", escreve o autor best-seller e "neurologista empoderador" David Perlmutter (autor de um livro altamente criticado sobre como grãos estão destruindo nossos cérebros). Mas, ele defende, "se você perguntar aos seus avós e bisavós sobre do que as pessoas morriam quando estavam crescendo, você provavelmente ouvirá 'velhice' como resposta". De forma semelhante, a mitologia de Trump nos faz acreditar que há não muito tempo os Estados Unidos eram isentos de criminalidade, com abundância de empregos e um corpo político tão patriótico que transcendia as divisões raciais e econômicas.

O pânico existencial estreita sua visão até você ver apenas uma ameaça ao seu ser. E então ali, no fim do túnel, estão os gurus. Os Trumps. Eles oferecem panaceias, que é pelo que anseiam aqueles em pânico existencial. Não terapias árduas com poucas chances de sucesso, não políticas complexas, mas soluções simples que garantidamente curarão tudo.

Assim que essas panaceias são abraçadas, a crença nelas não pode ser facilmente removida. Abrir mão da visão mítica não apenas ameaçaria o senso de esperança e segurança dos crentes, ameaçaria a dignidade deles. Isso se deve graças, em parte, ao fator final no estabelecimento e garantia de poder do charlatão: o antielitismo.

As acusações de elitismo misturam equivocadamente duas alegações diferentes. A primeira, que é verdadeira, é que algumas pessoas sabem mais do que outras: sobre religião, história, ciência, medicina, economia, política. A segunda, que é falsa, é que essas pessoas valem mais como seres humanos em virtude de seu conhecimento especializado. O antielitismo transforma a primeira alegação na segunda afirmação e explora o fato de as próprias elites com frequência fazerem o mesmo. Médicos com ar de superioridade se tornam sinônimos de todos os médicos, acadêmicos pomposos de todos os acadêmicos.

Os charlatães, que inevitavelmente são populistas, sabem por que seu público está ouvindo: as elites foram injustas com o público, não resolveram seus problemas, às vezes até mesmo os causaram. Quando as pessoas adoeceram, os médicos disseram que nada poderia ser feito. Quando se queixaram da criminalidade dos negros em seus bairros, foram chamadas de racistas. Quando optaram por serem mães e donas de casa cristãs, foram chamadas de fracassadas retrógradas. Quando tentaram criar empregos procurando por petróleo, o governo as regulou. Quando ganharam muito dinheiro com atividades bancárias, os acadêmicos liberais as acusaram de exacerbar a desigualdade econômica.

Os charlatães então lhes deram um novo refrão: conhecemos nossos corpos melhor do que ninguém, conhecemos nossos empregos melhor do que ninguém, não as elites. Temos o direito de escolher nossas próprias soluções. Nós rejeitamos as elites.

O processo de abraçar a visão empoderadora do charlatão não é racional, o que significa que argumentos racionais dificilmente a eliminarão. Estudos demonstraram repetidas vezes que as pessoas se agarram com tenacidade à sua visão de mundo, e dados conflitantes podem até mesmo reforçar suas crenças. (Veja essa família que acredita que Trump "é um homem de fé que trará a religiosidade de volta".) Renunciar a Trump significaria admitir que a visão de mundo da pessoa (de um país devastado pela carnificina, como o presidente colocou em seu discurso de posse, e que um herói que diz a verdade pode curá-lo) está errada de forma fundamental. E isso também pode significar confrontar o pânico existencial sem uma panaceia. É muito mais fácil perdoar Trump por não mandar Hillary Clinton para a cadeia do que enfrentar essas verdades.

Quem dera eu pudesse oferecer uma fórmula fácil para enfrentar esse tipo de logro, mas não estou no ramo de vender panaceias ou contar contos de fadas. Foram necessários anos para que Jim e Louise Laidler pudessem voltar a enxergar, e isso aconteceu por acaso, quando um de seus filhos pegou um waffle na Cozinha do Pateta em uma viagem à Disneylândia, quebrando sua dieta livre de glúten. Quando nada aconteceu, a formação médica e científica deles voltou a funcionar, e começaram a ver as terapias, as conferências, tudo, como realmente eram: uma fantasia e um engodo.

Mas muitas outras pessoas nunca verão. Por que deveriam? Em economia, isso é conhecido como falácia do custo irrecuperável, que faz com que você se agarre a algo sem valor (uma ideia, uma prática) por já ter investido demais naquilo. Para os apoiadores de Trump, assim como para muitos que se sentem desiludidos pelo sistema médico, o investimento é em sua identidade, dignidade e senso de esperança. Muito poucas pessoas estão dispostas a mudar pelo bem da verdade. A amiga da família continua praticando o zapping.

No final, Trump é um sintoma de um problema profundo, mais profundo do que os fracassos institucionais e educação ruim, mais profundo que o racismo ou sexismo. Os seres humanos precisam de mitos para tornar administrável a complexidade esmagadora e injustiças evidentes da vida. Repetidas vezes, nos deixamos seduzir por salvadores interesseiros que contam histórias sobre o Éden e as forças malignas que nos expulsaram, que prometem que a fé em suas soluções e nos conduzirão de volta. É claro, isso nunca aconteceu e nunca acontecerá. Na verdade, não há uma "volta".

Mas o argumento de venda persiste, mesmo com o passar do tempo e em culturas diferentes. Assim, é imperativa a concentração na criação de cidadãos mais capazes de resistir a isso. O custo de um investimento ruim, para os indivíduos e para nossa sociedade, é alto demais e difícil demais de recuperar. Nunca teremos sucesso em nos proteger plenamente contra o apelo de pessoas como Trump. Sempre haverá um mercado para zappers. O melhor que podemos fazer é reduzir o mercado por meio de educação e vigilância contínua, reforçadas por nossa determinação, devido ao reconhecimento honesto de nosso fracasso inevitável e do risco de nem mesmo tentar.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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