Suspenda a "estúpida e odiosa proibição de vistos", sugere general para Trump derrotar o EI

Fred Kaplan

  • Raqqa Media Center via AP/Arquivo

Após o presidente Donald Trump assinar uma ordem executiva dando ao Estado-Maior das Forças Armadas 30 dias para elaborar um plano para destruição do Estado Islâmico, entrei em contato por e-mail com vários altos oficiais das Forças Armadas dos Estados Unidos, alguns na ativa, outros reformados, todos com experiência de combate em nossas guerras recentes, e lhes perguntei que tipo de planos o Estado-Maior deve apresentar.

Um dos oficiais, um general, respondeu: "Eles poderiam começar lhe dizendo para suspender essa estúpida e odiosa proibição de vistos".

O comentário acentua um grande problema não apenas com as ordens de Trump, mas também com seu mandato até agora como comandante-chefe: ele parece não entender a natureza política da guerra ou as consequências estratégicas da política.

A proibição da qual o oficial se referia, outra ordem executiva assinada por Trump, na tarde de sexta-feira, proibindo a entrada nos Estados Unidos de qualquer cidadão do Iraque, Irã, Síria, Sudão, Líbia, Iêmen ou Somália, ameaça gravemente não apenas os valores americanos, mas também os interesses de segurança dos Estados Unidos. (É um verdadeiro feito uma única política prejudicar tanto nossos valores quanto nossos interesses.) Afinal, as Forças Armadas americanas estão conduzindo operações militares de algum tipo (desde combates terrestres e ataques aéreos até missões de operações especiais) em todos esses sete países, exceto um, o Irã.

Os soldados locais que estão aconselhando ou lutando ao lado das forças americanas, sem falar na população local que tolera sua presença, provavelmente passarão a desconfiar, talvez até mesmo hostilizá-las, se o presidente americano passar a lhes dizer que sob nenhuma circunstância a entrada deles em nosso país deve ser permitida, pois podem ser terroristas.

Em outras palavras, com essa ordem, que enfrenta grandes protestos de cidadãos, juízes e muitos legisladores, Trump está tornando mais difícil derrotar o EI, ao dizer aos aliados e principais forças naquela luta que não são bons o bastante para colocarem os pés nos Estados Unidos.

Seja qual for o plano de guerra que o Estado-Maior envie para Trump, ele provavelmente ficará decepcionado. A maioria dos oficiais que contatei disse que a guerra contra o Estado Islâmico, estritamente como uma operação militar, está indo muito bem e que o califado, o Estado Islâmico como unidade territorial no Iraque e na Síria, pode vir a ser destruído em questão de meses, se não mais cedo. A única forma de intensificar a campanha ou obter resultados mais rapidamente, eles dizem, seria o envio de mais tropas terrestres americanas ou o envio de muito mais armamentos para as forças mais ativas no combate ao Estado Islâmico, notadamente os peshmerga (nome dado às tropas curdas) e as milícias xiitas.

Mas o Estado-Maior provavelmente notará em seu briefing ao presidente que fazer qualquer uma dessas duas coisas poderia alienar as forças ou líderes locais, que precisam liderar a luta para que seja bem-sucedida a longo prazo. A primeira opção (o envio de 10 mil ou mais tropas americanas ao Iraque, Síria ou ambos) provocaria convulsões de alegria entre os propagandistas jihadistas, reafirmando a mensagem deles de que os Estados Unidos estão em guerra com o Islã.

"Trump está tornando mais difícil derrotar o EI, ao dizer aos aliados e principais forças naquela luta que não são bons o bastante para porem os pés nos Estados Unidos"

E não estariam totalmente errados. Como Rudy Giuliani disse à "Fox News" neste fim de semana, Trump lhe perguntou sobre como fazer uma "proibição de muçulmanos" legalmente. Giuliani e alguns outros pensaram a respeito e tiveram a ideia de proibir a entrada de pessoas de países perigosos (que, por acaso, são predominantemente muçulmanos). O subterfúgio ficou ainda mais transparente quando Trump disse que uma isenção à proibição poderia ser aberta às minorias religiosas perseguidas (isto é, os cristãos) desses países. Já é difícil para muitos muçulmanos iraquianos ou sírios (soldados, milicianos, políticos e cidadãos comuns) tolerarem ou apoiarem os americanos que estão em seu solo, permanecendo em segundo plano. Torna-se ainda mais perigoso ou detestável continuar fazendo diante de um multiplicação desses americanos lutando à frente.

A segunda opção, o envio de mais armas mais letais aos curdos e milícias xiitas, alienaria os turcos (no caso dos curdos) ou os líderes árabes sunitas (no caso das milícias xiitas), que são cruciais para solução das guerras civis que proporcionaram as condições para a ascensão do Estado Islâmico. O principal motivo para os Estados Unidos não agirem de forma mais agressiva ou unilateral contra os redutos do Estado Islâmico desde o início, especialmente em Mosul, Iraque, e Raqaa, Síria, foi o fato de os comandantes americanos terem precisado negociar arranjos com esses líderes e forças locais: primeiro, para obtenção de inteligência sobre as complexidades do campo de batalha; depois, após isso ter sido conseguido, negociar sobre que forças lutariam onde, em que ordem, contra quem, e quem ficaria com o que depois.

Guerra de coalizão é uma coisa complicada e sempre foi, mas se os Estados Unidos têm interesses pelos quais vale a pena lutar no Oriente Médio, não há outra forma de fazê-lo. O general reformado James Mattis, um ex-chefe do Comando Central dos Estados Unidos e atualmente secretário de Defesa de Trump, disse em sua audiência de confirmação que as guerras que travou com fuzileiro na região foram todas guerras de coalizão e que ele prefere dessa forma.

Quando o Estado-Maior apresentar a Trump seu novo plano de guerra no mês que vem, duas coisas provavelmente o frustrarão mais. Primeiro, ele provavelmente se parecerá muito com o plano de guerra existente, com talvez algumas poucas coisas intensificadas. Segundo, não haverá botões mágicos. Colin Kahl, que foi conselheiro de segurança nacional do ex-vice-presidente Joe Biden e, antes disso, diretor-chefe de assuntos do Oriente Médio no Departamento de Defesa, tuitou no sábado: "Psiu, @realDonaldTrump, o Pentágono não lhe mostrará um plano secreto que escondeu de Obama".

Esse é outro problema sério com todo o panorama de Trump. Ele vê que o mundo está um caos e que os Estados Unidos perderam a influência que antes tinham, e conclui que isso está acontecendo porque nossos líderes são "estúpidos", negociadores incompetentes que são "politicamente corretos" demais para enxergar o problema real. Elejam-me, ele disse durante a campanha, e colocarei as melhores pessoas encarregadas, fecharei os melhores acordos e voltaremos a ganhar de novo.

Ele logo descobrirá que não é assim tão simples. O mundo está um caos em parte porque grandes partes dele sempre estiveram um caos, em parte pelo mundo ter se tornado mais anárquico, devido ao colapso de blocos de poder, as fronteiras terem se tornado porosas, os padrões de medição de poder terem mudado e devido ao surgimento de novas formas de conflito após o fim da Guerra Fria. Alguns conflitos são simplesmente intratáveis. Às vezes nem mesmo está claro o que "vencer" significa e, de qualquer modo, com frequência não podemos vencer sozinhos ou totalmente em nossos próprios termos.

Uma terceira ordem executiva, assinada neste fim de semana, pode tornar ainda mais difícil para Trump compreender essas realidades. Nessa ordem, Trump reorganizou o Conselho de Segurança Nacional para que o diretor nacional de inteligência e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas não mais sejam membros permanentes do comitê principal, o grupo de secretários do Gabinete que delibera sobre assuntos urgentes de política externa, enquanto Steve Barron, o estrategista político de Trump, passou a ser.

Um aspecto dessa política pode não ser tão novo quanto parece. A legislação de longa data que rege o Conselho de Segurança Nacional declara que o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas "pode, em seu papel como principal conselheiro militar do Conselho de Segurança Nacional e sujeito à direção do presidente, frequentar e participar das reuniões" do comitê. Em outras palavras, ele nunca foi formalmente membro do comitê principal. Mas, por uma questão prática, devido a tantos assuntos do comitê principal envolverem assuntos militares, o chefe e vice-chefe quase sempre participam dessas reuniões.

Por outro lado, o diretor nacional de inteligência sempre foi membro permanente desde a criação do posto em 2005 e, antes disso, o diretor da CIA (Agência Central de Inteligência) era um membro. Não faz sentido os secretários de Estado, defesa, tesouro e outros chefes do Gabinete se reunirem na Casa Branca com o conselheiro de segurança nacional (e às vezes com o presidente) para discutir e elaborar políticas sem a presença na discussão da principal autoridade nacional de inteligência, o coordenador das 17 agências de inteligência do país.

A história aqui é que o conselheiro de segurança nacional de Trump, o general de Exército reformado Michael Flynn, apresentou a ideia de abolir o diretor nacional de inteligência e fazer com que todas as agências de inteligência respondam a ele. É pertinente notar que há alguns anos, o diretor nacional de inteligência, o general de Exército reformado James Clapper, demitiu Flynn de seu último cargo no governo, como diretor da Agência de Inteligência da Defesa, uma decisão que deixou Flynn ressentido com o diretor nacional de inteligência e contra grande parte da comunidade de inteligência, que discordavam dele em várias questões. A remoção do diretor nacional de inteligência do comitê principal sugere que o plano maior de Flynn pode estar em ação.

Outro elemento novo e sem sentido dessa ordem executiva é a colocação do estrategista político do presidente a bordo. Karl Rove nunca participou das reuniões do Conselho de Segurança Nacional durante a presidência de George W. Bush, por mais importante que ele fosse em vários assuntos. David Axelrod participou de algumas reuniões do conselho durante o mandato de Barack Obama, apesar de ter sempre permanecido sentado próximo da parede, ao lado de outros assessores e vices: ele nunca se sentou à mesa ou disse uma palavra.

Enquanto o presidente pesa assuntos de segurança nacional, ele pode misturar seus próprios interesses políticos e instintos com o conselho dos chefes de Gabinete e os chefes das agências de inteligência e militares; de fato, o trabalho dele é fazer exatamente isso. Mas o parecer do conselho deve estar enraizado nos interesses de segurança nacional dos Estados Unidos, o motivo para o grupo ser chamado de Conselho de Segurança Nacional. Dar ao estrategista político do presidente uma cadeira a esta mesa, o elevando ao mesmo nível dos secretários de Estado e defesa, injetará nessas reuniões um ponto de vista que expressamente deveria evitar. E diante das inclinações desse estrategista em particular, Steve Bannon, as injeções podem às vezes ser tóxicas.
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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