Aliados de Assad, senhores da guerra têm mais poder do que o Exército sírio

Fritz Schaap e Christian Werner

  • George Ourfalian/AFP

Em uma manhã fria, um idoso está diante de sua máquina de café expresso em uma rua no leste de Aleppo. É pouco depois das 8h da manhã e esta parte da cidade, destruída na guerra e retomada pelo regime em dezembro, está despertando. Os vendedores de verduras chegam e colocam suas caixas de produtos sobre os escombros empilhados diante de suas lojas. Outros estão removendo escombros das ruas com pás.

O nome do homem com a máquina de café expresso não deve ser mencionado, caso contrário logo estaria morto. Há uma fogueira dentro de um latão de metal ao lado de seu balcão de café improvisado e ele o usa periodicamente para esquentar suas mãos. Várias semanas atrás, logo após o bairro ter sido retomado, ele retornou para sua pequena oficina de reparo de motos, mas já era tarde demais. Ele viu imediatamente que alguém tinha aberto a fechadura com um tiro.

Lá dentro, ele encontrou combatentes uniformizados de uma milícia afiliada ao regime. Segundo ele, eles estavam retirando uma moto, suas ferramentas alemãs e todas as peças sobressalentes. Dois milicianos, ele diz, o ameaçaram silenciosamente com seus fuzis Kalashnikov, o deixando sem escolha, a não ser deixar os homens levarem seus pertences em uma picape.

Enquanto conta sua história, dois civis se aproximam da fogueira e concordam com a cabeça. Um deles, dono de um armazém geral, diz que os soldados do Exército mal tinham partido quando milicianos começaram a esvaziar sua loja. Outro conta a história de como milicianos assassinaram seu irmão. O irmão estava deitado ferido na cama quando cinco combatentes invadiram seu apartamento. "Tragam ele para fora", os combatentes ordenaram antes de tomarem o apartamento. O homem protestou, dizendo que seu irmão não podia andar, então um dos milicianos sacou sua arma e atirou na cabeça do irmão. Então os combatentes saquearam o apartamento.

Mais e mais homens do bairro se reúnem em torno da máquina de café e contam suas histórias de pilhagens, mas de repente, todos ficam em silêncio. Um miliciano pode ser visto andando pela rua com um falcão dourado em seu uniforme, o emblema dos Falcões do Deserto, uma das duas milícias mais poderosas no território controlado pelo presidente sírio, Bashar Assad.

Os verdadeiros donos do poder

Por meses, o Exército de Assad está avançando por toda a Síria. Mas seu sucesso militar só é possível devido à assistência significava que as tropas do ditador recebem do Irã e da Rússia, assim como das milícias locais sírias. Agora, esses combatentes estão assumindo o controle em muitas áreas, comentando assassinatos, saques e molestando civis. E ninguém pode detê-los, nem mesmo o próprio Assad. De fato, as milícias agora são mais poderosas do que o ditador do país e se transformaram nas verdadeiras donas do poder na Síria.

Mesmo antes da revolta síria de 2011, Assad dependia principalmente da lealdade de seus pares alauitas nos altos escalões dos serviços de inteligência e das Forças Armadas. Mas o grupo religioso corresponde apenas a 12% a 15% da população síria. Em 2012, a posição de Assad se tornou ainda mais precária à medida que o Exército começou a encolher rapidamente: dezenas de milhares de soldados desertaram, os convocados não se apresentavam para o serviço e muitos dos que lutaram acabaram mortos. Em setembro de 2015, quando os russos se juntaram à guerra, o Exército sírio contava com apenas 6.000 soldados aptos para o serviço ativo, segundo Charles Lister, do Instituto para o Oriente Médio, em Washington. Ele baseia sua estimativa em depoimentos confidenciais de oficiais russos.

Para preservar suas tropas regulares, o regime foi forçado a fazer um acordo faustiano, permitindo que pessoas armadas leais ao regime formassem suas próprias milícias. Em muitos casos, os líderes de redes de contrabando ou gangues criminosas se transformaram em chefões locais, que então puderam expandir seus negócios de forma desimpedida em troca da lealdade a Assad. As duas maiores milícias, os Falcões do Deserto, baseados na cidade portuária de Latakia, no norte, e as Forças do Tigre, em Hama, contam cada uma com entre 3.000 e 6.000 combatentes armados. Além delas, há centenas de milícias pró-regime menores.

Pão, gasolina, remédios, há escassez por todo o país. E aqueles que controlam a distribuição desses produtos podem ter altos lucros, o que lhes permite comprar mais armas e contratar mais combatentes. Como resultado, os senhores da guerra substituíram o aparato de segurança do Estado em cidades e regiões inteiras.

Apesar do Exército sírio, em seu desespero, ter sido forçado a revirar os presídios atrás de recrutas, os combatentes ingressam nas milícias por livre e espontânea vontade. Afinal, algumas delas pagam três vezes mais que o salário de um soldado comum e eles têm mais liberdade. Eles podem, por exemplo, extorquir taxas em postos de controle, vender drogas por conta própria, contrabandear gasolina e saquear as cidades e vilarejos conquistados.

Mantendo o território conquistado

Assad é dependente delas. Quando suas tropas, apoiadas por unidades russas, tomaram o leste de Aleppo em dezembro de 2016, os soldados sírios apareciam de forma proeminente diante das câmeras de televisão. Mas o combate de fato foi realizado por mercenários iraquianos, afegãos e libaneses sob liderança iraniana, assim como pelas milícias pró-regime, que também ficaram responsáveis pela proteção do território conquistado assim que os combates cessaram. E o saquearam.

O território mantido pelo regime é semelhante às áreas sob controle rebelde, fragmentado e caracterizado por mudanças constantes de fidelidade. Centenas de grupos com lealdades concorrentes assumem o controle, ganham dinheiro com a guerra e controlam seu território por meio do medo.

Hama é um desses lugares, um verdadeiro eldorado dos senhores da guerra. Em 1982, tropas leais a Hafis Assad, o fundador da dinastia Assad, esmagaram brutalmente um levante, matando mais de 10 mil pessoas em apenas três semanas. Mais recentemente, a cidade é o local onde foram fundadas as Forças do Tigre, formadas por uma rede livre de oficiais do temido serviço secreto da força aérea, líderes tribais locais e criminosos. Eles se reuniram em torno de um oficial alauita e ajudaram a esmagar a rebelião contra o regime na província de Hama, em 2011. Agora, a milícia conta com bases e redes em várias partes da Síria.

Os dois subcomandantes mais importantes em Hama são Ali Shelly, um criminoso notório, e Talal Dakkak, que mantém um leão de estimação. Dizem que Dakkak gosta de alimentar animais com suas vítimas. Os dois sequestram pessoas arbitrariamente, roubam e contrabandeiam petróleo e gasolina, que então vendem ao Estado Islâmico, contra o qual o Exército de Assad está oficialmente lutando.

Em meados de 2016, por exemplo, uma unidade do Exército interceptou vários caminhões-tanque cheios de gasolina. A coluna estava viajando em nome de Dakkak e o combustível transportado aparentemente era destinado a unidades do Estado Islâmico. Os soldados não ousaram confiscá-lo por temor de uma vingança de Dakkak e a gasolina foi entregue à divisão local do serviço secreto da força aérea, que tem laços estreitos com as Forças do Tigre. Não demorou para que os caminhões pudessem retomar sua jornada.

Feliz em ajudar seus inimigos

Afinal, Assad precisa da ajuda das milícias nas linhas de frente. E mesmo se não precisasse, ele não poderia enfrentá-las devido à riqueza e poder delas. No início de fevereiro, começou a ocorrer novamente escassez em Aleppo e medicamentos urgentemente necessários estavam se esgotando. A milícia de Shelly, que cobra pedágio no único acesso a Aleppo controlado por Assad, confiscou os medicamentos enviados para a cidade visando revendê-los com lucro.

Se há como ganhar dinheiro, Shelly fica feliz até mesmo em ajudar seus inimigos. Um documento de 5 de maio de 2015 do serviço secreto militar sírio descreve em detalhes como Shelly fornece armas aos grupos rebeldes. E não foi por acaso que o documento foi vazado, dado que o serviço secreto militar está concorrendo de forma amarga contra o serviço secreto da força aérea e seus amigos das Forças do Tigre por poder e dinheiro.

Esses são os homens que estão travando a guerra de Assad.

Em um vilarejo no território controlado por Assad, um médico e sua mulher estão sentados em seu sofá na sala de estar olhando para o smartphone que estão usando para falar com a "Spiegel". A voz da mulher treme de medo enquanto ela fala: "Ocorreu aqui em nosso vilarejo. Homens uniformizados invadiram a casa de uma mulher. Eles a amarraram, roubaram seu dinheiro e a torturaram até que revelasse onde o dinheiro de seu marido estava escondido. Quando os homens pegaram o dinheiro, eles desapareceram".

O marido acrescenta: "Dois dias atrás, um comerciante foi sequestrado aqui". E várias semanas atrás, ele diz, amigos dele foram roubados na estrada. Eles foram parados em um posto de controle improvisado e arrastados para fora do carro. Os milicianos tomaram o carro e partiram acelerado.

Os agricultores que querem passar por essas barreiras precisam pagar um pedágio para chegar às suas plantações. Se não toda a colheita pode ser confiscada. Em vários vilarejos, ligas de defesa dos cidadãos foram formadas, patrulhando à noite para afugentar os milicianos saqueadores. O médico diz que a divisão de trabalho entre os dois líderes do Tigre é clara: a maioria dos sequestros pode ser rastreada até Talal Dalakk, ele alega, enquanto o contrabando provavelmente é obra de Ali Shelly.

Terminando em fiasco

Às vezes, o Exército ou o serviço de inteligência militar tenta conter os senhores da guerra. Mas essas tentativas sempre terminam em fiasco. Em março de 2016, as unidades de Assad prenderam o líder de uma poderosa milícia cristã do norte da província, após uma troca de tiros. Mas seus seguidores protestaram de modo violento e o homem logo foi libertado.

"Sim, temos problemas", diz Hussein Dayoub, chefe do Partido Baath de Assad, em Hama. Sentado em seu gabinete revestido em painéis de madeira sob um retrato do presidente, ele reconhece que os milicianos montam postos de controle e extorquem pedágios. Ele também diz que o contrabando e os sequestros são um problema, mas acrescenta que não sabe quem está por trás deles.

Em teoria, Dayoub é um homem poderoso, chefe do diretório local do partido do governo. Mas até mesmo ele parece ter medo de cair em desgraça junto às milícias, as verdadeiras governantes de Hama. Na distante Damasco, o ministro da reconciliação do país também conta à "Spiegel" que o regime está ciente do problema, mas não tem poder para resolvê-lo.

Os maiores rivais das Forças do Tigre na disputa pelos lucros do contrabando e pelo poder podem ser encontrados em Latakia, uma cidade costeira no coração do território alauita. Começa a chover à medida que nuvens baixas chegam vindas do mar. A siderúrgica pertencente a Mohamed Jaber fica localizada entre os campos ao sul da cidade. Onde vigas de aço antes eram fabricadas para construção, foguetes agora são soldados e blindagem é instalada em picapes. Esta é uma das bases dos Falcões do Deserto e sua fábrica de armas.

O hangar cinza no local, feito de cimento e placas de metal onduladas, talvez tenha 200 metros de comprimento. Oito tanques T-72 de fabricação soviética estão estacionados na lama de um lado, enquanto caminhões militares, veículos blindados de transporte de tropas e artilharia pesada cercam o prédio.

Certificados de gratidão

Jovens zanzam em frente de um antigo prédio de escritórios, alguns com não mais que 15 anos. Eles vestem uniformes de camuflagem e seus olhos são cansados: não fazia muito tempo que tinham voltado da batalha por Aleppo. Eles se amontoam na chuva, fumando cigarros entre peças de caminhão e armas antiaéreas. No interior do prédio, onde faturas e pedidos antes eram preenchidos em escritórios revestidos de madeira, caixas cheias de munição agora são empilhadas.

Após a surpreendentemente franca visita à fábrica de armas, o líder dos Falcões do Deserto, Jaber, conduz o caminho até seu apartamento. Ele mora no quarto andar de um prédio de apartamentos de luxo com vista parta o porto de Latakia: as paredes são revestidas com painéis, o piso é de mármore e, no fundo, há uma televisão gigante exibindo vídeos de propaganda para sua milícia. Em um aparador, certificados emoldurados de gratidão da Rússia estão em exibição.

Jaber é um homem vaidoso e corpulento. Ele passa uma hora listando os sucessos militares conseguidos por sua milícia, gritando periodicamente para que seu pessoal traga mapas e chá.

Sim, ele finalmente reconhece, seus homens praticaram saques, mas apenas raramente. Afinal, há ovelhas negras em toda parte. "Somos um grupo grande. Alguns são bons, alguns são maus. Mas estão lutando pelo nosso país, o que é o mais importante."

E ele acrescenta: "Em Hama, há milícias. São sequestradores, assaltantes e assassinos." A referência, é claro, é às Forças do Tigre, seus rivais.

Durante a batalha de março de 2016 pela cidade de Palmira, famosa por suas ruínas antigas, as duas milícias trocaram fogo. Uma delegação militar de alta patente foi enviada rapidamente para Damasco para mediar. De lá para cá, o pessoal de Assad tenta enviar os tigres e falcões para diferentes frentes de batalha.

De cleptocrata a senhor da guerra

Mohamed Jaber e seu irmão inicialmente enriqueceram com contrabando. Nos anos 90, eles começaram a contrabandear petróleo do Iraque para o país, antes de investirem seus milhões na indústria do aço. Quando a guerra civil síria começou em 2011 e as sanções internacionais isolaram o regime de Assad, foi pedido a eles que usassem seus contatos de contrabando para trazer o petróleo e gasolina muito necessários.

Para proteger seus comboios enquanto cruzavam o deserto, os Jabers recrutaram centenas de ex-soldados e criminosos. Em agosto de 2013, Assad assinou um decreto permitindo que empresários privados mantivessem suas próprias forças de segurança, assim abrindo o caminho para que cleptocratas a seu favor se tornassem senhores da guerra.

Jaber, entretanto, diz não estar interessado nem em poder e nem em dinheiro, alegando já ter o suficiente de ambos. Em vez disso, ele quer apenas ajudar o presidente Bashar Assad. Quando a guerra acabar, ele diz que vai baixar suas armas, acrescentando um pouco depois: "Poderíamos controlar mais de 60% do país se nos fosse permitido".

Os russos têm uma abordagem pragmática para as milícias: dependendo da situação, são dadas armas, medalhas e selfies com oficiais russos aos senhores da guerra locais. Mas de forma privada, os generais russos se queixam das milícias e do estado chocante do Exército.

Se os senhores da guerra se tornarem mais poderosos, Assad poderá em breve se tornar apenas um líder figurativo, cercado por uma roda de ladrões e contrabandistas. E as milícias também estão ganhando influência política: nas eleições parlamentares do ano passado, candidatos da velha classe governante não se saíram tão bem quanto no passado. Em vez deles, candidatos ligados aos senhores da guerra saíram vitoriosos.

As eleições na Síria, é claro, não refletem a vontade do eleitorado. Apenas mostram quem tem o poder para fazer seus candidatos serem eleitos. Costuma-se dizer que, apesar de Assad ser terrível, ele é a última autoridade de Estado restante no país. Mas a força das milícias mostra que ele perdeu até mesmo essa autoridade há muito tempo.

Com reportagem adicional de Tobias Schneider

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos