Operadoras de satélites privadas dão informações essenciais sobre a mudança climática

Tanya N. Harrison

  • Divulgação/Nasa

    O lado escuro da Lua e a Terra vistos a partir de um satélite

    O lado escuro da Lua e a Terra vistos a partir de um satélite

Você pode não pensar a respeito, mas o espaço é essencial para seu cotidiano. Previsões do tempo, sistemas de navegação por GPS, monitoramento ambiental e sincronia de horário para sistemas bancários e redes elétricas são as formas mais comuns pelas quais interagimos com os recursos espaciais diariamente. Foi-se o tempo em que os governos dos Estados Unidos e da União Soviética dominavam a órbita terrestre. As políticas e as economias espaciais modernas envolvem redes complexas de dezenas de governos, empresas privadas e entidades de pesquisas. Nós entramos em uma era conhecida como Novo Espaço.

Grande parte desse setor do Novo Espaço consiste no fornecimento de dados de observação da Terra por satélites construídos e operados por empresas privadas. Esse mercado comercial emergente fornece uma oportunidade para países que não têm programas espaciais extensos de obter dados de alta qualidade por uma fração do custo que teriam se lançassem seus próprios satélites. Imagens de satélite oferecidas por empresas comerciais chegam a ter resoluções uma ordem de magnitude melhores do que a contraparte governamental com a mais alta resolução, a Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia. Esse salto —de 10 metros para 1 metro ou melhor, em alguns casos— libera resoluções anteriormente só obtidas por satélites de reconhecimento de governos. Graças a esses aprimoramentos, empresas privadas emergiram como algumas das principais provedoras de dados essenciais para a observação da Terra.

Esses recursos espaciais que estão surgindo oferecem informações essenciais sobre nosso meio ambiente e a mudança climática da Terra. Nos Estados Unidos e outros países desenvolvidos com recursos espaciais já estabelecidos, pode não parecer grande coisa (bem, pelo menos até pouco tempo atrás) o fato de que a Nasa, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica e a Agência de Proteção Ambiental oferecem dados amplamente acessíveis e monitoramento de tempo e clima. Mas países como o Camboja, a Nigéria e muitas pequenas nações insulares —especialmente aquelas que mais sofrerão com a elevação do nível dos mares, com a perda de biodiversidade, os climas extremos e as tempestades tropicais— já estão sentido os efeitos da mudança climática. Até recentemente, eles tinham muito menos recursos espaciais para monitorar seus ambientes.

Na verdade, dados comerciais de observação da Terra já estão sendo usados para monitorar os efeitos da mudança climática em nações em desenvolvimento. Will Marshall, um dos fundadores da startup de cubesats de San Francisco chamada Planet, disse durante sua TED Talk em 2014 que uma das metas da empresa era "democratizar o acesso a dados de satélites... e as informações sobre nosso planeta". Mais recentemente, Andrew Zolli, o vice-presidente da Planet para iniciativas de impacto global, nos contou: "Temos um fluxo regular de governos de países em desenvolvimento —que tradicionalmente são subrepresentados no espaço— comprando nossos dados para fins diversos de monitoramento". Ele disse, por exemplo, que o Camboja assinou recentemente um contrato com a Planet para adquirir dados para monitoramento de ecossistemas.

Dados de alta resolução dos quatro satélites WorldView da DigitalGlobe foram utilizados pela empresa nigeriana Aerial-View Solutions para criar mapas mais precisos do país. Mapas melhorados integram diretamente o planejamento de infraestrutura, uma área chave de importância para a modernização do país diante da elevação do nível do mar e da intrusão de água salgada.

Algumas empresas deram acesso gratuito a dados para pesquisadores que estão estudando riscos naturais potencialmente relacionados com a mudança climática. A Fundação DigitalGlobe forneceu uma "concessão de imagens" para uma equipe liderada por Jacob Gaskill na Universidade Estadual de Grand Valley que investiga deslizamentos de terra na ilha caribenha de São Vicente, onde 78% da população vive em áreas de riscos de deslizamento de terra. Andreas Kääb, da Universidade de Oslo, usou dados fornecidos pela Planet para estudar grandes deslizamentos de terra no Tibete desencadeados pelo desabamento de geleiras. Enquanto os deslizamentos eram visíveis em dados da Landsat e da Sentinel-2, pistas essenciais para sua formação eram visíveis somente na resolução das imagens da Planet.

Uma grande parte da negociação do futuro da política espacial estará na discussão de um maior compartilhamento e financiamento de dados de observação da Terra. A questão pode ser: quanto exatamente podemos esperar que países em desenvolvimento tirem de seus orçamentos para tratar de um fenômeno que eles praticamente não criaram? A mudança climática é um exemplo clássico de justiça ambiental, um conceito que inclui a ideia de que aqueles que causam problemas ambientais deveriam ser os responsáveis por resolvê-los sem externalizar danos aos outros. A partir dessa perspectiva, deveria haver um esforço internacional para ajudar todos os países a acessarem os recursos dos quais eles precisam para se adaptarem à mudança climática.

Um exemplo desse esforço é a Plataforma da ONU para Informações Espaciais para Gestão de Desastres e Respostas de Emergência. O programa SPIDER foi criado pela Assembleia Geral da ONU em 2006 com o intuito de fornecer "acesso universal a todos os países...para todos os tipos de informação de origem espacial e serviços relevantes ao gerenciamento de desastres". O intuito é desenvolver redes para o acesso a dados espaciais. No entanto, de acordo com seu plano de trabalho para o período de 2016-2017, a ONU-SPIDER está enfrentando limitações orçamentárias e depende em sua maior parte de um pequeno fundo de investimentos voluntários para ajudar a conectar países com os dados de observação da Terra e o treinamento para integrar esses dados aos planejamentos.

A ideia de promover uma comunidade de dados espaciais compartilhados não é nova. O Tratado do Espaço está comemorando seu 50º aniversário; ele e outras convenções internacionais dizem que o uso do espaço deveria beneficiar todos os países. A adaptação à mudança climática nos dá o exemplo perfeito do motivo pelo qual essa linguagem dos "benefícios compartilhados" na política espacial internacional é tão importante. A mudança climática é um problema global que recursos de origem espacial acessíveis ajudarão a abordar. Uma comunidade espacial global com empresas privadas, agências espaciais nacionais e programas como o ONU-SPIDER deve continuar trabalhando junta de forma a evitar que os principais custos de uma adaptação, e os impactos de não se adaptar, afetem de forma desproporcional os mais vulneráveis do mundo.

Will Marshall, da Planet, diz: "Você não pode consertar aquilo que não enxerga". A alta resolução e a frequência de revisita dos satélites comerciais nos permitem ver os efeitos da mudança climática em tempo real. A observação dessas mudanças, especialmente em escala local, pode ser uma ferramenta poderosa para educar o público sobre como a mudança climática afeta tanto a eles como ao mundo como um todo.

Este artigo faz parte do episódio sobre novo espaço da Futurography, uma série na qual o Future Tense apresenta os leitores às tecnologias que definirão o futuro. A cada mês escolheremos uma nova tecnologia e destrinchá-la. O Future Tense é uma colaboração entre a Universidade Estadual do Arizona, o New America e a "Slate".

Tradutor: UOL

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