Análise: É improvável que democratas e Trump trabalhem juntos por uma lei de saúde

Josh Voorhees

  • Win McNamee/Getty Images/AFP

    Trump discursa no Congresso norte-americano em fevereiro

    Trump discursa no Congresso norte-americano em fevereiro

A Lei Americana de Atendimento à Saúde (na sigla em inglês) foi declarada morta na tarde de sexta-feira (24), em uma derrota notável do presidente Trump e uma grande vitória do público americano em geral. Donald Trump, porém, nunca foi de aceitar derrotas com facilidade --ou com muita coerência.

"Eu digo há anos que o melhor é deixar o Obamacare explodir e então fazer um acordo com os democratas e ter um acordo unificado", disse o presidente ao jornal "The Washington Post", descrevendo uma realidade alternativa em que ele não teria feito campanha com a promessa de imediatamente revogar e substituir a lei aprovada por Obama. "E eles virão até nós; nós não teremos de ir procurá-los."

Isso é, hum... improvável.

Para começar, o plano B de Trump --que agora ele diz que sempre foi o plano A-- parte da premissa de que os democratas não terão outra opção além de fazer o que ele diz quando o Obamacare pegar fogo. Mas há muitos motivos para se duvidar que esse será o destino da lei. Segundo o Departamento de Orçamento do Congresso, o mercado de seguros-saúde individuais está atualmente estável na maior parte do país, e com ele o mercado de seguros-saúde como um todo.

Sim, o Obamacare tem problemas, mas a maioria deles se limita a nível estadual e local e, pelo menos até esta segunda-feira (27), não pareciam suficientes para causar a espiral da morte nacional que Trump afirma ser iminente e inevitável.

Desde que o Obamacare continue vivo, é difícil imaginar que os democratas aceitem os esforços dos republicanos para matá-lo. Afinal, Bernie Sanders e outros progressistas já sonham em expandir a rede de segurança social por meio do Medicare universal. (Considerando que os republicanos controlam as duas casas do Congresso e a Casa Branca, é seguro dizer que esses esforços são mais posicionamento político do que propostas reais de políticas plausíveis para um futuro previsível.)

Se Trump fosse do tipo vingativo, de coração frio (falando de modo totalmente hipotético, é claro), o presidente poderia trabalhar com o secretário de Serviços de Saúde e Humanos, Tom Price, para sabotar o Obamacare, na esperança de empurrá-lo para o abismo.

Com a situação destroçada, os democratas poderiam se dispor a ajudar os republicanos a recolher os pedaços pelo bem de seus eleitores. Mas é inconcebível que eles simplesmente cederiam às exigências de Trump e do presidente da Câmara, Paul Ryan, diante das metas políticas radicalmente diferentes em relação à saúde.

Mais provavelmente, eles tentariam pôr a culpa de qualquer sabotagem bem-sucedida ao Obamacare aos pés dos sabotadores --algo não necessariamente tão difícil de vender, considerando que o Partido Republicano está atualmente no poder e eles estariam segurando o saco. Assim, "forçar" os democratas a vir à mesa não parece um resultado provável.

De uma maneira ou de outra, portanto, o presidente e os líderes republicanos precisariam oferecer aos democratas algumas cenouras com sabor de "socialismo", em vez de simplesmente ameaçá-los com paus de "morte ao Obamacare". Após o colapso da lei na sexta-feira, algumas pessoas informadas em Washington aceitaram suspender a descrença e sugerir que isso poderia de fato acontecer.

"Com a lei morta", tuitou na sexta-feira Jay Carney, o ex-porta-voz de Obama, "os dois partidos agora podem se reunir em torno da reforma da saúde baseada no mercado, que expande enormemente a cobertura [e] reduz custos".

De modo semelhante, o atual secretário de imprensa da Casa Branca sugeriu na segunda-feira que Trump está mais aberto à contribuição democrata do que sugeriram seus comentários na sexta-feira, dizendo que o presidente está "absolutamente" disposto a trabalhar com os democratas e que vários já o haviam procurado com ideias. "Vamos examinar onde poderemos conseguir os votos", disse Sean Spicer a jornalistas.

É melhor a Casa Branca se preparar para uma longa busca. Lembrem-se: a lei de saúde de Trump teria cancelado o seguro para cerca de 24 milhões de pessoas, mas alguns legisladores republicanos --e muitos analistas conservadores-- achavam que não seria suficiente. O Cáucus da Liberdade da Câmara [uma ala ultraconservadora do Partido Republicano na Casa] via a nova lei como o Obamacare "light", então imaginem como eles reagiriam a uma versão que incluísse contribuições de liberais de verdade, em vez de simplesmente republicanos "moderados".

Enquanto isso, não estava garantido o apoio dos republicanos mais centristas para a lei de autoria republicana. As deserções provavelmente viriam depressa e furiosas assim que a legislação incluísse o tipo de compromisso necessário para conquistar democratas. Afinal, a ideia de que as políticas democratas estão causando mais danos que bem ao sistema de saúde do país foi mais ou menos um esteio da plataforma do Partido Republicano nos últimos sete anos.

Para levar um projeto de compromisso ao plenário da Câmara, Paul Ryan possivelmente teria de quebrar a regra Hastert, o procedimento de governança republicano que normalmente impede que um presidente realize uma votação de um projeto sem o apoio da maioria de sua bancada.

Diante das feridas políticas que ele sofreu durante o debate da lei da saúde, não está claro se Ryan sobreviveria aos danos que a infração da regra causaria a ele e à sua Presidência. Mais importante, está ainda menos claro por que ele ajudaria a aprovar uma lei que é mais popular no partido de oposição do que no seu próprio.

Em todo caso, Spicer parecia abandonar o jogo em sua entrevista coletiva de segunda-feira, ao sugerir que Trump não está disposto a tirar a revogação da mesa --a mesma coisa que, segundo Spicer admitiu, impediu os democratas de sentar-se à mesa, para começar. "Acho que alguns democratas (...) no início do processo disseram que não queriam ter nada a ver com esse processo, que de modo algum se envolveriam em uma discussão para revogar", disse Spicer. "Por isso eu acho que é uma rua de mão dupla."

Se levarmos Spicer pela palavra, qualquer proposta oferecida pelo presidente terá como premissa a revogação das principais funções do Obamacare. É difícil ver como a) isso é um compromisso ou b) por que funcionaria desta vez, se não funcionou na última.

Spicer tentou evitar o assunto mais tarde na entrevista coletiva, quando lhe perguntaram sobre a oposição democrata à revogação no contexto do compromisso e disse: "Isso não quer dizer que precisamos de toda a bancada democrata. Significa que precisamos de alguns democratas responsáveis que queiram se sentar e discutir como fazê-lo". Sob a aparente definição de Spicer, "democratas responsáveis" são aqueles que apoiariam a revogação, por exemplo, unicórnios.

Então a reforma da saúde está morta pelo restante do mandato de Trump? Teremos de esperar para ver. Parte da razão de seu colapso na sexta-feira foi o ultimato de Trump aos conservadores da Câmara de que ou seu projeto seria votado ou nenhum projeto seria votado, mas ainda é cedo demais para dizer que não foi mera gabolice de um presidente conhecido por isso.

Na verdade, "The Washington Post" noticiou na segunda-feira que Ryan já está dizendo aos doadores republicanos que seu partido dará mais uma mordida na maçã. (Esta, mais uma vez, seria sem o apoio dos democratas, que não teriam motivo para oferecer isso a menos que fosse bipartidário, e portanto venenoso para os conservadores.)

Também resta muito tempo para Trump. Os democratas levaram mais de um ano para colocar a Lei de Acesso à Saúde sobre a mesa de Obama para que ele a assinasse. Também é plausível que em algum ponto do caminho os problemas existentes do Obamacare possam se agravar o suficiente para que os democratas de Estados mais atingidos se sintam pressionados a considerar uma alternativa. Por enquanto, porém, na promessa de Trump de um potencial acordo bipartidário parece faltar um ingrediente básico: o bipartidarismo.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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