Airbnb impede neonazistas e define novo padrão de combate ao ódio na internet

April Glaser

  • Andrew Caballero-Reynolds/AFP

    Integrantes do Ku Klux Klan chegam para encontro em Charlottesville, na Virgínia, EUA

    Integrantes do Ku Klux Klan chegam para encontro em Charlottesville, na Virgínia, EUA

Neste fim de semana, seguidores da direita alternativa e da supremacia branca baixarão em Charlottesville, na Virgínia (leste dos EUA), como têm feito durante todo este ano. Mas eles poderão descobrir que não têm um lugar para festejar.

Graças ao Airbnb, que neste fim de semana removeu os usuários que estavam usando o serviço na internet para reservar locais como parte de seu evento Unite the Right (Unir a Direita), como primeiro relatou o site Gizmodo. A companhia soube por meio de alguns de seus usuários que os participantes da Unite the Right estavam organizando a logística no site neonazista Daily Storm [Tempestade Diária], que se intitula "o site republicano mais genocida do mundo" e tem um cartaz do evento em sua primeira página, pedindo que os visitantes vão ao encontro "para acabar com a influência judia nos EUA".

Quando o Airbnb confirmou que alguns usuários tinham usado a plataforma para reservar locais para eventos associados ao encontro antissemita, o site de compartilhamento de casas decidiu bloquear as contas deles.

Isso não foi apenas um gesto fácil e correto da Airbnb. Foi também um exemplo de como uma empresa-plataforma pode realmente fazer avaliações sobre o que é ou não um comportamento aceitável, em vez de simplesmente evitar as controvérsias afirmando que apenas oferece uma ferramenta aos usuários. Isso é algo que muitas empresas ricas do Vale do Silício não parecem entender --e uma área em que, até recentemente, a Airbnb também tinha dificuldades.

Neste caso, o problema que a Airbnb tinha nas mãos era muito claro.

"Pegamos todos os Airbnbs grandes que havia em uma área", escreveu um usuário chamado SCnazi em um painel de mensagens no Daily Storm. "Até agora, estamos perto de encher nossa 7ª casa. Temos de 80 a 90 pessoas, e uma mistura de vários grupos da direita alternativa".

SCnazi continuou: "Nós montamos o 'Nazi Uber' e a 'Van do Ódio' para ajudar a transportar nosso pessoal conforme necessário, especialmente entre nossos locais distantes e Charlottesville".

A Airbnb disse que expulsou vários participantes do encontro porque eles "estariam praticando na plataforma comportamento que seria antiético" para a política da comunidade, que exige "que os membros da comunidade Airbnb aceitem pessoas independentemente de raça, religião, origem nacional, etnia, deficiência, sexo, identidade de gênero, orientação sexual ou idade".

Nem todas as companhias tecnológicas foram tão rápidas para agir em circunstâncias semelhantes. Como o Facebook, que depois do ataque terrorista em junho em Londres permitiu que continuasse online uma postagem do deputado republicano Clay Higgins, da Louisiana, que pedia a caçada e o assassinato de suspeitos de ser muçulmanos "radicalizados". Mas uma atualização feita em maio por DiDi Delgado, uma ativista do Vidas Negras Importam, que disse que "todos os brancos" são racistas --um argumento radical para alguns, mas que não incitava à violência-- foi removida e sua conta, suspensa por sete dias.

Depois há o Twitter, onde a direita alternativa prosperou, usando a rede social para transmitir discurso de ódio e assediar pessoas na plataforma. O Twitter habitualmente tergiversa quando solicitado por seus usuários a que ajude a protegê-los. No ano passado, a atriz Leslie Jones foi expulsa da plataforma depois de ser inundada por tuítes racistas e da inação do Twitter para detê-los. A experiência negativa de Jones ganhou manchetes por causa de sua fama e do envolvimento de Milo Yiannopoulos. Mas, como pode confirmar quase qualquer jornalista que já escreveu criticando Trump ou qualquer mulher que já fez campanha contra o sexismo sistêmico, o assédio na rede mundial é muito real e frequentemente passa sem interferência do Twitter.

A decisão da Airbnb de não permitir que sua comunidade seja uma ferramenta de organização para uma reunião supremacista branca é um exemplo de uma companhia tecnológica que está levando a sério seu compromisso com a segurança da comunidade. É também um exemplo de uma companhia que amadureceu e aprendeu.

Em abril, Dyne Suh --uma mulher que reservou um chalé na Califórnia pelo Airbnb-- foi alertada minutos antes de chegar que sua reserva foi cancelada, depois que o anfitrião enviou a seguinte mensagem de texto: "Eu não alugaria para você nem que fosse a última pessoa na terra. Uma palavra diz tudo: asiática".

No ano passado, o hashtag #AirBnbWhileBlack proliferou no Twitter como um lugar para os usuários negros narrarem suas experiências de rejeição em lugares para se hospedar, mesmo quando as listagens eram marcadas como abertas. Quirtina Crittenden, que iniciou o hashtag depois que foi habitualmente recusada por usuários com listagens abertas, disse que quando ela mudou sua foto para uma imagem genérica de uma cidade e seu nome para Tina não teve problema para alugar um lugar.

Embora esses incidentes reflitam o racismo de parte dos anfitriões da Airbnb, e não valores da companhia, a Airbnb decidiu que tinha uma função séria em garantir que seu serviço não é um lugar que promove a discriminação. Em abril, a companhia fez um acordo com o Departamento de Emprego e Habitação Justos da Califórnia que permitiria que a agência regulatória realize auditorias de discriminação racial para anfitriões que têm três ou mais listagens no site, o que o Estado faz há tempo com os senhorios para garantir que as leis de moradia justa sejam respeitadas.

Por causa desse acordo, a mulher que recusou Suh por causa de sua raça hoje é solicitada pelo Estado a pagar uma multa de US$ 5.000 e a fazer um curso em nível superior de estudos asiático-americanos, além de aceitar respeitar as leis estaduais de moradia justa. A última medida da Airbnb demonstra que a empresa está disposta a agir de maneira proativa --em oposição a, por exemplo, esperar que um dos participantes da festa pendure uma bandeira nazista na frente da casa alugada.

Mais frequentemente, as plataformas só reagem a esses incidentes quando alguém é ferido ou um canal de notícias causa embaraço à empresa depois de um erro grave. O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, inicialmente se recusou a admitir que o Facebook tinha um problema de divulgação de notícias falsas que estava causando desinformação e potencialmente influenciaria os eleitores, e a chamou de "uma ideia muito maluca" em novembro, depois que Trump venceu. Hoje sua empresa tem rótulos de "duvidoso" e se uniu a organizações de checagem de fatos para ajudar a combater a disseminação de informação enganosa. (Seu último esforço, "Related Articles" [artigos relacionados], poderá acabar sendo o mais bem sucedido contra artigos mentirosos na rede.)

É claro que os sites de redes sociais, criados para o livre fluxo de informações, são muito mais difíceis de moderar que um site enfocado em hospedagem caseira. Mas esses sites ainda podem seguir a pista do Airbnb: quando pessoas na sua comunidade se queixarem, você deve investigar e agir. Isso significa não ter medo de irritar milhares de pessoas que usam suas plataformas para compartilhar discursos de ódio --que, sim, às vezes vazam em acusações mais amplas de viés partidário, o que as redes sociais especialmente detestam. Em uma indústria onde perder usuários significa perder dinheiro, expulsar alguém é uma coisa séria, mas também pode enviar uma mensagem importante.

Zuckerberg disse em maio que o Facebook estava lidando com seu dilema de moderação de conteúdo contratando mais 3.000 pessoas para trabalhar nesse setor. Mas acrescentar milhares de funcionários para enfrentar o problema provavelmente não mudará nada se o Facebook se recusar a ter um compromisso claro com a proteção de seus usuários, em primeiro lugar. Isso significa reunir-se com grupos que representam pessoas que foram afetadas negativamente pela atual estratégia de moderação de conteúdo do Facebook, para ter uma clara compreensão de como a plataforma não está funcionando para todo mundo. Mas isso não está acontecendo. Em janeiro, uma coalizão de 77 grupos de direitos civis escreveu uma carta ao Facebook solicitando uma reunião para tratar do que os organizadores chamaram de "censura desproporcional aos usuários de cor do Facebook". A empresa se recusou.

O Twitter, por sua vez, diz que está tentando conter o assédio. No mês passado, a companhia relatou que está "tomando medidas sobre dez vezes mais relatos abusivos todos os dias, em comparação com o mesmo período do ano passado", e agora trabalha para "limitar a funcionalidade ou efetuar suspensões de mais milhares de contas abusivas diariamente". Mas isso se baseia em dados internos, e se esses remédios são realmente eficazes depende de quantas contas ela censurou antes. Mas ainda é melhor que nada, mesmo que leve anos para que o Twitter chegue lá.

Enquanto a Airbnb fez a coisa certa nesse caso, é improvável que monitorar situações caso a caso seja muito eficaz. Sua plataforma funciona com software que pode fazer reservas muito mais rápido do que uma pessoa consegue apagá-las. E isso significa que a companhia talvez tenha de usar software para monitorar e marcar interações preconceituosas no site. Por exemplo, se um usuário negro tiver vários pedidos de reserva negados, a tecnologia poderia indicar isso.

Há sérios limites ao policiamento de atitudes odiosas. É quase impossível ler as intenções de uma pessoa; nós também provavelmente não iríamos querer que a Airbnb assumisse posições políticas que não envolvem ódio e violência declarados. É por isso que ter uma maneira fácil e clara para as pessoas relatarem problemas que estão experimentando, assim como um compromisso de rapidamente investigar e agir adequadamente, também é importante.

E se os racistas, sexistas e antissemitas que se reúnem em Charlottesville não gostarem, podem fazer sua própria Airbnb. Este é um país livre.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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