Passado assombra debate em Oxford sobre estátua de imperialista britânico

Alan Cowell

Em Londres (Inglaterra)

  • Schalk van Zuydam/AP

    A estátua do colonizador britânico Cecil Rhodes teve o nariz vandalizado no Table Mountain National Park, próximo à Cidade do Cabo, na África do Sul

    A estátua do colonizador britânico Cecil Rhodes teve o nariz vandalizado no Table Mountain National Park, próximo à Cidade do Cabo, na África do Sul

A campanha para remoção da estátua trata-se de feridas coloniais não curadas ou o medo entre os ocidentais de que sua versão da história possa ser sacrificada?

Bem acima da rua principal da cidade de Oxford, em um nicho emoldurado por colunas torcidas, uma estátua de Cecil John Rhodes, o arqui-imperialista que moldou o Império Britânico e o destino de seus súditos distantes na África, espia de forma inescrutável as pessoas abaixo. Se você não olhar para ela, pode nem notá-la.

Nas últimas semanas, entretanto, a estátua tem provocado um ácido debate sobre se deveria ser removida, como fora outro monumento a ele no ano passado, na África do Sul, onde fez fortuna e ganhou poder antes de sua morte em 1902.

Mas enquanto o debate se desdobra, às vezes é tentador perguntar a respeito do que se trata - as feridas não curadas da herança colonial da África; ou o temor entre os ocidentais de que sua versão da história possa ser sacrificada no altar do revisionismo com matizes raciais, um eco do debate igualmente acalorado em alguns campi universitários americanos.

Certamente, parece estar além de disputa que o colonialismo, juntamente com o comércio de escravos e a invasão de religiões estrangeiras em terras que não as pediram, deixou uma cicatriz duradoura na dignidade e autoestima da África.

Mas, disse Christopher Patten, o reitor da Universidade de Oxford, que não deseja que a estátua seja removida, "nossa história não é uma página em branco na qual podemos escrever nossa própria versão do que deveria ter sido, segundo nossos preconceitos e pontos de vista contemporâneos".

Enquanto a África contempla as incertezas de 2016, parece haver uma desconexão entre a preocupação com o passado em Oxford, onde Rhodes estudou de forma intermitente entre 1973 e 1881, e as preocupações mais amplas do continente no presente.

Considere, por exemplo, o ataque terrorista em Uagadugu, a capital de Burkina Fasso, na semana passada, que matou pelo menos 30 pessoas, que ressaltou dois dos desafios mais urgentes do continente: a disseminação do jihadismo e as ameaças recorrentes à sua renovação democrática.

Diante desses ataques violentos, disse Farai Sevenzo, um cineasta zimbabuano, os próximos meses podem vir a ser "um ano nervoso, no qual a União Africana terá que empregar o poder coletivo que possui para proteger seus cidadãos da maior loucura do milênio".

O ataque ocorreu poucos dias após a posse do presidente Roch Marc Christian Kaboré, que venceu a primeira eleição livre e disputada de Burkina Fasso em décadas - em enorme contraste às eleições em Ruanda, Uganda e Zimbábue, onde os governantes demonstram pouco interesse em abrir mão do poder.

Em outros lugares, muitos países africanos podem muito bem estar concluindo que seu continente permanece tão refém de manobras políticas e econômicas de forasteiros quando na época de Rhodes.

Desta vez, entretanto, é o recuo econômico da China que provocou ondas de choque por toda a África, abalando os mercados nos países produtores de minerais dependentes da receita das exportações, enfraquecendo suas moedas e ameaçando empregos, padrões de vida e a estabilidade política.

Nada disso, é claro, diminui as paixões da campanha para dar à contenciosa estátua de Rhodes, em Oxford, o mesmo destino que, digamos, monumentos homenageando Saddam Hussein em Bagdá. Alguns ativistas argumentam que sua remoção seria uma forma de descolonização espiritual, uma noção que também provoca debate.

"Enquanto os verdadeiros descolonizadores buscaram eliminar o jugo da história", disse Kenan Malik, um escritor e radialista, "os ativistas da campanha 'Rhodes Deve Cair' parecem ter deixado o passado os colonizar de novo".

Em seu testamento, Rhodes criou um fundo que permitiu a cerca de 8.000 acadêmicos Rhodes estudarem em Oxford por mais de um século. Em 2003, o próprio Nelson Mandela endossou uma entidade chamada Fundação Mandela Rhodes em conjunto com o fundo original para beneficiar os sul-africanos mais pobres. Alguns questionaram a combinação dos nomes, mas Mandela fez objeção.

"Nós devemos novamente transpor de mãos dadas divisões históricas que outros podem considerar intransponíveis", ele disse.

Para uma geração mais nova, ao que parece, a estátua de Rhodes, em seu pedestal acima da High Street de Oxford, é simplesmente uma ponte longe demais.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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