Opinião: Indonésia precisa de prevenção contra o Estado Islâmico

Sidney Jones*

Em Cingapura

  • AP

Depois de anos de ataques na maioria fracassados, a ameaça do terrorismo na Indonésia foi transformada pelo Estado Islâmico

O ataque que matou quatro civis e quatro terroristas no centro de Jacarta neste mês pode ser um presságio de mais violência. Ele certamente sugere que o Estado Islâmico, que assumiu a autoria, já se transformou em uma ameaça terrorista na Indonésia, depois de anos de ataques na maioria frustrados.

A Indonésia, o país com a maior população muçulmana do mundo, tem um movimento jihadista minúsculo em comparação com seu tamanho. Muitos fatores mantiveram o radicalismo sob controle: um governo democrático estável, pouco conflito interno, vizinhos pacíficos e tolerância pelos defensores da lei islâmica. O país também tem uma unidade de polícia eficiente contra o terrorismo, estabelecida depois dos atentados a bomba em Bali em 2002.

Os atentados em Bali, que mataram mais de 200 pessoas, marcaram o ápice do terrorismo na Indonésia. Os terroristas da Jemaah Islamiyah (JI), eram treinados na fronteira do Afeganistão com o Paquistão e financiados pela Al Qaeda. Embora os ataques tenham sido realizados em nome da jihad mundial, a maioria dos membros da JI --assim como muitos outros grupos extremistas locais-- tinha a intenção de se vingar das mortes de muçulmanos no combate entre cristãos e muçulmanos em duas áreas do leste da Indonésia, Maluku e Poso. Os grupos envolvidos naquele conflito no final dos anos 90 e começo dos 2000 estabeleceram a base para a extensa rede de células jihadistas que existe hoje na Indonésia.

Com as prisões que se seguiram aos ataques de Bali e o fim das guerras locais, o movimento jihadista enfraqueceu e se fragmentou. Mas não desapareceu. Em meados dos anos 2000, a JI decidiu que a violência era contraproducente e redirecionou seus esforços para conquistar novos membros através da religião e da educação. Outros grupos extremistas, alguns deles dissidentes da JI, continuaram comprometidos com a jihad, mas não tinham o regime de treinamento, o processo de doutrinação e a disciplina da JI. De 2010 até a semana passada, entre as dezenas de atentados na Indonésia, nenhuma bomba conseguiu seu intento, e três ataques suicidas mataram apenas os próprios militantes.

Mas então surgiu o EI, e de repente existe a possibilidade de extremistas indonésios viajarem para a Síria para receber treinamento militar, experiência de combate, doutrinação ideológica e contatos internacionais. O que era uma ameaça leve se tornou grave novamente.

Os ataques deste mês teriam sido organizados e financiados por Bahrun Naim, um especialista em computadores indonésio que dizem viver na Síria. Em agosto passado, três homens foram presos em Solo, no centro de Java, por planejar um atentado a bomba contra uma delegacia de polícia, uma igreja e um templo chinês, sob instruções de Naim. (O templo foi escolhido em retaliação à violência budista contra os muçulmanos em Mianmar.) Em dezembro, outros quatro homens de Naim foram pegos por planejar ataques contra policiais de alto escalão e instituições xiitas.

Embora a atividade terrorista tenha aumentado no ano passado, a Indonésia esteve protegida de seus efeitos pela incompetência dos militantes, bem como pela vigilância da polícia. Em 2015, a taxa de mortes por terrorismo foi de apenas oito pessoas; em 2014, quatro. Os terroristas do atentado a Solo, por exemplo, aparentemente não sabiam quais substâncias químicas usar para fazer explosivos. Os ataques desta semana poderiam ter sido muito mais letais se os militantes fossem mais bem treinados.

Essa fraqueza poderia levar Naim e outros terroristas no Oriente Médio a enviarem militantes para a Indonésia para instruir os extremistas locais. E se o ataque em Jacarta não causou as mortes em massa que seus organizadores esperavam, a cobertura saturada da imprensa que ele gerou pode transformar o quase fracasso numa espécie de sucesso, encorajando mais ataques. Outros simpatizantes do EI na Indonésia podem decidir atacar, na esperança de atrair a mesma atenção. A rivalidade entre dois homens que supostamente disputam a liderança dos combatentes indonésios na Síria, Bahrumsyah e Abu Jandal, poderia repercutir na Indonésia sob a forma de uma competição letal entre aqueles que os apoiam.

A necessidade de mais medidas preventivas se tornou premente, portanto. É preciso fechar as brechas da lei antiterrorismo da Indonésia, que atualmente não proíbe a afiliação ao EI ou organizações semelhantes, nem a participação em campos de treinamento terroristas no exterior. Mesmo quando a polícia indonésia sabe que indivíduos estão recrutando para o EI, ela tem poucas ferramentas legais para impedi-los.

Outro passo necessário é melhorar a supervisão e o monitoramento dos condenados por terrorismo depois que são libertados. As redes pró-EI são capazes de disseminar informação e contatos nas prisões indonésias, em parte porque quase todo preso tem pronto acesso a um smartphone.

Em qualquer momento dado, cerca de 300 indivíduos estão presos ou sob custódia da polícia, esperando julgamento por acusações de terrorismo --muitos deles ainda se comunicando regularmente com colegas fora da prisão. Dezenas são soltos todos os anos depois de cumprirem suas penas, e as autoridades não os monitoram depois.

O governo também precisa desenvolver um programa para os deportados que vêm retornando à Indonésia. Até agora, 200 indonésios que tentaram entrar para o EI foram enviados de volta por autoridades turcas, cerca de 60% deles são mulheres e menores, e se houver um público-alvo para um programa de desradicalização, deve ser este. Essas pessoas, especialmente as mulheres, mostraram sua determinação de ir para a Síria ou o Iraque, e podem fazer isso de novo. Seus paradeiros são conhecidos, pelo menos por enquanto, e muitas precisam de assistência porque venderam tudo antes de ir embora. O Ministério de Assuntos Sociais fornece abrigo temporário, mas nenhum programa estruturado para ajudar além disso. O governo indonésio precisa trabalhar com organizações locais da sociedade civil para atrair essas pessoas para novos círculos sociais.

Por fim, a Indonésia precisa engajar os jovens que sabem usar computadores para desenvolverem mensagens anti-EI nas mídias sociais e na internet, onde Naim e outros grupos radicais estão espalhando a propaganda do Estado Islâmico.

Até agora, a combinação da maioria moderada da Indonésia com o bom trabalho policial e a incompetência dos extremistas indonésios manteve baixa a taxa de mortes por ataques terroristas. Mas com o EI agora claramente presente como uma nova ameaça, o governo precisa urgentemente desenvolver mais programas para prevenir que o seu apelo se espalhe.

*Sidney Jonesis é diretor do Instituto para Análise Política de Conflitos em Jacarta

Tradutor: Eloise De Vylder

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