Análise: O fim da era Merkel está se aproximando?

Anna Sauerbrey*

Em Berlim (Alemanha)

  • EPA/BERND VON JUTRCZENKA

As próximas poucas semanas provavelmente determinarão o futuro da abordagem da Alemanha para a crise dos refugiados –e talvez o futuro do próprio país.

Há duas datas importantes se aproximando: um encontro de cúpula da União Europeia em 18 e 19 de fevereiro, que representa a última chance da chanceler Angela Merkel de convencer o restante da Europa a adotar sua política de porta aberta aos refugiados, seguida por eleições em três Estados na Alemanha em 13 de março, que representarão um referendo implícito ao curso político tomado por Merkel.

As futuras gerações poderão se recordar dos últimos meses como os dias finais da era da convergência. Em um nível continental, "convergência" significa o desenvolvimento político do pós-guerra na direção de uma "união cada vez mais estreita" entre os países europeus, nas palavras do historiador alemão Andreas Wirsching. Até recentemente, a convergência parecia quase uma lei da natureza, uma inevitabilidade que poderia ser retardada, mas nunca revertida.

Ao longo da última década –a era Merkel– a "convergência também tem sido aplicada aos desdobramentos dentro da Alemanha. As diferenças culturais e econômicas entre a Alemanha Oriental e Ocidental, apesar de ainda significativas, pareciam estar diminuindo. A sociedade parecia estar se tornando mais tolerante, por exemplo, em relação aos gays e mães que não trabalham. Os filhos e netos dos imigrantes turcos ascenderam a cargos importantes, consolidando a posição deles na sociedade. A grande coalizão entre social-democratas e democrata-cristãos parecia apagar o que restava de esquerda e direita. Na condição de mulher, alemã-oriental e moderada em todos os aspectos, Merkel era ao mesmo tempo resultado e figura de ponta desse desdobramento.

Foram bons tempos, mas chegaram ao fim.

Forças poderosas agora estão em ação. O sistema partidário alemão está sendo rearranjado. Aqueles que sentem que foram os perdedores nesta era de maior diversidade –os homens brancos orientais mais velhos– estão levando sua raiva à internet e às urnas, votando no partido Alternativa para a Alemanha de extrema-direita, que promete combater o "politicamente correto" e fechar a fronteira.

Com previsão de obter entre 7% a 15% dos votos nas eleições estaduais que se aproximam, o Alternativa para a Alemanha está roubando eleitores do antes grande Partido Social-Democrata, que nas pesquisas tem obtido apenas 13,5% das intenções de voto no Estado de Baden-Wurttemberg, e superando o Partido Verde. Na Alemanha, onde os governos costumam ser formados por coalizões dos principais partidos, contar com a extrema-direita na composição é perturbador, para dizer o mínimo.

E não se restringe apenas à política. Nas ruas, mesmo entre as famílias, há raiva e inquietação. A violência contra os centros para requerentes de asilo está aumentando. O debate online é um borrão acalorado de suposições tendenciosas, onde os cidadãos acusam o governo e a mídia de notícias alemã de mentirem descaradamente, recorrendo à mídia estatal russa para informações.

O sintoma mais evidente de desintegração talvez seja a própria Angela Merkel. Por anos, seus índices de aprovação a deixavam inatacável. Agora, de repente, 81% dos alemães discordam da forma como o governo está tratando a crise da imigração, e uma pesquisa realizada na semana passada apontou que o índice pessoal de aprovação dela caiu 12 pontos percentuais, para 46%. Merkel, antes o centro do centrismo da Alemanha, também está marginalizada.

A narrativa de convergência é também teleológica. A "união cada vez mais estreita" não é apenas um termo em um tratado, ou uma descrição sóbria do que testemunhamos nas últimas décadas. É o que achávamos que naturalmente significava ser, o que a Europa deveria fazer.

O mesmo se aplica à união cada vez mais estreita da sociedade alemã. Para urbanistas meio que esquerdistas como eu, a noção de que poderíamos mergulhar em uma fase de desintegração –para não dizer regressão– é particularmente dolorosa, porque mostra que caímos em uma mentira, a mentira de que a história é uma rua de mão única, sempre se movendo na direção de uma sociedade livre, liberal e multicultural. As ansiedades causadas pelo afluxo de imigrantes mostram que muitos alemães não mais compartilham essa visão, se é que alguma vez compartilharam.

Talvez a própria Merkel tenha se visto pega na mesma armadilha. Seu abraço sincero aos refugiados no ano passado, e sua afirmação de que recebê-los era um esforço comunal europeu, parecia apoiado na crença de que cada desdobramento era um passo à frente.

É difícil dizer o que acontecerá a seguir. Merkel provavelmente não mudará totalmente de posição, não desta vez, mas de sua forma habitual, cautelosa, ela já começou a se livrar da imagem de "Mãe Merkel". Em uma convenção regional do partido em 30 de janeiro, ela tratou diretamente da questão dos refugiados: "Quando houver paz de novo na Síria, quando o Estado Islâmico for derrotado no Iraque, nós esperamos que vocês retornem".

Enquanto isso, uma das principais aliadas de Merkel e uma importante candidata nas eleições de março, Julia Klöckner, ofereceu uma proposta aos refugiados que basicamente estabeleceria um teto à entrada de pessoas no país –algo que a própria Merkel se recusou a fazer. O plano de Klöckner é amplamente visto como um balão de ensaio de Merkel. Mas diante de quão severos são os tremores na Alemanha, até mesmo cotas dificilmente acalmarão a situação.

O professor Wirsching argumenta que as crises interromperam a convergência, mas também criaram novas linhas de cooperação que eventualmente podem unir ainda mais o continente. Talvez, a longo prazo, o mesmo possa ser dito a respeito da Alemanha. Eu apenas não vejo esse dia chegando tão cedo.

*Anna Sauerbrey é editora da página de opinião do jornal "Der Tagesspiegel"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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