Egípcia desafia regras e preconceito ao falar sobre sexo para mulheres muçulmanas

Mona Eltahawy*

No Cairo (Egito)

  • AMER HILABI/AFP

Percebi que tinha que falar francamente sobre minha própria experiência sexual para libertar outras para que também pudessem falar

Após ter realizado uma leitura no Reino Unido no ano passado, uma mulher aguardava na fila enquanto eu autografava livros. Quando chegou sua vez, a mulher, que disse ser de uma família muçulmana britânica de origem árabe, se abaixou para que pudesse me falar olhos nos olhos.

"Eu também estou cheia de aguardar para fazer sexo", ela disse, referindo-se à experiência que relatei na leitura. "Tenho 32 anos e não há ninguém com que eu queira me casar. Como supero o medo de que Deus me odiará se fizer sexo antes do casamento?"

Eu ouço muito isso. Minha caixa de entrada de e-mail está repleta de mensagens de mulheres que, como eu, são descendentes de muçulmanos do Oriente Médio. Elas escrevem para desabafar sobre como "se livrar deste fardo da virgindade", ou para perguntar sobre cirurgia de reconstrução do hímen caso estejam planejando se casar com alguém que não conhece seu histórico sexual, ou apenas para compartilhar pensamentos sobre sexo.

Inúmeros artigos foram escritos sobre a frustração sexual dos homens no Oriente Médio, dos jihadistas supostamente atraídos para a militância armada pela promessa de virgens no pós-vida até homens árabes comuns sem dinheiro para se casarem. Muito menos histórias dão voz à frustração sexual das mulheres na região ou a um relato honesto das experiências sexuais das mulheres, seja dentro ou fora do casamento.

Não sou do clero e não estou aqui para discutir o que a religião diz sobre o sexo. Sou uma mulher muçulmana egípcia que aguardou até os 29 anos para fazer sexo e está tentando compensar o tempo perdido. Minha criação e fé me ensinaram que deveria me abster até me casar. Eu obedeci isso até ficar impaciente por não conseguir encontrar ninguém com quem quisesse me casar. Eu passei a me arrepender por ter demorado tanto para me rebelar e experimentar algo que me dá tanto prazer.

Nós mal reconhecemos a camisa de força sexual que impomos à força às mulheres. Quando se trata das mulheres, especialmente as mulheres muçulmanas no Oriente Médio, a história parece começar e terminar com o debate sobre o véu. Sempre o véu. Como se não existíssemos a menos que seja para expressar uma posição sobre o véu.

Logo, onde estão as histórias sobre as experiências e frustrações sexuais das mulheres? Eu passei grande parte do ano passado em uma turnê de divulgação de livro que me levou a 12 países. Para onde quer que eu fosse, da Europa e América do Norte até a Índia, Nigéria e Paquistão, mulheres, incluindo as mulheres muçulmanas, compartilhavam prontamente comigo suas histórias de culpa, vergonha, negação e desejo. Elas compartilhavam porque eu compartilhava.

Muitas culturas e religiões prescrevem a abstinência que me foi doutrinada. Quando lecionava na Universidade de Oklahoma em 2010, uma das minhas alunas contou em aula que tinha assinado um garantia de pureza com seu pai, prometendo aguardar até o casamento para fazer sexo. Foi um lembrete útil de que o culto à virgindade não é específico nem do Egito, meu local de nascimento, nem do Islã, minha religião. Ao recordar de minhas lutas com a abstinência e de lidar com isso de forma solitária, eu decidi falar honestamente sobre a frustração sexual da minha juventude, de como superei a culpa inicial pela desobediência, e como abri caminho por essa culpa até uma postura positiva em relação ao sexo.

Não é fácil para meus pais ouvirem sua filha falar tão francamente sobre sexo, mas isso abriu um mundo de experiências de outras mulheres. Em muitos países não ocidentais, falar sobre essas coisas é ridicularizado como comportamento de "branco" ou "ocidental". Mas quando o sexo é cercado por silêncio e tabu, são os mais vulneráveis que são prejudicados, especialmente as meninas e as minorias sexuais.

Em Nova York, uma mulher cristã egípcio-americana me disse o quão difícil para ela era assumir para sua família. Em Washington, uma jovem mulher egípcia contou para a plateia que sua família não sabia que ela era lésbica. Em Jaipur, uma jovem indiana falou sobre o desafio de não se enquadrar no padrão de gênero; e em Lahore, conheci uma mulher jovem que compartilhou como era ser homossexual no Paquistão.

Meus cadernos estão repletos de histórias como essa. Eu digo a amigos que poderia escrever um manual sobre como perder a virgindade.

Eu percebo que muitas das mulheres que as compartilham comigo desfrutam de certo privilégio, seja na forma de educação ou renda independente. É notável que esse privilégio nem sempre se traduza em liberdade sexual, nem proteja as mulheres caso transgridam as normas culturais.

Mas a questão do sexo afeta todas as mulheres, não apenas aquelas com dinheiro ou diploma universitário. Às vezes, ouço o argumento de que as mulheres no Oriente Médio já têm muito com que se preocupar com as dificuldades em alfabetização e emprego. Minha resposta para isso é: então se uma pessoa é pobre e não sabe ler, ela não tem o direito de desfrutar de sexo e do seu próprio corpo?

A resposta para essa pergunta já está disponível, em lugares como o blog "Adventures From the Bedroom of African Women" (aventuras no quarto das mulheres africanas, em tradução livre), fundado pela escritora ganense Nana Darkoa Sekyiamah, e "Agents of Ishq", com sede em Mumbai, um projeto digital para educação sexual e vida sexual. Essas iniciativas provam que posturas positivas em relação ao sexo não se limitam apenas ao chamado feminismo branco. Como colocou a escritora Mitali Saran, em uma antologia de textos de autoria de mulheres indianas: "Não tenho vergonha de ser um ser sexual".

Minha revolução foi me desenvolver de uma virgem de 29 anos em uma mulher de 49 anos que agora declara, em qualquer plataforma que dispor: eu sou a dona do meu próprio corpo. Não é o Estado, a mesquita, as ruas ou minha família. E é meu direito fazer sexo quando quiser, com quem eu quiser.

*Mona Eltahawy é autora de "Headscarves and Hymens: Why the Middle East Needs a Sexual Revolution" ou "Lenços na cabeça e hímens: por que o Oriente Médio precisa de uma revolução sexual", em tradução livre, ainda não lançado no Brasil

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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