Opinião: A Otan ainda existe? Aliança parece ter esquecido o seu propósito

Jochen Bittner*

Em Hamburgo (Alemanha)

  • JANEK SKARZYNSKI /AFP

Tratados são feitos para transformar uma vontade em uma obrigação. Mas o que acontece quanto essa vontade muda? Os eleitores britânicos acabaram de dar um exemplo, apesar de mal informados, ao rejeitarem a ideia de que os tratados da União Europeia acrescentam valor ao seu país. Por mais desconfortável que possa ser, há motivo para se olhar de forma crítica para um acordo ainda mais antigo que une as nações do Ocidente: o tratado da Otan.

Assinado há 67 anos, o tratado encerra a promessa de que um ataque a um dos países membros da organização será considerado um ataque a todos. Essa cláusula de solidariedade, o Artigo 5º, foi escrita por políticos de outra geração, com experiências mais duras em uma ordem mundial mais simples. É claro, você nunca sabe até ser testado, mas vale a pena perguntar: o pensamento que mantém a Organização do Tratado do Atlântico Norte já está morto?

Sim, era apenas um exercício. Mas quando a Polônia pediu no mês passado aos seus aliados da Otan para ajudar a rechaçar invasores hipotéticos que penetraram no seu país pelo leste, a Alemanha ficou irritada. O exercício, chamado Anakonda, com 25 mil tropas de mais de 20 países, o maior desde o final da Guerra Fria, visava ser uma mensagem para Moscou, uma demonstração de força antes da cúpula da aliança nesta semana, em Varsóvia. Berlim enviou uma mensagem própria para a Polônia, contribuindo com um total de 400 soldados, nenhum integrante de tropas de combate.

Além da participação modesta da Alemanha, o ministro das Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, atacou o mais recente exercício da Otan no Leste Europeu como "brandir sabres e dar gritos de guerra barulhentos". A aliança, disse Steinmeier, faria bem em "não proporcionar quaisquer desculpas para um novo velho confronto".

Era uma lógica que alguém esperaria ouvir do ministro das Relações Exteriores russo, não do alemão. Steinmeier também disse que a Alemanha não estava se esquivando de sua responsabilidade e de que ninguém poderia considerar o posicionamento previsto de quatro batalhões adicionais na Polônia, Estônia, Letônia e Lituânia como uma ameaça à Rússia. Mas mesmo assim, sua declaração foi, na melhor das hipóteses, ambivalente.

A ambivalência pode causar grandes estragos a uma aliança cujo valor de dissuasão se apoia exclusivamente em sua credibilidade. A Alemanha não é o único país europeu a tornar indistinta a linha entre dissuasão e fomentação de guerra. A França, me dizem fontes na Otan, oficialmente não queria chamar o Anakonda de um exercício de guerra da Otan, por medo de desagradar o governo russo, como se o Kremlin não tivesse expandido enormemente o orçamento militar russo nos últimos 15 anos, mesmo sem nenhuma provocação externa.

Se exercícios podem criar rachas na aliança ocidental, o presidente russo não precisa de muita imaginação para perceber como submeter a Otan a um teste definitivo: empregar uma tática híbrida de guerra para mergulhar os Estados Unidos e os europeus em dúvida sobre se uma ação militar é necessária e que diplomacia é possível. O presidente Vladimir Putin poderia, por exemplo, instigar sentimentos separatistas entre os cidadãos de etnia russa na Lituânia e fornecer armas para os mais exaltados entre eles. Então ele só precisaria se reclinar e assistir a aliança militar mais poderosa na história se desintegrar enquanto briga em torno de como reagir.

É fácil imaginar como o cenário se desdobraria: a Polônia e os países bálticos pediriam por uma resposta forte para prevenir outra anexação, como a da Crimeia. Alemães e franceses pediriam por negociações com Moscou, duvidando que o Artigo 5º seja invocado. Gregos, italianos e espanhóis deixariam claro que suas economias já sofreram demais devido às sanções contra Rússia após a anexação da Crimeia. E grande parte do público por toda a Europa, manipulado pela propaganda russa, se perguntaria se os russos não estão certos em tentar apoiar seus conterrâneos nos países bálticos. Afinal, não foram os imperialistas Estados Unidos que provocaram isso tudo, alguns argumentariam, assim como agentes de Washington estiveram por trás do golpe em Kiev?

Os autores do tratado da Otan, em 1949, podiam contar com algo que alguém poderia chamar de patriotismo ocidental. Ao menos esse sentimento existia na esfera do governo. Mas hoje ele deu lugar ao relativismo e falta de confiança. O que antes eram princípios de política externa sólidos agora são moeda de troca em campanhas eleitorais, tanto pela esquerda quanto pela direita.

O Partido Social-Democrata de Steinmeier está buscando um novo parceiro de coalizão e tentando se abrir aos eleitores que consideram a Otan como, no mínimo, uma coagressora no tabuleiro de xadrez da Eurásia. E Donald Trump ataca a Otan para inflamar os sentimentos de injustiça nos Estados Unidos, acusando os aliados europeus de "explorarem" o contribuinte americano. Barack Obama usou palavras diferentes para dizer a mesma coisa. Ele chamou os europeus de "caronistas" não dispostos a gastar uma "parcela justa" em defesa, uma alegação que certamente não está errada.

A Otan tenta impedir esse declínio empunhando seu maior sabre. Fontes dentro da aliança dizem que a dissuasão nuclear é uma prioridade. Um artigo publicado dias antes da cúpula em Varsóvia na revista "Otan Review" parece articular a nova posição. O que é necessário agora, diz o artigo, é "enfatizar a natureza dissuasiva e de último recurso das armas nucleares". O quartel-general da Otan quer transformar os países bálticos no que Berlim Ocidental já foi: um fio de disparo nuclear. Mas o governo alemão pode rejeitar isso como uma provocação ainda maior a Moscou, e o que visaria fortalecer a determinação poderia criar ainda mais rachas na aliança.

A Otan sempre foi um casamento de conveniência, mas não sem nenhum afeto. Mas com todas essas dúvidas partindo a aliança (sua coesão política, suas cadeias de causa e efeito e a disputas em torno dos custos de segurança), é difícil imaginar que a Europa e os Estados Unidos elaborariam, caso tivessem a chance em 2016, outro Artigo 5º.

*Jochen Bittner é um editor político do semanário "Die Zeit"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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