Análise: Por que a relação entre Estado e religião é tão tensa nos dias atuais

Steven Erlanger

Em Londres (Inglaterra)

  • Getty Images/iStockphoto

O recente rebuliço em torno do burquíni nas praias francesas é apenas a mais recente e mais ridícula repetição do confronto desconfortável da França com o Islã.

A República Francesa, tendo derrubado a monarquia e a Igreja Católica Romana em 1789, fez do laicismo a pedra fundamental da cidadania, parecendo priorizá-lo acima da liberdade, fraternidade e, não vamos esquecer, da igualdade.

Mas os contratempos em torno do burquíni, assim como em torno da burca (na verdade o niqab) e do hijab, ou lenço de cabeça, antes dele, são emblemáticos de um profundo desconforto com a religião por todo o mundo ocidental.

O relacionamento da democracia liberal com a crença religiosa sempre foi carregado. Mas agora, à medida que o conceito de valores liberais parece se expandir para questões como o casamento de mesmo sexo, ela está se tornando mais antagonista dos católicos, protestantes evangélicos e judeus, assim como dos muçulmanos.

A maioria das nações nasceu de identidades étnicas e religiosas e muitos conflitos entre nações foram, no fundo, guerras religiosas. Em um senso real, assim como o regime parlamentarista se desenvolveu para impor limites ao poder dos monarcas, o liberalismo e a democracia liberal se desenvolveram como forma de manter a religião fora da política, para tirar Deus, o máximo possível, do conflito humano.

A presunção foi sempre de que o Estado deveria ser um espaço neutro, equânime para todos os cidadãos. A liberdade religiosa visa proteger todas as formas de crença, mas não permite que os crentes imponham sua fé aos outros. Mas historicamente, mesmo aqueles que eram agnósticos, argumenta Ivan Krastev, presidente do Centro para Estratégias Liberais, vieram de formações religiosas e faziam perguntas religiosas. "Mas hoje, os agnósticos vêm de lares laicos", ele disse, com pouco conceito do que a crença religiosa significa ou envolve.

Charles Moore, um autor britânico que escreveu profundamente sobre religião e sobre sua própria conversão ao catolicismo, pensa que há uma confusão na democracia liberal entre manter a religião de fora da política, algo preferido por muitas pessoas religiosas, e "fingir que a religião não importa e não existe".

No seu entender, "os laicos em grande parte subestimaram o que acontece a uma cultura se você remove Deus dela". As sociedades liberais exigem "muitos valores compartilhados para que sejam livres", disse Moore, para se manterem unidades no turbilhão da diversidade.

Sem uma crença em Deus, ele disse, "é mais provável que sua crença final se torne sem significado". Além disso, "você não sabe sobre o que as pessoas religiosas estão falando, você não entende os motivos de seu comportamento, a importância das escrituras ou o simbolismo da blasfêmia".

Pior, ele disse, é um crescente a-historicismo. "Se é ensinado a uma pessoa laica que essas coisas são apenas assuntos privados, ela não entenderá como afetam a história do mundo."

A ascensão desse a-historicismo laico também torna as democracias liberais mais vulneráveis a uma religião que não entendem como o Islã, que nunca passou por uma Reforma e não separa o político do religioso de qualquer forma doutrinária significativa. Para muitas mulheres muçulmanas, por exemplo, assim como para muitas mulheres judias ortodoxas (e muitas freiras), cobrir o cabelo não é simplesmente uma moda, mas um preceito religioso.

Muitos veem o debate renovado a respeito do Islã no Ocidente como decorrência da descolonização, sua segunda onda. Primeiro, os colonizadores voltaram para casa, e agora os colonizados e seus descendentes estão migrando para as ex-potências coloniais da Europa, que não sabem como lidar com esse afluxo de imigrantes e refugiados com um conjunto muito diferente de crenças religiosas e expectativas.

A democracia liberal europeia teve uma espécie de apoteose na União Europeia, mas à medida que as fronteiras desaparecem e as nações passam a compartilhar soberania, há uma profunda sensação de perda entre muitas pessoas, a de que suas identidades, incluindo suas identidades nacionais e religiosas, estão sendo dissolvidas no ensopado global.

No coração do movimento populista europeu (e do americano) se encontra o mesmo sentimento de perda, dos conceitos tradicionais do que significa ser francês, britânico, alemão, americano, o que na maioria dos casos significa branco, cristão e heterossexual. E a necessidade e esforço para manter a identidade pode levar a conflito.

As democracias laicas e liberais toleram diversidade demais e criam confusão suficiente a ponto de aqueles que precisam de mais clareza e certeza fugirem de volta para a religião, sugere Krastev.

"Como tornamos as fronteiras entre tudo tão fáceis de serem cruzadas", disse Krastev, "as pessoas religiosas e fanáticos de toda espécie estão trazendo de volta as barricadas visando criar identidade".

A perda de normas (e de Deus) deixou um número significativo de cidadãos das democracias liberais moral e emocionalmente à deriva.

De forma semelhante, o ex-rabino-chefe do Reino Unido, Jonathan Sacks, argumenta que o retorno da religião ao espaço laico é resultado da crise geral de significado no mundo ocidental.

O rabino Sacks, assim como o Vaticano, acredita que o materialismo e o laicismo nas democracias liberais promoveram o egoísmo, a arrogância humana e minaram os valores familiares. Ele até mesmo argumenta que a população da Europa está em declínio "porque os não crentes carecem de valores compartilhados de família e comunidade presentes na religião".

Nunca antes na história humana as pessoas tiveram tanta escolha, mas muitas carecem de meios ou da capacidade de escolher, e a sociedade laica fornece poucas instruções. As pessoas que buscam por respostas e orientação com frequência encontram consolo e significado nos extremos religiosos, ou abraçando religiões como o judaísmo ortodoxo ou mesmo o radical Islã salafista, que fornecem regras detalhadas sobre como viver sua vida.

A separação entre Igreja e Estado foi uma ideia revolucionária, mas provou ser difícil de colocar em prática, até mesmo nos Estados Unidos. Os americanos não mais enforcam os quacres em praça pública, mas o aborto e a pena de morte permanecem assuntos quentes, e fundamentalmente religiosos. E questões como orações nas escolas, casamento de mesmo sexo e símbolos religiosos em tribunais e assembleias, sem falar em presépios natalinos em prédios públicos, ainda preocupam políticos e tribunais.

"Por todo o mundo ocidental, as pessoas tentaram formas diferentes de lidar com a religião, de seu papel proeminente nos Estados Unidos e o laissez-faire francês ao 'vamos fingir que não existe' britânico", até mesmo em um reino com uma religião do Estado e uma rainha ungida por Deus, disse Anand Menon, um professor de política europeia do Kings College de Londres. "Mas nenhuma dessas formas parece estar funcionando muito bem no momento."

A Europa está "importando problemas e não apenas refugiados, porém via internet, porque as fronteiras são porosas a ideias que estão infectando as pessoas", ele disse. Diante das várias dificuldades com empregos e a pobreza entre os recém-chegados ou aqueles que ficaram para trás, há um entrelaçamento de etnia e religião, que não são identidades feitas por opção. "A identidade de estrangeiro somada à religião reforçam a si mesmas nos países estrangeiros", disse Menon, independente de você ser um muçulmano iraquiano ou paquistanês, ou um católico irlandês em Boston.

E isso pode criar problemas para uma democracia liberal laica pós-Deus. O laicismo está mal equipado para lidar com a paixão religiosa, argumenta Moore, especialmente com o Islã radical, que acredita que a disseminação do Islã é um mandamento de Alá.

Em seu maior extremo, é claro, há os ataques pelo Estado Islâmico contra os cristãos, como o assassinato de Jacques Hamel, um padre católico que realizava uma missa em uma igreja francesa em julho. O Estado Islâmico, na edição mais recente de sua revista em inglês, "Dabiq", apresenta uma história de capa chamada "Quebre a Cruz". Ela parece transformar os cristãos em alvos, os chamando de "pagãos", dando-lhes a escolha da conversão ou morte e pedindo aos seus seguidores para "matarem os descrentes".

Isso representa uma grande ruptura com a prática habitual e a tradição do Islã, que é de tolerância em relação aos judeus e cristãos como o "povo do Livro", antecessores do profeta Maomé.

Para esse tipo de extremismo, até mesmo as democracias liberais precisam ter uma resposta, a força da lei. Mas também deve haver um melhor esforço para promoção do Islã tradicional, encorajar os muçulmanos comuns e educar os jovens em interpretações menos radicais, até mesmo em um país que não fornece ensino religioso nas escolas públicas, como a França.

Tratar os problemas em torno do Islã radical como simples questões de contraterrorismo ou desigualdade social é tão equivocado quanto ignorá-las. Os Estados devem criar "barreiras de segurança" entre a religião e a política, disse Moore, "mas não podem realmente separá-las".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos