Os EUA devem extraditar o assassino de meu avô, o fundador de Bangladesh

Sajeeb Wazed*

Em Dacca (Bangladesh)

  • Laurent/Associated Press

    O xeque Mujibur Rahman discursa durante uma conferência de imprensa em Dacca, no Bangladesh, em 1972

    O xeque Mujibur Rahman discursa durante uma conferência de imprensa em Dacca, no Bangladesh, em 1972

Na manhã de 15 de agosto de 1975, o governo democraticamente eleito de Bangladesh foi derrubado por um golpe militar. Os soldados que invadiram em Dacca a residência do presidente Mujibur Rahman, que era meu avô, atiraram nele e o mataram, juntamente com outros 18 membros de minha família. Eles incluíam minha avó, três tios meus (um dos quais tinha apenas 10 anos) e minha tia, que estava grávida.

Minha mãe, xeque Hasina Wazed, atual primeira-ministra de Bangladesh, só foi poupada porque estava de férias com sua irmã na Alemanha.

Mais de 40 anos depois, um dos assassinos de minha família, Rashed Chowdhury, vive em liberdade nos EUA. Ele foi julgado justamente em um tribunal aberto em Dacca e condenado à revelia por acusações de assassinato e conspiração para cometer assassinato, embora sua patente militar de tenente-coronel tivesse permitido a corte marcial, um processo muito mais rápido e sem transparência.

Fugitivo da Justiça de Bangladesh desde 1996, Chowdhury nunca foi punido por seus crimes. Bangladesh fez o primeiro pedido de extradição dele em 2000 e esperou por mais de uma década e meia. Está mais que na hora de ele ser enviado para seu país para enfrentar a Justiça.

Eu tinha 4 anos quando meu avô foi assassinado, mas sua morte foi mais que uma perda pessoal para mim e para minha família. Todo o nosso país ficou em luto.

O xeque Mujibur Rahman foi o fundador e primeiro presidente de Bangladesh. Ele era e ainda é conhecido afetuosamente lá como Bangabandhu, que significa "amigo de Bengala" na língua bengali. Ele levou o que era então Bengala Oriental à independência do Paquistão em 1971, ano em que eu nasci. Durante esse conflito sangrento, o Paquistão e seus colaboradores assassinaram cerca de 3 milhões de bengaleses em apenas 11 meses, um ato que o mundo reconhece hoje como genocídio.

Meu avô estava curando as feridas profundas dessa guerra. O Bangladesh que ele ajudou a criar era democrático e secular, em forte contraste com o sistema brutal e autocrático conduzido pelo Paquistão.

Um período de caos político e regime militar se seguiu ao assassinato de meu avô. A junta que usurpou o poder ilegalmente protegeu os assassinos. O major-general Ziaur Rahman, um dos principais beneficiários do massacre e fundador do partido nacionalista do Bangladesh, chegou a codificar proteções para eles. Não apenas os assassinos ficaram imunes ao processo, como também foram recompensados com importantes cargos no governo e na diplomacia. Um deles foi até candidato a presidente.

Somente quando minha mãe se tornou primeira-ministra, por meio de eleições democráticas em 1996, começaram os julgamentos dos assassinos de nossa família. Houve pressão popular por condenações rápidas, mas minha mãe sabia que os julgamentos não apenas deveriam ser justos, como também parecer que eram justos. Para manter o regime de direito e garantir a transparência, ela decidiu realizar os julgamentos em tribunais civis, com todas as proteções constitucionais.

Em 1998, 15 ex-oficiais militares foram condenados pelos assassinatos. Seguiram-se apelações e novos processos, mas finalmente, em 2009, a Suprema Corte de Bangladesh emitiu uma medida judicial que o país havia muito desejava, mantendo as condenações de cinco dos assassinos. A saga não terminou aí.

Em 1996, antes que os julgamentos começassem, Chowdhury se uniu a vários outros conspiradores e eles fugiram de Bangladesh. Ele pediu asilo em San Francisco, mas sua situação atual como imigrante é imprecisa. Desde então, ele teria vivido em Los Angeles e em Chicago. Apesar dos esforços do governo de Bangladesh, Chowdhury continua escondido em plena vista; o governo americano deve parar de protegê-lo.

Se Chowdhury for extraditado para Bangladesh, ele enfrentará a sentença de morte. Assim como os EUA, Bangladesh permite a pena de morte para crimes como traição, terrorismo e assassinato federal.

Chowdhury não é o único assassino de meu avô que buscou abrigo nos EUA. Outro, o tenente-coronel Mohiuddin Ahmed, foi entregue às autoridades de Bangladesh em 2007, depois que um tribunal dos EUA apropriadamente negou seu pedido de permanência definitiva. Ele foi deportado e enforcado, juntamente com outros quatro, em 2010.

Segundo sabemos, Chowdhury não recebeu o estatuto de refugiado; portanto, ele não é imune a processos de extradição. Não há base para maior demora em sua extradição. Os EUA devem responder aos repetidos pedidos de Bangladesh para concluir a questão, para que a justiça seja feita.

*Sajeeb Wazed é o assessor-chefe de tecnologia da informação do governo de Bangladesh.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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