Cidade belga instala "refugiado inflável" para sensibilizar população a acolher imigrantes

Charlotte McDonald-Gibson*

Em Mechelen (Bélgica)

  • Reprodução/Facebook

Em uma cidade da Bélgica, um prefeito está determinado a acertar onde aparentemente todos os outros na Europa estão errando

A representação inflável de 6 metros de altura de um refugiado empoleirado sobre um telhado não tem nome. Para seus criadores, o anonimato dessa figura agachada usando um colete salva-vidas laranja, com os braços segurando firme seus joelhos, reflete a universalidade de seus apuros. Mas ela também reflete a forma como muitos europeus veem os refugiados e os imigrantes que chegam às suas cidades: uma massa sem nome que ameaça seu modo de vida.

"Eles sempre são muçulmanos, e nós somos católicos", me contou recentemente Emiel Van Den Bossche, um condutor de trem de 58 anos, enquanto esperava na estação de Mechelen por seu próximo turno. "Talvez sejam pouquíssimas as pessoas que querem fazer guerra aqui, ou cometer ataques terroristas, mas não sabemos. Não conseguimos ver a diferença. É por isso que temos medo."

Em seguida Van Den Bossche confessou que ele nunca de fato conheceu um refugiado.

É essa diferença —entre "nós" e "eles", refugiados e nativos— que Bart Somers, prefeito de Mechelen, quer resolver. Ele pretende fazer isso tirando essa anonimidade e incentivando interações entre locais e os recém-chegados. O refugiado inflável no telhado é uma das mais abstratas dentre as diversas iniciativas que, ele espera, possam romper as barreiras nesta cidade de aproximadamente 85 mil habitantes no norte da Bélgica.

A chegada no ano passado de mais de um milhão de imigrantes —a maioria deles fugindo de conflitos e perseguições— gerou pânico em toda a Europa. Agora os países anfitriões precisam pensar para além de necessidades imediatas como acomodação de emergência, alimentação e cuidados médicos, e tratar do desafio maior de fazer as pessoas se sentirem incluídas nas sociedades onde elas terão de reconstruir suas vidas. Isso é especialmente difícil em uma época em que ataques terroristas na Europa por extremistas islâmicos têm criado tensões, e partidos de extrema-direita estão explorando o medo para ganhar votos.

"As pessoas têm medo do desconhecido", diz Gabriella De Francesco, uma ex-professora que agora é encarregada da estratégia de integração dos refugiados de Mechelen. Mas se cada um na cidade pudesse conhecer um recém-chegado —saber seu nome, sua história, suas expectativas— então "as pessoas descobririam que eles não são o inimigo, são humanos como eu e você."

Quando Somers se voluntariou no começo deste ano para abrir um novo centro para abrigar 150 outros imigrantes e refugiados, além dos 250 que já vivem na cidade, ele organizou um dia aberto para que moradores preocupados pudessem visitar a casa. As crianças no centro foram convidadas a entrar para o grupo de escoteiros locais. Um programa de socialização forma pares entre recém-chegados e locais, e em um centro de ensino para adultos que fica a alguns quarteirões da estação de trem onde refugiados aprendem holandês, os belgas que também frequentam as aulas são convidados a passar um dia com seus colegas estrangeiros.

O dia em que visitei a escola, um somali, um marroquino, um afegão, um palestino e um kosovar estavam entretidos com uma lição sobre como ler as horas. Aprender a língua local e ter acesso ao mercado de trabalho são os dois passos mais importantes para a integração, e aqui eles podem fazer as duas coisas ao mesmo tempo. As aulas acontecem por algumas horas durante o almoço, e depois os alunos voltam para o trabalho em uma empresa de limpeza subsidiada pela prefeitura.

É um projeto-piloto, e no momento há somente 11 empregos disponíveis, mas para os homens e mulheres que estão participando, isso lhes dá independência e esperança para o futuro.

"Aqui em Mechelen, pela primeira vez eu consigo ter autonomia", diz Ilham Addilgadir, uma mulher somali de 22 anos de véu vermelho berrante na cabeça. Ela fugiu da Somália quando seu pai lhe disse que a matariam caso ela se recusasse a se casar com um combatente shabab. Apesar de não ter instrução formal, ela está progredindo rapidamente e quer ficar em Mechelen.

A situação aqui é muito diferente do que vi falarem sobre refugiados em toda a Europa ao longo dos quatro últimos anos. Na Suécia, conheço uma engenheira química da Eritreia que está esperando há um ano por seus documentos de refugiada. Embora na teoria ela possa trabalhar enquanto seu pedido é processado, nenhuma empresa quer contratá-la até que eles saibam se ela vai ficar. Hanan al-Hasan, uma mãe síria de quatro filhos, leva duas horas e meia por dia para chegar à sua aula de alemão em Viena, na Áustria, o que não lhe deixa tempo para um emprego normal. Em Malta, vi refugiados morando em contêineres de carga empilhados atrás de arame farpado perto do aeroporto.

É uma abordagem do tipo "o que os olhos não veem, o coração não sente", voltada para aplacar uma população local cética, mas isso pode sair pela culatra no futuro, alerta Somers. "Nós vivemos em uma realidade muito diversa, e precisamos ver nossos vizinhos como cidadãos, independentemente de sua origem, e precisamos tratar uns aos outros do mesmo jeito."

A cerca de 32 km ao sul de Mechelen fica Bruxelas, que foi o epicentro de uma das mais mortíferas redes terroristas da Europa. Na mesma distância para o norte fica a cidade portuária de Antuérpia, e Somers diz que o trecho entre Bruxelas e Antuérpia é responsável por 8% de todos os europeus que estão combatendo na Síria e no Iraque. Na cidade próxima de Vilvoorde, a somente 9 minutos de trem de Mechelen, 28 jovens viajaram para entrar para grupos extremistas islâmicos.

Somers diz que nenhum jovem de Mechelen viajou para a Síria, apesar de 20% de seus cidadãos virem de famílias muçulmanas. "Tem prefeitos que dizem que se as pessoas de suas cidades forem lutar na Síria, eles esperam que elas morram lá", diz Somers, que foi reeleito três vezes desde 2001. "Eu digo o contrário. Preciso fazer de tudo para evitar que jovens vão jogar fora suas vidas lá, porque são jovens da minha cidade, são filhos de Mechelen."

As políticas acolhedoras para refugiados são uma extensão dessa mesma percepção.

É claro, algumas das políticas que trabalham com 400 refugiados em uma cidade do tamanho de Mechelen podem ser difíceis de replicar em um lugar como Viena, uma cidade de 1,7 milhão. Mas os princípios fundamentais, de inclusão em vez de exclusão, podem ser aplicados em qualquer lugar.

As preocupações locais também devem ser levadas a sério, que é um motivo pelo qual em Mechelen todos os residentes podem se beneficiar das novas políticas sociais, como empregos subsidiados e cursos de língua, sejam eles refugiados ou não. Mesmo o programa de socialização é aberto a todos. Recentemente, um belga vindo do sul francófono do país se inscreveu para descobrir mais sobre seu novo lar, uma cidade de ruas de paralelepípedos, arquitetura gótica e uma catedral que é patrimônio mundial da Unesco.

Empoleirado no telhado, o refugiado inflável, criado pelos artistas belgas conhecidos como Schellekens & Peleman, olha para o campanário da catedral. As pessoas se dividem quanto à simbologia disso. O agente dos artistas me disse que era puramente prático. Somers disse que era porque a torre representava o lar para os residentes de Mechelen. Já De Francesco achava que ela simbolizava a compreensão entre as religiões.

Para muitos europeus, o medo de um choque cultural entre pessoas de países muçulmanos e seus anfitriões predominantemente cristãos é a causa principal de eles serem contrários a receberem os refugiados. Dorothy Arts, uma ex-consultora de 46 anos que agora está entrando no ramo funerário, participou do projeto de socialização de Mechelen em parte para enfrentar seus próprios preconceitos sobre o papel das mulheres em sociedades muçulmanas. "Eu pensei: 'Esse é meu medo, e não quero me render a ele, quero ir lá conhecê-los',", ela disse.

A cidade também está trabalhando em um curso para recém-chegados, que ensina sobre normas culturais, como o papel de homens e mulheres na sociedade belga.

É um assunto delicado, mas cursos como esses poderiam beneficiar a todos. Fahima Ghulani, 27, mãe de dois filhos vinda do Afeganistão, se recusa a apertar a mão de um homem, não tem instrução formal e se frustra por não conseguir encontrar as palavras certas para se expressar. De muitas formas, ela representa o tipo de pessoa que alguns europeus temem que nunca vá se integrar.

Mas quando perguntei se ela gostava de Mechelen, ela disse: "No Afeganistão, as mulheres não podem sair de casa, mas na Bélgica eu posso sair de casa. Aqui, meus filhos podem ir à escola. Os europeus e eu, uma afegã, somos todos iguais."

Os recém-chegados à Europa querem muito se integrar e se tornar parte das sociedades aonde foram parar. Diversos estudos mostram que os refugiados podem ser uma vantagem para suas comunidades, trazendo uma renovação cultural vital e benefícios econômicos. Deixar de oferecer a eles a oportunidade de cumprir esse potencial seria um erro que assombraria a Europa por muitas gerações.

*Charlotte McDonald-Gibson é autora de "Cast Away: True Stories of Survival From Europe's Refugee Crisis."

Tradutor: UOL

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