Opinião: Trump, um Chevrolet e a incerteza em Cuba

Leonardo Padura*

Em Havana (Cuba)

  • Alan Diaz/ AP

    26.nov.2016 - Manifestante com máscara do Donald Trump segura cartaz onde se lê "morre o rato" em referência à morte de Fidel Catro, em Liittle Havana, em Miami

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R.P. é um empresário cubano. Seu negócio consiste nele e seu carro --mas não são simplesmente qualquer homem e qualquer carro. R.P. tem 40 anos. Há 16, formou-se em engenharia mecânica na Universidade Tecnológica de Havana, mas há seis, quando o governo relaxou as regras sobre a empresa privada, ele deixou seu emprego de especialista em transporte para se tornar motorista de táxi. Quase imediatamente começou a ganhar cinco ou seis vezes seu salário anterior. Seu carro, é claro, é tão tipicamente cubano quanto ele: um Chevrolet Bel Air 1957 herdado de seu pai.

Um ano atrás, R.P. transformou o sedã em conversível, o modo de transporte mais procurado pela nova onda de visitantes americanos que querem apreciar o visual de Havana. Para realizar essa cirurgia reconstrutiva, R.P. gastou todas as suas economias e mais cerca de US$ 3.000.

Mas em novembro o então presidente-eleito dos EUA, Donald Trump, ameaçou reverter as relações recém-restabelecidas entre os dois países. Hoje R.P. não tem ideia de se sua empresa continuará prosperando ou se ele fez o pior investimento de sua vida.

Barack Obama e o presidente cubano, Raúl Castro, iniciaram o processo de afrouxar o embargo e reforçar os laços diplomáticos entre seus países em dezembro de 2014. Um dos sinais mais visíveis dessas relações melhoradas foi a expansão da possibilidade de os americanos visitarem a ilha e a retomada dos voos comerciais. O mais notável de todos foi a revogação, em janeiro de 2017, da política de "pé molhado, pé seco", pela qual os cubanos que chegassem aos EUA poderiam ficar --política que o governo cubano havia condenado.

Mas isso foi coisa de Obama. Parece duvidoso que a relação entre Cuba e os EUA continue melhorando com seu sucessor.

Em uma manhã recente, um avião pousou no aeroporto de Havana, vindo de Miami --45 minutos. Já estacionado, seus passageiros tiveram de esperar mais 45 minutos na pista para que uma escada chegasse e assim pudessem desembarcar. Depois ficaram mais 90 minutos na imigração, alfândega e recepção de bagagens. Ao todo, três horas.

Naquela noite, em um noticiário na TV, o supervisor do terminal do aeroporto garantiu aos espectadores que o aeroporto era capaz de lidar com o número de visitantes a Cuba e podia absorver ainda mais passageiros se o embargo às viagens fosse totalmente eliminado. Mas muitos cubanos (aqui em Cuba e nos EUA, acredito) ainda se perguntam se isso acontecerá.

Uma reversão na situação atual das relações poderia reavivar o cálculo político enganoso de que uma política americana hostil desestabilizará o governo da ilha. Cuba, como sabemos, sobreviveu a tudo, das tensões da Guerra Fria ao embargo que começou em 1962 e o colapso do comunismo europeu, que mergulhou o país em terrível situação econômica. O governo cubano suportou esses choques, mas foi a população cubana que sofreu o peso do sacrifício.

Desde que Raúl Castro assumiu a Presidência de seu irmão, Fidel, em 2008, uma das mudanças mais profundas na vida dos cubanos foi o afrouxamento das restrições às viagens ao exterior.

Essa mudança gerou mais emigração e uma indústria paralela lucrativa: muitos cubanos hoje viajam ao Panamá, Equador, México e Miami como "mulas", voltando com eletrodomésticos, roupas e alimentos que abastecem pequenas empresas e o mercado negro cubano. A cada viagem, a "mula" pode ganhar até US$ 200 (cerca de R$ 600,00), ou o que um médico cubano ganha em quatro meses.

Agora o presidente Trump está ameaçando essa liberdade, dizendo que ou Cuba muda seu sistema político ou ele reverterá a posição dos EUA. Isso efetivamente daria prosseguimento a uma política que o presidente Obama e muitos outros consideraram um fracasso.

Mesmo com a recuperação da indústria de turismo e pequenas empresas privadas, a economia cubana encolheu 0,9% em 2016. Em seu discurso de fim de ano, Raúl Castro pediu uma política mais dinâmica para atrair investimento estrangeiro. O país precisa crescer. A nova relação com a Europa ajudou a trazer empresários do Velho Mundo à ilha. Se Trump reimplantar a antiga política, impedirá que empresários americanos façam o que fazem normalmente: gerar progresso nos espaços existentes e criar novos, mesmo com um embargo. Será bom para os EUA?

Enquanto isso, R.P. e outros empresários como ele rezam para que o relacionamento de Cuba com os EUA continue melhorando. Caso contrário, seus investimentos e suas esperanças de uma vida melhor não terão chance. Ao mesmo tempo, centenas de cubanos que se preparavam para emigrar atravessando a fronteira mexicana foram subitamente surpreendidos pela mudança na política migratória que Obama implementou. Isso deixou muitos deles no limbo, com suas casas e seus bens já vendidos.

Os comentários perturbadores de Trump em novembro vieram justamente quando os cubanos lamentavam a morte de Fidel Castro, que durante muitas décadas foi um espantalho para Washington. Depois de nove dias intensos de funerais, que terminaram em 4 de dezembro --uma data importante em Cuba, porque é o dia de santa Bárbara, sincretizada como a orixá guerreira Xangô--, a vida na ilha lentamente recuperou sua normalidade muito cubana.

Muita gente comemorou o Natal. Os principais jogadores de beisebol que ainda estão na ilha começaram o período decisivo de eliminatórias, enquanto os sacerdotes iorubá, em suas previsões anuais, anunciaram que 2017 seria um ano magnífico. Mas as pessoas ainda se perguntam o que acontecerá nos próximos meses, sem Fidel em Cuba, com Trump do outro lado do estreito da Flórida e os novos acordos de imigrantes implementados. Será realmente um bom ano para os cubanos?

* Leonardo Padura é jornalista e autor, mais recentemente, de "O Homem que Amava os Cachorros".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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