Opinião: Israel não deveria se preocupar com antissemitismo nos EUA?

Shmuel Rosner*

Em Tel Aviv (Israel)

  • Kobi Gideon/GPO/AP

    O então candidato presidencial republicano Donald Trump recebe o premiê israelense, Benjamin Netanyanhu, em Nova York

    O então candidato presidencial republicano Donald Trump recebe o premiê israelense, Benjamin Netanyanhu, em Nova York

O governo israelense precisa equilibrar sua devoção à defesa de todos os judeus com suas relações exteriores

Judeus por todos os Estados Unidos ficaram justificadamente perturbados e furiosos no final de janeiro, quando uma declaração da Casa Branca sobre o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto não fez menção às principais vítimas do Holocausto: os judeus.

Grupos tanto simpáticos quanto não ao presidente Trump condenaram a declaração. Alguns consideraram prova de que o novo governo deseja apelar aos sentimentos antissemitas. Outros deram à Casa Branca o benefício da dúvida, presumindo que os termos da declaração foram apenas um erro lamentável.

O presidente-executivo da Liga Antidifamação argumentou em uma postagem em blog que a exclusão dos judeus da declaração confirmava "as esperanças dos "odiadores", que buscam normalizar o antissemitismo e rejeitar a noção de que os judeus sofreram desproporcionalmente durante a Segunda Guerra Mundial".

A Coalizão Judaica Republicana disse que "a falta de uma declaração direta sobre o sofrimento do povo judeu durante o Holocausto foi uma omissão infeliz". O colunista conservador John Podhoretz chamou de "abominável" a tentativa da Casa Branca de explicar e justificar a declaração.

O governo de Israel, entretanto, permaneceu em silêncio.

Esse silêncio não passou desapercebido. Sean Spicer, o secretário de imprensa da Casa Branca, tentou rechaçar as críticas à declaração dizendo que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu "congratula este governo" e "aprecia a amizade e respeito" que Trump "demonstra a Israel e ao povo judeu".

Em outras palavras: o governo Trump é amigo de Israel e, portanto, amigo do povo judeu. Consequentemente, ele merece alguma liberdade em suas declarações ligadas ao Holocausto.

É claro, uma declaração imprópria não torna a Casa Branca de Trump antissemita. Nem o fato de o presidente contar com simpatizantes antissemitas. Na verdade, há muitos motivos para suspeitar das tentativas de pintar Trump como hostil aos judeus: sua filha e netos são judeus. Ele contou ao longo dos anos com conselheiros, funcionários e doadores judeus.

Mesmo assim, o silêncio de Israel a respeito da declaração da Casa Branca sobre o Holocausto nos diz algumas coisas perturbadoras a respeito do Estado judeu. A mais importante é que há um limite ao que Israel está disposto a sacrificar em suas denúncias de antissemitismo.

Veja o exemplo do Partido da Liberdade da Áustria, que foi fundado por ex-nazistas. Por anos, Israel se recusou a ter contato com o partido por causa de suas inclinações antissemitas. Mas à medida que ele crescia em poder (e passou a apoiar o Estado judeu), Israel se tornou mais receptivo a aceitar o cortejo do Partido da Liberdade.

Ocasionalmente, há até mesmo a tentação de Israel em se beneficiar com o antissemitismo. Nos últimos anos, em vez de se concentrar na necessidade de combater o antissemitismo na França, Israel passou a chamar os judeus franceses a virem viver em Israel.

É claro, quando Israel encontra um caso claro de negação do Holocausto, ou da perseguição aos judeus, ele não se esquiva de fazer com que sua voz seja ouvida. Há dois anos, o ministro das Relações Exteriores de Israel alertou os partidos de extrema-direita europeus de que deveriam afastar os neonazistas e descreveu o húngaro Jobbik e o grego Amanhecer Dourado como sendo "ilegítimos".

Mas na maior parte do tempo, Israel tenta equilibrar delicadamente seu desejo de deslegitimar o antissemitismo e sua necessidade de manter as relações exteriores que avançam suas causas. Às vezes isso significa usar os ataques aos judeus para imigração judaica para Israel. Às vezes significa fazer vista grossa ao antissemitismo em troca de apoio político. Às vezes significa ignorar a trivialização das mortes de judeus no Holocausto.

Isso não pode ser ignorado, já que é perturbador, até mesmo doloroso. Israel é um Estado com interesses e prioridades, entre os quais está a censura ao antissemitismo, mas que não é o único.

David Ben-Gurion, o pai fundador de Israel, entendia isso quando concordou em aceitar as reparações da Alemanha, menos de uma década após o Holocausto. Os oponentes de Ben-Gurion tinham um forte argumento moral contra aceitar dinheiro de um país que tinha orquestrado o assassinato de milhões de judeus, mas o primeiro-ministro considerava que tinha o dever, como homem encarregado pela construção e defesa de um novo Estado, em passar por cima dessas considerações.

Naquela época, como agora, Israel às vezes concorda em ajudar outros países e partidos a envernizarem suas imagens. Com frequência é um comércio: Nós, Israel, receberemos o que precisamos, na forma de dinheiro, armas ou apoio político. Em troca, vocês receberão o direito de exibir Israel como prova de que não são antissemitas.

Isso pode se tornar muito mais desconfortável quando o país em questão é os Estados Unidos e quando a pessoa acusada de tolerar o antissemitismo é o presidente americano. Israel depende dos Estados Unidos mais do que qualquer outro país por ajuda, segurança e apoio diplomático. E a comunidade judaica americana é o outro principal pilar do mundo judaico, juntamente com Israel. Mais de 80% dos judeus vivem e prosperam em Israel ou nos Estados Unidos. Isso torna os Estados Unidos o lugar no qual um antissemitismo oficial não pode ser ignorado, ao mesmo tempo o lugar onde deve ser ignorado.

Isso pode resultar em uma divisão irreparável entre os judeus. A declaração sobre o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, provocando protestos de judeus nos Estados Unidos, porém nada em Israel, acabou de provar.

Shmuel Rosner é editor político do "The Jewish Journal" e membro sênior do Instituto de Políticas para o Povo Judaico

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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