O encontro entre notícias falsas e o racismo alemão

Musa Okwonga

Em Berlim

  • Christof Stache/AFP

    Imigrantes caminham em direção ao primeiro posto de registro da Polícia Federal da Alemanha depois de cruzar a fronteira com a Áustria, no vilarejo de Simbach

    Imigrantes caminham em direção ao primeiro posto de registro da Polícia Federal da Alemanha depois de cruzar a fronteira com a Áustria, no vilarejo de Simbach

A história sobre uma turba de homens árabes fazendo arruaça pelas ricas ruas de Frankfurt e atacando sexualmente mulheres alemãs no caminho, deve ter sido irresistível, a ponto de o "Bild", um jornal popular, tê-la publicado no início de fevereiro sem checar.

O problema, como a polícia local logo descobriu, é que era "totalmente infundada". Não houve registro de nenhum ataque. O artigo se apoiava totalmente em entrevistas com um dono de restaurante e uma mulher, cujos motivos para inventar essas alegações permanecem não claros.

O "Bild" fez uma retratação a respeito do artigo recentemente. Não importa: o estrago já tinha sido feito. A história fictícia já tinha encontrado muitos crédulos, tanto predispostos quanto temerosos, entre o público alemão.

Os editores do "Bild" supostamente estavam interessados um dar uma história semelhante a uma que surgiu há pouco mais de um ano, quando vários homens, identificados como de aparência árabe e norte-africana, atacaram mulheres nas comemorações do Ano Novo em Colônia. Mais de 100 queixas foram impetradas por mulheres aterrorizadas.

Esse evento horrível provocou uma mudança acentuadamente negativa na postura do país em relação aos homens de pele não branca. Segundo o procurador-geral do Estado, a "maioria esmagadora" dos suspeitos pelo ataque era de requerentes de asilo, provenientes principalmente do Marrocos e Argélia.

Mas foram responsabilizados o milhão de refugiados no país. A Fundação Amadeu Antonio, que combate o extremismo de direita, publicou um relatório sobre como os ataques em Colônia levaram a um redespertar da velha ladainha do predador sexual estrangeiro.

Como negro que viveu em Berlim por dois anos e meio, eu testemunhei uma distinta mudança na temperatura racial, uma mudança tanto estatística quanto visceral. No primeiro sentido, há os resultados das recentes eleições locais, nas quais o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha conquistou quase 14% dos votos.

O partido conta com apoio não apenas da classe trabalhadora branca, como é o estereótipo predominante, como também dos mais ricos. No segundo sentido, meus amigos não brancos e eu passamos a experimentar vários graus de intimidação verbal e agressão física.

Um amigo, reclamando de seu troco após uma viagem de táxi, foi espancado na rua pelo motorista impaciente, enquanto transeuntes não faziam nada. A poucos minutos da porta da minha casa, eu fui empurrado e insultado por duas mulheres que me disseram com orgulho que eram racistas.

Uma mulher idosa alemã derrubou uma amiga minha de sua bicicleta. Duas tardes depois, outra amiga foi ameaçada com a visão das tatuagens da SS de um homem enquanto estava no metrô. Um mês depois, o filho adolescente birracial de uma professora local e um ativista foi cercado por quatro jovens neonazistas.

Eles o provocaram com referências a Hitler e o deixaram com uma fratura no crânio. Seus agressores ainda estão à solta e a investigação do crime permanece preocupantemente morosa. Além disso, a violência ocorreu no tranquilo Prenzlauer Berg, um dos bairros mais seguros de Berlim.

A Alemanha desfruta da reputação de um dos países mais acolhedores do Ocidente e, em vários aspectos, é merecida. Os protestos contra o racismo, particularmente na capital, costumam ser vigorosos. A aceitação pela chanceler Angela Merkel dos refugiados sírios, fazendo muitos de seus pares passarem vergonha, foi um ato corajoso.

Os sírios foram recebidos com alguns dos gestos mais comoventes de que posso me lembrar, com muitos alemães comuns oferecendo semanas de seu tempo como voluntários para fornecer assistência com atendimento de saúde, orientação legal e aulas de língua alemã.

Essa é a Alemanha cuja acolhida eu, na condição de um recém-chegado muito mais privilegiado, senti com tanta frequência.

Mas há outras partes desta sociedade com braços firmemente cruzados e é para elas que o "Bild" vergonhosamente se volta. Alguns alemães parecem desejar que o problema do racismo simplesmente desapareça.

Apesar do país contar com uma grande população turca, pessoas de cor não são devidamente representadas na mídia, nos altos escalões do funcionalismo público ou no mundo corporativo. A história de seus negros, apesar de remontar centenas de anos, com frequência não é reconhecida, levando à percepção frequente e injusta de que são forasteiros.

Também há casos de radicalização de jovens alemães não brancos pelo Estado Islâmico, incluindo duas tentativas fracassadas de atentado a bomba, que compreensivelmente assustaram o público.

Como resultado, muitas pessoas não brancas na Alemanha sentem que costumam ser recebidas com suspeita. Essas percepções podem ser superadas, mas para os refugiados, muitos dos quais ainda vivendo fora de vista em moradias temporárias ou tateando o caminho pela desconcertante burocracia do Estado, é significativamente mais difícil.

Notícias falsas como o artigo do "Bild", que exploram os piores instintos dos alemães, tornam as coisas infinitamente mais difíceis.

O "Breitbart News", o site favorito de muitos supremacistas brancos, é conhecido por mascatear falsidades semelhantes. No mês passado, ele publicou a mentira de que uma gangue de homens muçulmanos tinha incendiado uma igreja na cidade alemã de Dortmund.

Agora ele planeja montar uma sucursal na Alemanha, após as eleições nacionais em setembro. Só posso torcer para que suas ambições não encontrem um solo fértil.

(Musa Okwonga é um poeta, músico e jornalista cujo trabalho foi publicado mais recentemente na coleção de ensaios "The Good Immigrant", ou "O Bom Imigrante", em tradução livre, não lançado no Brasil.)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos