Opinião: Por que Mahmoud Abbas é o melhor parceiro de Israel para a paz?

Em Jerusalém (Israel)

Elhanan Miller*

  • AFP

    30.set.2016 - O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente palestino, Mahmud Abbas, apertaram as mãos antes do funeral do ex-presidente israelense Shimon Peres, em Jerusalém

    30.set.2016 - O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente palestino, Mahmud Abbas, apertaram as mãos antes do funeral do ex-presidente israelense Shimon Peres, em Jerusalém

Benjamin Netanyahu insiste que o líder palestino reconheça o "Estado judeu". Mas ele já o fez

Os líderes políticos costumam ser seletivos com a informação que escolhem para compartilhar com o público. Para o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, isso significa esconder o que sabe sobre a verdadeira posição do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, sobre Israel como um "Estado judeu".

Enquanto estava ao lado do presidente Donald Trump em uma coletiva de imprensa em Washington, em 15 de fevereiro, Netanyahu citou dois pré-requisitos para se chegar a paz com os palestinos. Sob qualquer acordo, Israel deve manter pleno controle da segurança da margem oeste do rio Jordão; e os palestinos devem reconhecer Israel como um Estado judeu. Mas Abbas já fez esse reconhecimento do caráter judaico de Israel, há mais de duas décadas.

Em uma entrevista para o jornal "Al-Sharq al-Awsat" com base em Londres, em 1994, Abbas argumentou que a presença de judeus na Palestina era fundamentalmente diferente de qualquer outra colonização ocidental. Contradizendo a posição árabe dos judeus como um grupo puramente religioso, Abbas reconheceu ser também nacional, e o que motivava os judeus a emigrarem para Israel era uma mistura de aspirações religiosas e nacionais.

"Devido a várias causas, eles conseguiram estabelecer um Estado judeu na Palestina", ele disse. "A maioria de seus habitantes nasceu no Estado. Essa é uma verdade dolorosa que muitos se recusam a entender."

A linguagem carregada de Abbas de "luta nacional" mascara uma verdade surpreendente: ele é o único líder árabe a reconhecer publicamente o caráter judeu de Israel e a validar tacitamente sua reivindicação de um Estado em um clima político hostil, que geralmente compara os judeus israelenses aos invasores cruzados.

Abbas enfrenta hoje desafios políticos graves. Uma pesquisa recente apontou que quase dois terços dos entrevistados desejam que ele renuncie de seu cargo, em comparação a 61% três meses antes. Seus críticos árabes o atacam como traidor quase diariamente. Apesar disso, essa importante entrevista foi impressa em Ramallah como livreto em 2011 e foi postada no site presidencial. Ele nunca a renegou.

Alguns poderiam dizer que Abbas aceita a judaicidade de Israel apenas como fato consumado, não como uma questão de direito histórico. Mas para fins de um acordo de paz, que diferença isso faz?

Os temores da direita israelense de que os palestinos usariam o não reconhecimento do Estado judeu para inundar Israel de imigrantes palestinos e mudar o equilíbrio demográfico são infundados. Não apenas a segurança israelense é construída para a manutenção do controle de suas fronteiras, como Abbas descartou explicitamente essa estratégia. Em uma entrevista de 2012 para a TV israelense, Abbas renunciou o retorno ilimitado de refugiados palestinos e seus descendentes, ele mesmo incluso, a propriedades em Israel.

"É meu direito visitá-la, mas não morar lá", ele disse sobre sua cidade natal de Safed, que ele deixou quando tinha 13 anos, durante a guerra de 1948. Ao ser perguntado se considerava Safed como sendo parte da Palestina, Abbas respondeu que para ele, a Palestina significa o território além das fronteiras de 1967, incluindo Jerusalém Oriental, "agora e para sempre".

Já que é assim, por que Abbas agora se recusa a reafirmar seu reconhecimento de Israel como um Estado judeu?

Primeiro, não foi pedido nem ao Egito e nem à Jordânia, os dois únicos países árabes que assinaram acordos de paz com Israel, que o fizessem. Exigir isso de Abbas, atualmente um dos líderes mais fracos e menos populares na região, seria injusto e injustificado. O caráter nacional de Israel é de sua própria conta; ele não exige validação palestina.

Mas há um motivo mais sombrio citado com frequência por Abbas. No atual clima político de Israel, o reconhecimento da judaicidade de Israel poderia comprometer a posição civil dos cidadãos árabes de Israel, que em grande parte veem sua identidade nacional como sendo palestina. Em julho, o Parlamento de Israel aprovou uma legislação permitindo que a maioria dos legisladores possa remover outro parlamentar por incitar a violência ou terrorismo. A Associação de Direitos Civis alertou que essa lei pode ser usada para silenciar e excluir os parlamentares árabes.

Na campanha eleitoral de 2015, o ministro da Defesa, Avigdor Lieberman, propôs uma mudança das fronteiras de Israel para excluir as cidades árabes israelenses, pressionando para que sejam incorporadas em um futuro Estado palestino. Ele tem persistido nesse tema.

"Eu quero uma desvinculação de todos os palestinos que vivem aqui, dentro das fronteiras de 1967", ele disse recentemente no programa "Meet the Press" de Israel.

"Se você for palestino, vá até Abu Mazen e se torne cidadão da Autoridade Palestina", ele prosseguiu, usando o apelido árabe de Abbas. "Deixe que ele pague seu seguro desemprego, seus benefícios de saúde e sua licença maternidade."

Nesse clima hostil, as preocupações com o futuro dos árabes israelenses que optarem por não se mudarem para a "Palestina" são legítimas.

Em comparação, deve ser notado que o presidente Abbas não apoia um Estado palestino onde nenhum judeu possa viver, diferente das alegações feitas por Netanyahu. Em uma proposta de paz de 1995 concebida pelo político israelense Yossi Beilin (publicada dias antes do assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, e portanto nunca desenvolvida), Abbas esboçou propostas para os cidadãos judeus em um Estado palestino: seria permitido aos judeus permanecerem em comunidades abertas aos palestinos, diferente dos atuais assentamentos, como cidadãos palestinos; ou, se preferissem, poderiam permanecer como moradores estrangeiros mantendo sua cidadania israelense.

De novo, aceitar judeus como cidadãos não é novidade para Abbas. Em 1977, ele criticou o mundo árabe por se voltar contra seus cidadãos judeus, após a criação de Israel em 1948, os forçando a emigrarem para Israel. O tratamento dado pelos "regimes árabes" aos cidadãos judeus é tão lamentável quanto é doloroso. Não pode ser descrito por nada mais a não ser um embaraço e um absurdo", escreveu Abbas em seu livro "Zionism: Beginning and End" (Sionismo: começo e fim, em tradução livre).

Netanyahu pode continuar usando o reconhecimento do "Estado judeu" como forma de atrapalhar as negociações, lhe permitindo atacar a falácia do espantalho da intransigência palestina. Ou pode acentuar as posições declaradas de Abbas, restaurar a boa fé em ambos os lados e empoderar a comunidade internacional a melhorar os esforços pela paz. Essa é a escolha política que o primeiro-ministro de Israel precisa fazer.

*Elhanan Miller (@ElhananMiller) é um jornalista baseado em Jerusalém e pesquisador do Fórum para o Pensamento Regional, um centro de estudos israelense

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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