Opinião: A próxima guerra de Israel é sempre "inevitável"

Larry Derfner*

Em Modiin (Israel)

  • Jalaa Marey/AFP

    Soldados israelenses participam de treinamento nas Colinas do Golã, próximo à fronteira com a Síria

    Soldados israelenses participam de treinamento nas Colinas do Golã, próximo à fronteira com a Síria

O governo israelense deixou claro que pretende travar uma guerra em intervalos de meses, mesmo que seus inimigos não queiram

Neste país, as pessoas aprenderam a aceitar que uma guerra sucede a outra, a cada dois ou três anos. "Um Inevitável Conflito em Gaza" era a manchete do diário "Yediot Ahronot" no começo deste mês. "Como agora o Líbano não esconde mais o papel do Hezbollah, a próxima guerra deve atingir os civis onde mais dói, diz o ministro israelense", publicou o "Haaretz" alguns dias depois.

Mas o que praticamente nenhum israelense considerará, e que quase nenhuma voz influente no Ocidente sugerirá publicamente, é o fato de que Israel —e não o Hizbollah no Líbano, nem o Hamas em Gaza, nem o governo do presidente Bashar al-Assad na Síria— está provocando a próxima guerra. Por mais contraintuitivo que isso possa ser para os israelenses e a maioria dos ocidentais, é Israel, e não seus inimigos militantes islamitas ou os brutais sírios, o agressor nessas guerras de fronteira.

No dia 17 de março, jatos militares israelenses fizeram aquilo que têm feito de tempos em tempos desde que a guerra civil síria começou em 2011 —eles bombardearam armamentos sírios que supostamente seriam destinados ao Hizbollah, aliado da síria e inimigo de Israel no sul do Líbano. Mas, dessa vez, em vez de deixar o ataque passar sem uma resposta como costuma fazer, o Exército Sírio disparou mísseis antiaéreos contra os jatos israelenses.

Quando terminaram os disparos, sirenes de alerta para ataques aéreos já haviam acordado as pessoas em Israel. Depois, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu admitiu publicamente o que Israel estava fazendo.

"Nossa política é muito consistente", ele disse. "Quando identificamos tentativas de transferir armas avançadas para o Hizbollah, e temos as informações e a capacidade operacional, nós agimos para evitar isso. Foi isso que aconteceu e é isso que acontecerá."

De acordo com relatos sírios, ele cumpriu sua palavra. Nos dias que se seguiram um drone israelense matou um miliciano pró-governo na Síria e jatos israelenses atingiram alvos na fronteira sírio-libanesa, e depois posições do Exército sírio perto de Damasco.

Por aqui é considerado perfeitamente legítimo, até necessário, enviar bombardeiros e drones para evitar que o Hizbollah obtenha armas de tecnologia avançada.

De acordo com o pensamento corrente israelense, o Hizbollah, tendo prometido destruir Israel, agirá para conseguir o que deseja assim que se fortalecer o suficiente, então a única coisa a se fazer é evitar que ele se fortaleça o suficiente. E se em alguma dessas vezes a Síria ou o Hizbollah contra-atacar e matar alguns israelenses e uma guerra estourar, bem, a próxima guerra é inevitável de qualquer forma. Não há mais nada a se fazer no meio tempo além de continuar bombardeando.

Israel está atacando continuamente a Síria, às vezes matando sírios e membros do Hizbollah ainda que eles não estejam atacando Israel. Estes não se atrevem a bombardear depósitos de armamentos israelenses ou ir atrás de figuras militares israelenses. Israel é forte demais para isso.

O Hizbollah e a Síria estão completamente dissuadidos, e se Israel simplesmente os deixasse estar, eles teriam de ser loucos para atacar primeiro. (O Hizbollah tentou isso em 2006, matando dois soldados israelenses em uma incursão transfronteiriça, e na guerra que se seguiu Israel ensinou ao Hezbollah e ao Líbano inteiro uma lição muito dura.)

Mas se Israel continuar esfregando suas fraquezas na cara, como Netanyahu está fazendo agora, em algum momento a honra nacional os levará a contra-atacar com força. Terá início a próxima guerra "inevitável".

Esse exato cenário provavelmente foi evitado este mês só porque os mísseis antiaéreos sírios erraram os jatos israelenses.

Com o Hamas em Gaza, a situação é um tanto diferente. Ali, nenhuma dissuasão funcionará por muito tempo porque diferentemente do Líbano, onde Israel encerrou sua ocupação em 2000, Israel até hoje controla Gaza militarmente por fora e controla seu território-irmão, a Cisjordânia, por dentro, além de manter milhares de palestinos de Gaza e da Cisjordânia em prisões israelenses.

Até que tudo isso termine, não há como dissuadir o Hamas ou os grupos islâmicos mais radicais em Gaza a longo prazo, e provavelmente tampouco na Cisjordânia. Enquanto os palestinos estiverem vivendo sob um domínio hostil de Israel, eles sempre terão uma razão para atacar, e cedo ou tarde eles atacarão. Enquanto o governo palestino na Cisjordânia se tornou o relutante colaborador de Israel, o Hamas e os grupos mais radicais em Gaza prometeram lutar.

Ultimamente, grupos militantes em Gaza que não o Hamas têm disparado seus foguetes na direção de Israel, normalmente atingindo nada além de espaço aberto. Em compensação, Israel tem disparado contra alvos militares do Hamas.

O Hamas tem segurado os ataques, mas como o comentarista de assuntos militares Alex Fishman escreveu no "Yediot Aharanot", essa tranquilidade "pode ser rompida assim que Israel atacar e o Hamas sentir que não pode mais aguentar a humilhação, ou se um ataque israelense causar muitas baixas".

Desde sua guerra de 2006 com o Hezbollah no Líbano, Israel travou três guerras contra o Hamas que devastaram Gaza. Avigdor Lieberman, hoje ministro da Defesa, disse que a próxima seria "inevitável". E agora os ataques contra a Síria e o Hezbollah passaram de um em intervalos de meses para quatro em menos de uma semana. Quanto tempo levará até Israel travar sua próxima "guerra de autodefesa"?

*Larry Derfner é jornalista e autor da autobiografia a ser publicada "No Country for Jewish Liberals".

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