A eleição nem-nem da França: embate será entre populismo e liberalismo

Raphaël Liogier*

Em Paris

  • Gonzalo Fuentes/Reuters

    Pessoas passam por cartazes eleitorais de Marine Le Pen, da Front Nacional, e de Emanuel Macron, do En Marche!, em Paris (França)

    Pessoas passam por cartazes eleitorais de Marine Le Pen, da Front Nacional, e de Emanuel Macron, do En Marche!, em Paris (França)

Esqueça a esquerda versus direita. A campanha presidencial será entre o populismo e o liberalismo

Pela primeira vez na história das três últimas repúblicas francesas, os dois principais candidatos nas eleições presidenciais negam pertencer à direita ou à esquerda, ou mesmo ao centro, do espectro político.

Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, amplamente conhecida como um partido de extrema-direita, tentou livrá-la de seu fundador —seu próprio pai, Jean-Marie Le Pen— por ser radical demais.

Le Pen, que, de acordo com as últimas pesquisas, tentará vencer o primeiro turno das eleições no dia 23 de abril, acusa o atual presidente socialista, François Hollande, de dar as costas para os fracos e desprivilegiados —em outras palavras, por ter abandonado os ideais da esquerda de solidariedade social. Em sua época, Le Pen criticou François Mitterrand, o primeiro socialista a ser eleito durante a Quinta República em 1981, por seu vil e "danoso" esquerdismo.

As palavras mais usadas por Le Pen durante o último debate entre candidatos, realizado no dia 4 de abril, nunca teriam passado pela boca de seu pai: "os desempregados", "os oprimidos", "pobreza", "os destituídos"; tudo produto do "capitalismo" e do "libéralisme" (no sentido francês, a teoria econômica francesa pró-mercado e não a doutrina política que promove os direitos individuais). Um resultado curioso foi que candidatos da esquerda, mesmo da extrema-esquerda, acabaram soando como se estivessem na mesma sintonia que ela quando criticaram os banqueiros e as multinacionais.

O principal oponente de Le Pen, Emmanuel Macron —que, segundo previsões, deve passar pelo primeiro turno da votação juntamente com ela e então vencerá o segundo— repetiu incansavelmente que embora tenha uma inclinação social, ele é principalmente um progressista e um pragmatista, e é a favor da globalização e do mercado.

Jovem formado pela prestigiosa faculdade nacional de administração conhecida como ENA —bem como ex-banqueiro de investimentos e conselheiro de Hollande, que o nomeou ministro da Economia—, Macron diz que também não quer pertencer ao espectro político tradicional. Ele se recusa a ser chamado de esquerdista, muito menos de socialista, mas também se recusa a ser rotulado de extrema-direita. Pôsteres de campanha para seu partido, o En Marche! (avante!), exibem o slogan: "A França deve ser uma oportunidade para todos".

Alguns, como o ex-ministro da Educação François Bayrou, interpretam essa retórica como um sinal de que o centro estaria voltando ao cenário político, mas Macron também rejeita essa ideia. Ele prefere se lançar como o defensor de uma renovação da classe política —que por acaso também é um dos temas favoritos da Frente Nacional.

Mas, diferentemente de Le Pen, Macron é um europeanista convicto. Ele acredita no euro. Ele não considera a imigração uma calamidade. Ele não acredita que a identidade francesa esteja em perigo, que a islamização ameace a cultura francesa ou que não se possa confiar na tecnologia.

Em vez de encarnar a tradicional polaridade entre esquerda e direita, os dois principais candidatos dessas eleições encarnam uma polaridade entre o populismo e o liberalismo, em termos gerais.
O populismo não deve ser confundido com a demagogia, que é uma tendência natural em democracias representativas, uma tentação de seduzir eleitores em vez de convencê-los. O populismo tampouco tem a ver com estar próximo do povo. Na verdade ele é mais a reivindicação de falar em nome do povo e transmitir uma inegável verdade em comum. O populismo, em particular, alega expressar a emoção de um povo que se sente diminuído e perdido. Seu discurso é nostálgico em relação a um poder do passado e devoto a uma defesa frenética da identidade.

Enquanto o antissemitismo nos anos 1930 se originou das ansiedades a respeito da desintegração da identidade biológica, neste século a islamofobia tem a ver com o medo de que a identidade cultural esteja se desintegrando. E a luta contra a islamização transcende a divisão entre esquerda e direita, pois parece que tem como alvo tanto os supostos sucessores dos sarracenos, que durante séculos travaram uma guerra contra a Europa cristã (uma visão com a qual os eleitores de direita se identificam), quanto o próprio islamismo, que parece questionar o conhecimento científico moderno, a igualdade de gênero e a liberdade de expressão (uma visão com a qual os eleitores de esquerda se identificam).

Esses eleitores se esquecem de seus próprios interesses concretos, que podem ser opostos, dando preferência ao sentimento comum de que sua cultura está sob ataque. Quando Le Pen fala sobre os pobres ou os párias, trabalhadores, agricultores ou pequenos negócios, seu público-alvo é um único povo golpeado pela globalização, pela União Europeia, pelo euro, pela imigração e pela islamização.

Esse medo de uma catástrofe cultural começou cerca de uma geração atrás: depois de anos de descolonização, a invasão americana do Iraque em 2003 forneceu à Velha Europa mais provas mordazes de que ela havia perdido seu poder imperial. Mas o populismo que se alimenta desse mal-estar parece ter culminado com a atual eleição presidencial.

O En Marche! de Macron é a primeira organização política de qualquer escala a se opor a essa visão medrosa, mas ela o faz de maneiras que também contornam a tradicional divisão entre esquerda e direita. Em vez de invocar nostalgia pelo passado ou tentar confortar um povo ansioso, Macron está tentando apresentar uma visão positiva do futuro, devolvendo no caminho o sentido original da palavra "libéralisme", com seu endosso amplo às liberdades individuais.

No começo dos anos 1980, remetendo ao lema nacional francês "Liberdade, Igualdade, Fraternidade", as pessoas diziam que a prioridade da direita era a liberdade, ao passo que a da esquerda era igualdade. O "libéralisme", ainda amplamente entendido somente em termos econômicos, havia ficado cada vez mais ofensivo, tanto à esquerda quanto à direita, especialmente quando vinha acompanhado do prefixo "neo". "O néo-libéralisme" havia se tornado a antítese dos valores franceses, a própria imagem da injustiça social e da crueldade do mercado.

Na verdade, a direita era bastante liberal em sua economia e reacionária em questões sociais como moralidade e sexualidade, ao passo que a esquerda era liberal em questões sociais e estatista em assuntos econômicos e sociais.

Macron rompeu com essa polaridade, oferecendo uma versão do liberalismo que se aplica a tudo, desde questões sociais até a economia.

Le Pen também se afastou da dicotomia, mas em seu caso sendo reacionária em questões da sociedade e estatista em questões econômicas.

Então os dois principais candidatos oferecem visões antagônicas sobre a globalização, a Europa e a "laïcité", a firme forma de secularismo da França. A visão de Le Pen sobre a "laïcité", por exemplo, é defensiva, favorecendo a cultura francesa no lugar das religiões estrangeiras. Para Macron, a "laïcité" é um valor liberal que promove a liberdade religiosa individual.

A França não é única nesse sentido. A chanceler Angela Merkel da Alemanha é outro exemplo. Embora ela seja produto da tradição democrata-cristã de centro-direita, em questões sociais como a imigração ela adere a posições social-democratas tipicamente consideradas de esquerda.

Um novo debate ideológico parece estar redefinindo o discurso político na França e em outras partes do Ocidente: entre movimentos populistas que são protecionistas do ponto de vista cultural e econômico, e liberais que sejam abertos à Europa e à globalização. Em breve, tanto a esquerda quanto a direita serão quase vestígios de um século 20 que já é passado.

*Raphaël Liogier é professor na Sciences Po Aix-en-Provence e no Collège International de Philosophie em Paris, e autor de "La guerre des civilisations n'aura pas lieu. Coexistence et violence au XXIème siècle." Este artigo foi traduzido por John Cullen do francês.

Tradutor: UOL

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