A mãe de todas as bombas

Ali M. Latifi*

De Achin (Afeganistão)

  • DVIDS - 14.abr.2017/Reuters

    Imagem mostra a "mãe de todas as bombas" atingindo Achin, no Afeganistão

    Imagem mostra a "mãe de todas as bombas" atingindo Achin, no Afeganistão

Eu passei o anoitecer de 13 de abril com um primo e duas tias no elegante bairro de Wazir Akbar Khan, em Cabul, Afeganistão. Minhas tias falavam principalmente de sua juventude relaxada e liberal nos anos 60, entre a elite de Cabul. Enquanto aguardávamos na entrada da garagem por nosso carro, meu primo me contou sobre uma explosão em Nangarhar, a província no leste do Afeganistão de onde veio nossa família. Nós checamos nossos telefones. Enquanto partíamos, ficou claro que não se tratava do início da chamada Ofensiva de Primavera do Taleban.

Por volta das 20h, horário afegão, os Estados Unidos lançaram uma bomba de 9,8 toneladas e que custa US$ 16 milhões em Asadkhel, um vilarejo minúsculo aninhado entre duas colinas cobertas de vegetação, para atacar um sistema de túneis de décadas de idade usado pelos combatentes que juraram fidelidade ao Estado Islâmico, baseado no Iraque e na Síria.

O Afeganistão já está em guerra há quase quatro décadas agora. Nosso povo enfrentou a ocupação soviética, a guerra dos mujahedeen contra os soviéticos com apoio dos Estados Unidos, a liberdade da ocupação soviética manchada pela guerra civil brutal entre facções mujahedeen (senhores da guerra que governavam grandes partes do país a um custo humano terrível).

O governo do Taleban se seguiu. Nós os vimos serem bombardeados até a submissão e fuga após o 11 de Setembro, celebramos alguns poucos anos de relativa calma, e vimos o Taleban retornar com força e travar uma longa e sangrenta insurreição, que permanece até hoje. Nós vimos o mundo se cansar de nossa guerra eterna e nos esquecer.

Ao longo dos anos de guerra, passamos a fazer listas de muitas primeiras vezes no Afeganistão, horrores, vitórias militares, derrotas, armas usadas, atrocidades cometidas, vidas salvas de forma improvável. A explosão da "mãe de todas as bombas", em 13 de abril, foi uma adição notável à lista de "primeira vez".

Hillary Clinton e Donald Trump mal mencionaram o Afeganistão durante a longa campanha presidencial. Mas o presidente Trump optou por usar a arma não nuclear mais poderosa do mundo em um vilarejo afegão remoto.

O Afeganistão era simplesmente o cenário conveniente para o astro de reality show que virou presidente realizar uma demonstração teatral e assustadora de seu poder. Um estranho senso de desconforto me envolveu, apesar dos anos de guerra e apesar de ser um jornalista, enquanto via meu país sendo exibido como uma paisagem desumanizada onde a maior bomba não nuclear foi detonada. "O que lhes dá o direito de usar esse tipo de arma contra nós ou contra qualquer lugar?" perguntei ao meu primo.

Vi Nangarhar sendo destacada nos mapas do Afeganistão como se não fosse lar de mais de 1,5 milhão de pessoas, como se tudo o que fosse humano tivesse sido instantaneamente erradicado pela simples menção dessa alfa e ômega do arsenal militar. As notícias descreviam Achin, o distrito mais próximo do vilarejo bombardeado, como nada mais que uma área povoada por combatentes do Estado Islâmico.

A bomba se transformou no "babao", o monstro contra o qual as crianças afegãs são alertadas, que espreita na esquina. Ela engoliu as pessoas, a vida de Achin. Os civis que sofreram três anos de brutalidade sob o Estado Islâmico deixaram de existir. Eles não tinham importância; o que importava eram os terroristas, suas cavernas e a grande bomba assustadora.

Eu fui para a cama naquela noite, triste pelo entendimento de que meu país ainda era apenas uma área de manobras para as nações estrangeiras projetarem seu poder. Na manhã de sexta-feira, acordei para descobrir que Cabul preferiu permanecer calado e não protestar contra a decisão de detonar a "Madar-e Bamb-Ha", a tradução de "mãe de todas as bombas" em dari que os afegãos começaram a usar.

Então parti para Nangarhar. Sair de Cabul pode ser algo perigoso. Se viajar para o sul da cidade, cada quilômetro de estrada significa conviver com a perspectiva de um encontro com o Taleban, a possibilidade de um pneu passar sobre uma letal bomba à beira de estrada.

Felizmente, eu estava seguindo para o leste, para Jalalabad, uma das maiores cidades afegãs. Eu dirigi por três horas por túneis abertos na encosta da montanha, passando por rios fluindo ao lado de florestas montanhosas, chegando a Jalalabad à tarde. O local do bombardeio ficava a duas horas de distância. A cidade não demonstrava qualquer ansiedade. Riquixás corriam de uma rotatória para outra; as bancas de kebabs (espetinhos de carne) nas calçadas contavam com grande movimento; homens e mulheres lotavam os mercados, fazendo suas compras antes da oração de sexta-feira.

Algumas autoridades afegãs de Jalalabad levaram um grupo de jornalistas até o distrito de Achin, a cerca de 65 km ao sul. Nós passamos por Bati Kot e Shinwar, dois distritos nos quais o Estado Islâmico estabeleceu uma presença significativa em 2014. Milhares de moradores fugiram e buscaram refúgio em Jalalabad e Cabul, entre outros lugares. A maioria deles ainda não retornou, mas as pessoas davam continuidade às suas vidas nos mercados locais.

Passamos por um complexo inacabado de imóveis residenciais de luxo, que leva o nome de Amanullah Khan, o amado antigo rei do Afeganistão. Passamos pelo local de uma universidade proposta. Ao nos aproximarmos de Achin, papoulas brancas e púrpuras se destacavam entre os campos verdejantes.

Poucos quilômetros antes de Asadkhel, o vilarejo bombardeado, a estrada se transformou em um trecho montanhoso de rocha, terra e cascalho. Um mercado com cerca de 200 lojas estava abandonado. As lojas foram destruídas em uma semana de operações militares contra combatentes do Estado Islâmico. Fundações em ruínas, tetos desmoronados e alguns pedaços de tecido esfarrapados eram tudo o que restava.

Não distante do mercado em ruínas, encontrei dois meninos: Safiullah, 11 anos e Wajed, 13 anos. Eles descreveram a explosão como "muito barulhenta", mas insistiram que ela não os assustou. Safiullah segurava sua cabra desobediente, que estava levando para casa. "Estou acostumado com isso", ele disse. "Já ouvi muitas bombas."

Wajed, que veio para trazer água para a polícia, concordou. Eles disseram estar felizes pelos combatentes do Estado Islâmico terem desaparecido. Safiullah interagiu um pouco com os combatentes do Estado Islâmico enquanto levava sua cabra para pastar. Eles lhe diziam: "Não cultive papoula e nem corte sua barba".

Finalmente chegamos ao topo de uma colina com vista para um vale verde ao lado de Asadkhel. Um pequeno amontoado de casas de barro permanecia ao longo da colina. De vez em quando uma criança passava. Não vimos nenhum adulto.

Duas colinas obstruíam a visão da área bombardeada. Helicópteros americanos sobrevoavam. Três horas se passaram, mas não conseguimos seguir em frente. As autoridades falavam alegremente do enorme sucesso e precisão da operação.

Mas toda vez que pedíamos permissão para visitar a área bombardeada, eram encontradas desculpas para nos manter afastados: "A operação está em progresso!" "Ainda há combatentes do Daesh (sigla pejorativa em árabe do Estado Islâmico) à solta!" "Há minas terrestres!" e, finalmente, "A área ainda está sendo liberada!" e "Nenhum civil foi ferido!"

Não fomos autorizados a chegar perto do vilarejo bombardeado. Simplesmente nos diziam que cerca de 94 combatentes do Estado Islâmico foram mortos.

No final, a "Madar-e Bamb-Ha" se transformou em uma estrela de um reality show de TV grotesco. Sabemos quanto ela pesa, quanto custa, seu impacto, o número do modelo e seu codinome. Mas não sabemos nada sobre as pessoas que matou, exceto que supostamente são combatentes do Estado Islâmico sem nome, sem face, moradores de cavernas. Foi uma explosão barulhenta, seguida por um silêncio igualmente alto. É apenas outra bomba a cair em solo afegão, e o futuro de meu país permanece tão incerto quanto sempre.

Ali M. Latifi é um escritor baseado em Cabul, Afeganistão

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos