Opinião: Eleição britânica quer acabar com a política bipartidária que existe desde 1945

William Davies**

Em Londres (Reino Unido)

  • Parliament TV/Handout via REUTERS

O Reino Unido hoje enfrenta diversas incertezas profundas, até mesmo existenciais. As condições de sua saída da União Europeia, as perspectivas em longo prazo do país e o futuro da Escócia no Reino Unido estão na balança. Em comparação com essas incógnitas, o resultado de eleição geral em 8 de junho já parece concreto: os conservadores, situados consistentemente entre 17% e 20% à frente nas pesquisas, rumam para uma vitória arrasadora.

Ao convocar essas eleições (apesar das promessas de não o fazer) e em sua campanha para ela, a primeira-ministra Theresa May está explorando esse contraste. Os conservadores são apresentados como um novo tipo de "partido popular", sob o qual todo mundo pode se aninhar para ficar a salvo das diversas tempestades que se aproximam. May e seu partido tratam esta eleição como importante demais para ser reduzida a divisões políticas. Sem explicar como, ela afirma que "cada voto em mim e nos candidatos conservadores será um voto que reforçará minha mão nas negociações do Brexit".

É aí que a estratégia e a retórica de May se tornam desconcertantes. Desde que sucedeu a David Cameron, no último verão, ela falou como se o Reino Unido fosse um país harmoniosamente unido, fora as forças divisoras da política partidária e as elites liberais que tentam derrotar a "vontade do povo". A primeira parte disso é simplesmente mentira: 48% do público votaram para continuar na União Europeia, enquanto os outros 52% tinham ideias variadas sobre o que a saída poderia fazer ou significar na prática.

A ideia de May de que seus adversários estão apenas fazendo "jogos" políticos por interesse próprio é uma clássica figura de linguagem populista, que sugere que a democracia constitucional é realmente um obstáculo entre a população e o líder. A retórica da primeira-ministra desde que convocou a eleição geral implicou que o melhor resultado para o "interesse nacional" seria erradicar totalmente a oposição, esteja ela na mídia noticiosa, no Parlamento ou no Judiciário. Por vários motivos (como a ascensão do Partido Nacional Escocês), é virtualmente impossível imaginar que o Partido Trabalhista consiga uma maioria parlamentar novamente, como May bem sabe. Colocando tudo isto de outra maneira, o objetivo principal desta eleição é destruir a política bipartidária que o Reino Unido conhece desde 1945.

Uma das formas como May perseguiu agressivamente esse resultado é o seu modo habitual de colocar a opção diante do eleitorado britânico. Estamos acostumados com políticos que apresentam propostas políticas e promessas ao público. É claro, na prática isso envolve marqueteiros que tentam mostrar as políticas de seu partido sob a melhor luz, canais de mídia que retorcem a mensagem conforme suas inclinações políticas e muitos eleitores decepcionados que se afastam porque não acreditam em uma palavra do que os políticos dizem. Essa é a rotina.

O Partido Trabalhista, apesar de ocasionais gestos populistas para a mídia, tem se mantido aproximadamente dentro desse script. Há uma certa ironia nisso, ver que os trabalhistas, sob a liderança socialista de Jeremy Corbin, passaram a ser vistos por muitos analistas e eleitores como um partido implausível no governo. Mas os trabalhistas de todo modo vêm apresentando propostas políticas clara e racionalmente elaboradas desde que a eleição foi anunciada, em 18 de abril.

Em comparação, May quase não fez declarações a respeito de políticas. Seus discursos e sua literatura de campanha são salpicados do slogan "liderança forte e estável", frase que ela recita nas poucas ocasiões em que ouve perguntas de jornalistas ou do público em geral. A própria base sobre a qual ela pede para que confiem nela e a elejam parece diferente de uma plataforma política comum. Vindo da líder de um partido ainda preso a Margaret Thatcher, o virtual silêncio de May sobre a economia é inacreditável. A decisão de votar conservador não se baseará no conhecimento do que um governo conservador fará --ninguém tem muitas pistas sobre nada neste momento--, mas na necessidade desesperada de uma "liderança forte e estável".

Dos pontos de vista simbólico e retórico, a mensagem de campanha de May é simples e poderosa. Enquanto os partidos de oposição sujam as mãos com ideias políticas e entrevistas coletivas, ela busca personificar em sua pessoa o Estado-nação --cargo que tecnicamente pertence à rainha. Em um de seus vídeos de campanha, em que ela fala solenemente diante da bandeira britânica em uma sala pouco iluminada, como se anunciasse uma nova guerra, ela usa a palavra "nós" de diversas maneiras: às vezes significa o Partido Conservador, em outras o governo e em outras ainda o próprio Reino Unido. O efeito hipnótico sobre o espectador é fazê-lo perder o rastro das diferenças entre os três. A democracia representativa está sendo difamada como mesquinha e prejudicial ao interesse nacional por uma mulher que acaba de convocar uma eleição desnecessária e indesejada.

Onde fica a oposição nisto? O medo é que fora da Escócia partidos políticos rivais sejam reduzidos à posição de prestigiosos grupos de pensadores ou organizações não governamentais. Se eles tiverem boas ideias, o governo de May poderá alegremente adotá-las. Os conservadores já escolheram uma política do Partido Trabalhista para controlar o preço da energia no varejo. Com os conservadores rotulados como mais que um mero partido político, é difícil ver como seu garrote eleitoral na Inglaterra e em Gales será rompido.

Os políticos e os partidos dificilmente podem ser acusados de querer mais poder. É isso que os move. O que é preocupante em May é que ela parece estar deliberadamente agravando a ansiedade existencial do Reino Unido, exatamente para se beneficiar disso pessoalmente. Sua extraordinária acusação trumpiana de que os líderes da UE buscam interferir na eleição (já repetida por outros ministros conservadores) parece se destinar a aguçar o ressentimento nacionalista contra as próprias pessoas que acabarão decidindo que tipo de acordos comerciais e "lei do divórcio" o Reino Unido conseguirá. Isso sugere que ela vê a destruição do Partido Trabalhista como uma prioridade nacional mais importante que a prosperidade econômica do Reino Unido em longo prazo.

May claramente tem uma boa antena emocional, especialmente quando se trata de sentir os medos e ressentimentos do que ela chama de "trabalhadores comuns". Mas se afinal ela for uma negociadora fraca com a UE, e se deixar de compreender a magnitude da vulnerabilidade econômica do Reino Unido, a política do ressentimento será tudo o que ela terá para se apoiar. A imprensa dos tabloides conservadores britânicos elogiará cada passo nessa direção com sua habitual nostalgia do tempo da guerra, e ela continuará reivindicando o apoio do "povo". Mas a realidade será uma nação fraturada, escorregando deselegantemente para a posição de uma economia média irrelevante e raivosa.

O Brexit será terrivelmente difícil, mas não há motivo para que seja envolvido em tanta gravidade e sigilo nacionalista, tampouco precisa significar o afastamento enormemente arriscado do mercado único europeu. Mas esse é o caminho que May escolheu. Sua aposta é apresentar a si mesma e ao Partido Conservador como a única certeza em uma situação política caótica, com a política partidária sendo um sintoma de fraqueza e caos. Isso provavelmente terá um efeito devastador, mas só porque May se recusa a reconhecer a contribuição crucial que ela e seu partido fizeram para esse caos, para começar.

*William Davies (@davies_will) é um sociólogo e economista político na Goldsmiths, Universidade de Londres, e autor de "The Happiness Industry" [A indústria da felicidade], entre outros livros.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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