O que a Revolução Russa pode nos ensinar sobre Trump? Mais do que você imagina

Ivan Kraste*

Em Sófia (Bulgária)

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Nossa dieta de leitura atualmente é repleta de aniversários e escândalos. Neste ano, as livrarias estão sendo invadidas por uma enxurrada de novos livros relacionados ao centenário da Revolução Russa. E na frente dos escândalos, não passa um dia sem uma indignidade perturbadora e inflamatória manchando o governo Trump.

Será que os livros recém-publicados a respeito da Revolução Bolchevique podem nos ajudar a entender os escândalos do presidente Trump centrados na Rússia? Você poderá se surpreender.

Muitos textos contemporâneos veem a revolução de 1917 como pouco mais que uma trama alemã. Essa visão é particularmente popular no momento na própria Rússia, onde "revolução" é considerado um palavrão. As pessoas raramente se contentam em explicar revoluções usando a lógica política comum. Os eventos que provocam grandes mudanças na História são interpretados como algo inevitável, como obra de Deus, ou a intervenção de uma potência estrangeira. E com a ruína do comunismo, muitas das histórias populares da Revolução Russa agora desviam sua atenção da ascensão das massas para narrativas de espionagem, que mostram como os alemães, como colocou Winston Churchill, "transportaram Lênin em um caminhão lacrado, como um bacilo de praga, da Suíça para a Rússia".

Agora, à medida que muitas pessoas veem a vitória eleitoral de Trump como pouco mais que o efeito de uma trama russa, se entendermos por que os alemães ajudaram os bolcheviques em 1917 e o que aconteceu depois, poderíamos ter um melhor entendimento do motivo para Moscou poder ter se sentido tentada a ajudar a campanha de Trump em 2016 e o que podemos esperar a seguir.

A analogia com 1917 sugere que a Rússia interveio na política americana por detestar Hillary Clinton em vez de gostar de Donald Trump. Com certeza, o kaiser da Alemanha não nutria simpatia pelos sonhos revolucionários de Vladimir Lênin. Caso o dissidente bolchevique fosse alemão, as autoridades o teriam jogado na prisão. Mas Lênin era russo e o alto comando alemão via a revolução russa como útil para a Alemanha na guerra. Igualmente, parece que a principal meta de Moscou em 2016 era uma grande disrupção, acima de tudo. Destacar indevidamente elos ideológicos e outros entre o Kremlin e o presidente americano seria enganador.

A história da Rússia também nos ensina que para um político com mentalidade revolucionária como Lênin, o verdadeiro inimigo era interno. Assim como a Alemanha via os bolcheviques como instrumentos para atingir as metas de guerra alemãs, Lênin via a Alemanha como um instrumento para conseguir sua revolução. Algo semelhante provavelmente é verdade em relação a Trump. E apesar de ser improvável que o presidente tenha conspirado pessoalmente com os russos, ele provavelmente não faria objeção a outros explorarem o apoio da Rússia para vencer. A única outra prioridade de Trump fora "América em primeiro lugar" era "a vitória eleitoral em primeiro lugar".

Isso me faz acreditar que diferente dos temores de muitos críticos de Trump, mesmo se o presidente e sua campanha tivessem colaborado voluntária ou involuntariamente com Moscou durante a eleição, isso não significa que o novo governo seria amistoso com Moscou ou controlado por ela. Entre outras coisas, para que os russos controlassem Trump. o presidente teria que ter um grau de autocontrole, o que ele não tem. Paradoxalmente, a alegada interferência da Rússia na eleição americana a favor de Trump torna a cooperação entre os Estados Unidos e a Rússia menos provável. O temor da Casa Branca de ser vista como branda com Moscou atrapalha sua disposição de trabalhar com a Rússia. Essa pode acabar se tornando a marca da política externa do governo.

Os democratas em especial deveriam aprender outra lição de 1917 e desistir de seus sonhos de impeachment: expor a alegada conexão russa de Trump não tornará o presidente automaticamente ilegítimo. A história do caminho de Lênin ao poder via um vagão de trem selado é conhecida pelo público russo (o governo provisório até mesmo expediu um mandado de prisão para o líder dos bolcheviques), mas não foi suficiente para diminuí-lo ou à revolução aos olhos de seus simpatizantes. Em um clima de polarização política radical, as pessoas confiam nos líderes não por quem são, mas por quem são seus inimigos. E aos olhos de muitos republicanos, o presidente Trump pode ter o caráter errado, mas tem os inimigos certos.

A história de 1917 também pode ser instrutiva para o Kremlin do presidente Vladimir Putin. A estratégia da Alemanha de ajudar as forças revolucionárias na Rússia visando atingir as metas geopolíticas alemãs acabaram tendo um final infeliz: a revolução na Rússia removeu o país da Primeira Guerra Mundial, mas espalhou a febre revolucionária por toda a Europa, até mesmo provocando uma guerra civil na Alemanha. A Rússia de Putin enfrenta um risco semelhante. Um relatório recente de um centro de estudos pró-Kremlin, dedicado à ascensão do populismo tecnológico, sugere que a onda populista em voga nas democracias ocidentais poderá chegar em breve à Rússia, transformando-se em uma séria ameaça à ordem política do país durante o próximo ciclo eleitoral.

A ironia da atual situação é que um século após a Revolução Bolchevique, Moscou corre o risco de repetir o mesmo erro cometido pela Alemanha em 1917: acreditar que revoluções podem ser aliadas confiáveis para obtenção de resultados geopolíticos. O ponto que os americanos correm o risco de não perceber é que a atual revolução em Washington não pode ser explicada apenas pela interferência da Rússia. Sua causa, primeiro e acima de tudo, é doméstica.

*Ivan Krastev, presidente do Centro para Estratégias Liberais e membro permanente do Instituto para Serviços Humanos em Viena, é autor do futuro livro "After Europe"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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