Análise: Como a KGB iniciou a guerra que mudou o Oriente Médio

Ronen Bergman*

Em Tel Aviv (Israel)

  • AFP

    Caças da força aérea israelense durante a Guerra dos Seis Dias

    Caças da força aérea israelense durante a Guerra dos Seis Dias

Na manhã de 1º de junho de 1967, o telefone tocou em um pequeno apartamento em Herzliya, um subúrbio luxuoso a poucos quilômetros ao norte de Tel Aviv.

"Bom dia, madame. Aqui é Yuri falando. Seu marido está em casa?" disse uma voz de homem em inglês, com forte sotaque russo, soando tenso.

"Quem dera estivesse aqui, Yuri", respondeu a mulher. "Ele foi chamado à reserva."

"Se ele ligar, diga-lhe que preciso me encontrar urgentemente com ele", disse o homem na chamada antes de desligar.

Quem estava ao telefone era Yuri Kotov, um promissor oficial de caso da KGB. Dois anos e meio antes, ele recrutou um homem cujo codinome na KGB era Garoto, um proeminente membro jovem do Partido Trabalhista de governo de Israel. Desde então, Garoto repassava uma riqueza de informações sobre o partido e de seu posto na reserva da inteligência militar.

Em documentos da KGB recém-entregues pela inteligência britânica à Universidade de Cambridge, encontrei palavras elogiosas ao Garoto. "Meus superiores na KGB", Garoto me disse recentemente, "me informaram que eu estava sendo preparado para me tornar um de seus principais agentes no Oriente Médio". A KGB não estava errada: Garoto se transformou em uma figura conhecida em Israel e nos Estados Unidos.

Mas Garoto era um israelense patriota. Ele informou ao Shin Bet, a agência de inteligência doméstica de Israel, sobre as aberturas de Kotov e foi instruído a continuar dando corda. Ele repassava aos soviéticos a informação fornecida pela inteligência israelense, parte dela falsa e o restante inofensiva. O Shin Bet, que lhe deu o codinome Laranja, ainda trata o caso como altamente sensível e proíbe a publicação de seu nome.

Em junho de 1967, Kotov e seus camaradas em Tel Aviv viram que Israel estava se preparando para a guerra, algo que seus superiores em Moscou estavam convencidos de que não aconteceria, apesar das ameaças árabes e dos posicionamentos para ofensiva. Todavia, os soviéticos começaram a perguntar a seus agentes o que estava acontecendo. O Shin Bet decidiu "ativar nossos agentes duplos para tentar impedir a guerra", ao fornecer aos russos informação precisa, me disse Reuven Merhav, um dos superiores de Laranja.

O Shin Bet instruiu Laranja a se "encontrar com Kotov, vestindo meu uniforme e insígnia de oficial, para lhe dizer sobre o enorme posicionamento de forças por Israel ao longo da fronteira com o Egito, em preparação para uma guerra, e que se a União Soviética não promovesse um relaxamento da tensão e a retirada do Exército egípcio do Sinai, Israel atacaria primeiro". Outro agente duplo, Victor Grayevsky, um jornalista polonês, recebia as mesmas ordens.

Esses relatórios foram repassados a Moscou, mas não fizeram diferença. Logro e desinformação preparados no quartel-general da KGB já tinham colocado Israel e seus vizinhos no caminho para a guerra.

A forma como a inteligência soviética tentou mudar o equilíbrio de poder no Oriente Médio é essencial para o entendimento dos desdobramentos que levaram ao estouro da Guerra dos Seis Dias. Mas também explica a mentalidade das pessoas que cresceram na KGB e comandam a Rússia hoje, e as formas como tentam influenciar a política internacional.

A KGB costumava chamar esse modus operandi de Medidas Ativas. Segundo documentos da KGB, elas "visam exercer influência útil em aspectos de interesse na vida política do país alvo, incluindo sua política externa; enganar o adversário; minar e enfraquecer as posições do adversário".

Os chefes da KGB eram profundamente antissemitas e viam em Israel e nos judeus do mundo "um perigo que só fica atrás do inimigo principal, os Estados Unidos". A KGB visava desestabilizar Israel, de forma totalmente desproporcional à força e influência do país. Em abril de 1967, enquanto os Estados Unidos conseguiam ganhos no Vietnã, os soviéticos decidiram adotar medidas ativas dramáticas para enfraquecer Israel, e consequentemente também desferir um golpe nos americanos.

Ao transmitir informação falsa, os soviéticos esperavam aumentar a dependência dos sírios e egípcios de Moscou e aprofundar o envolvimento do Egito nas tensões no Oriente Médio, ao fazer os egípcios agirem com força contra Israel.

Eles esperavam que o Egito responderia reforçando sua posição e novamente avançando seu Exército no Sinai. Segundo algumas fontes, a União Soviética até mesmo esperava que o aumento das tensões levasse o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, a retirar seu Exército do Iêmen, onde seu envolvimento estava incomodando os soviéticos. Uma crise entre o Egito e Israel também poderia desacelerar ou interromper a construção do reator nuclear de Israel em Dimona, que os soviéticos viam acertadamente como uma importante mudança estratégica no Oriente Médio.

Os soviéticos exploraram a visita em 13 de maio de 1967 do vice-presidente do Egito, Anwar el-Sadat, ao Kremlin para compartilhar com ele informação "altamente confidencial" de que Israel estava concentrando suas forças ao longo de sua fronteira norte visando atacar a Síria. Os líderes da KGB disseram a Sadat que o Politburo esperava que o Egito defenderia a Síria, uma aliada russa. "Eles sabiam muito bem que aquilo não era apenas informação incorreta, mas sim uma mentira descarada", disse o general Schlomo Gazit, que servia na época como chefe da divisão de pesquisa da Inteligência Militar Israelense.

Israel não estava concentrando suas forças. Na verdade, a inteligência israelense estava convencida em meados de 1967 que a Síria estava imersa em um conflito interno, enquanto o Egito estava amarrado no Iêmen, portanto não havia risco imediato de guerra. Era uma avaliação precisa: nenhum país queria de fato uma guerra. Mas em meados de maio, a KGB não tinha mais como voltar atrás.

Sadat retornou ao Cairo naquela noite para descobrir que a estação da KGB lá emitiu um alerta semelhante. Ele correu até a residência de Nasser, onde a liderança egípcia estava reunida para uma reunião de emergência. Nasser não necessariamente acreditava nos relatos soviéticos, mas se comportou como se acreditasse. Mesmo se Moscou estivesse conduzindo o Egito e a Síria a uma guerra, ele estava confiante de que ela funcionaria em seu benefício.

Em 15 de maio, o presidente egípcio ordenou que seu Exército marchasse até o Sinai e então exigiu que as Nações Unidas retirassem suas forças de paz da península. Então ele declarou o Estreito de Tiran, um gargalo para o acesso de Israel ao Mar Vermelho, fechado para transportes israelenses. A União Soviética apoiou essas medidas, acreditando que Israel não ousaria iniciar uma guerra em resposta e que até mesmo se os israelenses quisessem atacar, os Estados Unidos os impediriam.

As medidas do Egito foram como um choque para os israelenses, que as interpretaram como um fato grave e uma declaração de guerra, iniciando a mobilização de forças para enfrentar os egípcios. O alto comando das Forças Armadas israelenses pressionou o primeiro-ministro Levi Eshkol a aprovar um ataque preventivo. A população israelense foi tomada por ansiedade devido a um profundo medo de um segundo Holocausto induzido pelas ameaças violentas de Nasser. Mas a liderança militar, contando com inteligência de alta qualidade, estava confiante na vitória.

O pessoal na embaixada soviética em Israel, Yuri Kotov entre eles, estava menos confiante de que seus chefes em Moscou de que Israel poderia ser intimidado. Eles convocaram seus agentes para tentar entender o que estava acontecendo. Ao mesmo tempo, o Shin Bet ativou os agentes duplos para persuadir a União Soviética a relaxar as tensões.

Eshkol tentou convencer os soviéticos de que Israel não planejava atacar a Síria. No meio da noite, de pijama, ele recebeu o embaixador soviético, Sergei Chuvakhin, e propôs visitarem a fronteira entre Israel e a Síria para verem que nada fora do comum estava ocorrendo lá. Chuvakhin recusou.

Quando os soviéticos perceberam que a situação poderia sair de controle, eles tentaram impedir uma guerra. Em uma carta secreta ao presidente Lyndon Johnson, Alexei Kosygin, o primeiro-ministro soviético, exigiu que Johnson assegurasse que Israel não atacaria a Síria ou o Egito, enquanto pedia ao Egito por um canal separado para que não atacasse.

Mas ao mesmo tempo, os russos não fizeram nada para persuadir Nasser a recuar suas forças. A maioria dos especialistas em Moscou tinha certeza de que se uma guerra ocorresse, Israel seria derrotado em duas semanas. Os soviéticos prosseguiram fornecendo informação falsa a seus aliados. Os russos também aprovaram os voos de MiGs egípcios (alguns dizem que pilotados por soviéticos) sobre o reator nuclear de Israel no deserto de Negev, um ato que foi visto por Israel como uma ameaça direta a sua instalação mais secreta e sensível.

Em 1º de junho, quando ficou claro que os Estados Unidos não abririam ou não podiam abrir o Estreito de Tiran com uma flotilha internacional, o secretário de Defesa, Robert McNamara, disse a Meir Amit, o chefe do Mossad (o serviço secreto israelense): "Eu percebo claramente. Vá para casa, meu jovem, é onde você precisa estar agora". Amit entendeu a resposta de McNamara como tendo obtido o que posteriormente descreveu para mim como um "sinal verde" para o lançamento de um ataque preventivo. Ele ocorreu em 5 de junho.

Pouco depois, a KGB em Tel Aviv começou a receber relatos das vitórias israelenses e "ficou completamente perdida", segundo Reuven Merhav, que chefiava a divisão de contraespionagem soviética do Shin Bet na época. Eles foram os primeiros a perceber as dimensões do desastre para a União Soviética.

A Medida Ativa provocou o exato oposto do que planejavam. Em seis dias, Israel se transformou em uma potência regional e um aliado mais significativo dos Estados Unidos; Síria e Egito foram humilhados. As armas americanas conseguiram um nocaute sobre as doutrinas e armamentos soviéticos.

Em 10 de junho, a União Soviética rompeu relações diplomáticas com Israel. Oito dias depois, um navio ancorou em Haifa para embarque do conteúdo da embaixada, assim como os funcionários, incluindo a estação da KGB. Um minuto após deixarem o prédio, agentes do Shin Bet invadiram e descobriram que a KGB "não deixou nada para trás", segundo Merhav. "Percebi que aquela era tinha acabado", ele disse, mas reconheceu que "o Oriente Médio é importante demais para eles. Eles voltarão".

Ele estava certo. A Rússia está de volta, de novo exercendo um papel diabólico e destrutivo na política mundial. A tecnologia para disseminação de desinformação e o uso de fatos falsos para disseminação de atrito e discórdia, para enganar e ameaçar, podem ter mudado, mas a mentalidade permanece a mesma. Com  um agente da antiga KGB, Vladimir Putin, no comando, a Rússia ainda vê as Medidas Ativas como meios legítimos de reduzir a diferença entre a Rússia e o Ocidente, e aumentar a influência de Moscou ao redor do mundo, inclusive no Oriente Médio.

A diferença entre junho de 1967 e hoje é que agora eles parecem estar se saindo muito bem.

(Este ensaio faz parte de uma série de artigos que examinam o conflito entre árabes e israelenses de 1967, meio século depois.)

*Ronen Bergman, colaborador do "New York Times" e correspondente de assuntos militares e de inteligência do "Yedioth Ahronoth", é a autor do futuro livro "Rise and Kill First: The Secret History of Israel's Targeted Assassinations", ou "Erga-se e mate primeiro: a história secreta dos assassinatos direcionados de Israel", em tradução livre.)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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