Homens interrompem mulheres e fenômeno cria mobilização nas redes sociais

Susan Chira

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Para as mulheres nos negócios, e além deles, foi uma situação bem conhecida.

O espetáculo duplo da última terça-feira (13) --o comentário irônico de um membro do conselho da Uber sobre as mulheres falarem demais e a senadora democrata Kamala Harris, da Califórnia, sendo interrompida pela segunda vez em uma semana por colegas homens-- provocou uma enxurrada de reconhecimento e uma indignação que se tornou quase um ritual nas redes sociais.

Estudos acadêmicos e inúmeras anedotas deixam claro que ser interrompidas, caladas ou penalizadas por falar é uma experiência quase universal para as mulheres quando estão em menor número do que os homens.

Algumas estatísticas mostram que as perguntas dirigidas à Uber sobre como as mulheres se saem no local de trabalho vão além de uma empresa, e de fato do Vale do Silício. As mulheres formam 6,4% das executivas-chefes da "Fortune 500" e 19,4% do Congresso norte-americano neste ano. Cerca de um quinto dos membros dos conselhos das empresas na lista da "Fortune 500" em 2016 eram mulheres, segundo pesquisa realizada pela Deloitte e a Aliança pela Diversidade no Conselho.

Depois que Arianna Huffington, uma diretora da Uber, falou sobre a importância de aumentar o número de mulheres no conselho, David Bonderman disse que isso significaria mais falação. Pouco depois ele se demitiu do conselho.

Mesmo em companhias com culturas notórias de fraternidade, porém, as mulheres tiveram de lutar para serem ouvidas e, como os números deixam claro, para avançar até o topo. 

"Eu acho que qualquer mulher que tenha algum grau de poder, e as que não têm, sabe o que é experimentar o que Kamala Harris experimentou", disse Laura Walker, executiva-chefe da Rádio Pública de Nova York. "Estar em uma situação em que você tenta fazer seu trabalho e é cortada ou ignorada."

Harris, que já foi promotora de Justiça, interrogou de forma assertiva o ministro da Justiça, Jeff Sessions, durante seu depoimento à Comissão de Inteligência do Senado. O senador republicano John McCain, do Arizona, a interrompeu e repreendeu para deixar Sessions responder a suas perguntas. Pouco depois, o senador republicano Richard Burr, da Carolina do Norte, o presidente da comissão, a interrompeu, dizendo que seu tempo estava esgotado.

As mulheres em um amplo leque de setores, em todos os níveis, ofereceram centenas de exemplos parecidos em resposta a um convite de "The New York Times" para que as pessoas compartilhassem suas experiências pessoais no Facebook. "Nem posso contar o número de vezes em que presenciei uma mulher sendo interrompida e subjugada verbalmente por um homem, para depois ouvi-lo repetir as mesmas ideias que ela estava tentando apresentar", escreveu uma participante, Grace Ellis. "Eu diria que vejo isso acontecer duas ou três vezes por semana, pelo menos." 

Joyce Lionarons escreveu: "Minha chefe me disse que precisava deixar que cada homem a interrompesse quatro vezes antes de protestar em uma reunião. Se ela protestasse com mais frequência, haveria problemas". 

Erica Brown escreveu que trabalha há três meses como destiladora. Virtualmente todas as vezes que ela vai apanhar suprimentos, disse ela, o pessoal pergunta a seu marido o que ela quer.

Megha Banerjee disse que costumava trabalhar em uma empresa com muito poucas mulheres. "Quando eu expressava minha opinião, muitas vezes era interrompida ou minha ideia era ignorada. Faz seis meses que eu deixei aquele emprego e hoje sou uma pessoa muito mais feliz e confiante."

"Trabalhei em uma das dez maiores livrarias independentes do país", escreveu Bianca DiRuocco. "Muitas vezes uma sugestão feita por uma das mulheres da equipe nas reuniões de que o dono participava era derrubada, mas surgia uma ou duas semanas depois como a ideia brilhante dele mesmo. Isso aconteceu com tal frequência que algumas de nós começamos a brincar em particular sobre anotar nossas sugestões no calendário para ver exatamente quantos dias depois nossas ideias passariam de ridiculamente impossíveis a simplesmente geniais."

Uma série de estudos confirma tais casos. Os pesquisadores descobrem constantemente que as mulheres são interrompidas mais vezes e que os homens dominam as conversas e a tomada de decisões nos escritórios de empresas, nas reuniões da prefeitura, em conselhos escolares e no Senado dos EUA. 

Victoria L. Brescoll, professora-associada de comportamento organizacional na Escola de Administração de Empresas de Yale, publicou um trabalho em 2012 mostrando que os homens com poder falam mais no Senado, o que não acontece com as mulheres. Outro estudo, "As Mulheres Iradas Podem Progredir?", concluiu que os homens que ficam irritados são recompensados, mas as mulheres irritadas são consideradas incompetentes e não merecedoras de cargos de poder na empresa.

De fato, Jason Miller, um ex-assessor da campanha do presidente Donald Trump e comentarista na CNN, descreveu Harris como "histérica" e tendo gritado durante seu questionamento de Sessions. Algumas vezes Harris interrompeu Sessions, mas ela falou em um tom tranquilo.

Essa experiência também repercutiu entre muitas mulheres que responderam ao apelo no Facebook. 

"E se você se queixar será excluída", disse Paula Minnikin. "Como única mulher em um conselho corporativo, pedi em particular ao presidente se poderíamos considerar encontrar mais uma ou duas mulheres, pois estávamos tentando substituir três membros do conselho. Ele disse que sem dúvida eu era um dos membros mais fortes, mas que não há boas mulheres. Eu era a exceção. Então ele explicou que isso é porque eu sou alta e forte, como um homem, e não confundo as coisas como uma mulher normal. Fiquei estupefacta." 

Tali Mendelberg, professora de política na Universidade Princeton, é coautora de "The Silent Sex: Gender, Deliberations and Institutions" [O sexo silencioso: gênero, deliberações e instituições], que compila estudos sobre o que acontece quando mais mulheres entram em grupos de tomada de decisões. Ela e Christopher Karpowitz, professor-associado de ciência política na Universidade Brigham Young, descobriram que em reuniões de conselho escolar homens e mulheres só falavam durante o mesmo tempo depois que as mulheres formavam 80% do conselho. Quando os homens eram minoria, porém, eles não falavam menos. 

"O fato de as mulheres estarem em maior número em qualquer sala as coloca em uma posição em que muitas vezes encontram estereótipos baseados em gênero", disse Deborah Gillis, presidente e executiva-chefe da Catalyst, que trabalha para o progresso das mulheres nas empresas. "As mulheres são duras demais, moles demais, mas nunca simplesmente certas. Isso significa que ou elas são consideradas competentes ou são apreciadas, mas não as duas coisas."

Algumas mulheres estão trabalhando para subverter esses desequilíbrios de gênero em suas próprias organizações.

Walker, da Rádio Pública de Nova York, disse que pressionou para ter mais mulheres em seu nível sênior e no conselho. "Acho que isso não somente empodera as mulheres em toda a nossa organização, como também causa melhores discussões", disse ela. Walker também faz pressão para aumentar o número de mulheres que apresentam podcasts.

Jacqueline Hinman, presidente e CEO da CH2M Hill Cos., uma companhia de engenharia do Colorado que administra projetos que incluem trens leves em Toronto e instalações olímpicas em Londres, trabalha em um campo em que as mulheres geralmente são poucas. Hoje, porém, elas formam até 30% a 40% de seu conselho diretor e são bem representadas em cargos elevados.

Foram necessários anos de trabalho para chegar a esse ponto, disse Hinman --e parte da força veio de clientes, cada vez mais mulheres, que queriam ver equipes de engenharia diversificadas. Ela disse que deixou claro para seus subordinados que eles serão julgados em parte por quantas mulheres e minorias eles promoverem.

"Os homens que vêm para nossa empresa de outras concorrentes ficam surpresos com o número de mulheres em toda parte", disse ela, acrescentando: "Eles adoram isso".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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