Opinião: Com ou sem Assad, Síria estará longe da democracia quando a guerra terminar

Kamel Daoud*

Em Orã (Argélia)

  • Sana Sana/REUTERS

    O presidente sírio Bashar al-Assad

    O presidente sírio Bashar al-Assad

O presidente sírio se mantém no poder após seis anos de guerra. Ele matou a esperança de democracia na região?

As primaveras árabes estão quase todas fora da estação; em todo lugar, exceto na Tunísia, elas envelhecem mal.

Primeiro, depois de um levante popular, era o ditador quem fugia, de avião, como fez o presidente da Tunísia Zine el-Abidine Ben Ali no início de 2011. Agora está acontecendo o contrário: é a população quem foge, por exemplo da Síria, por terra e mar.

Essa inversão levanta uma pergunta essencial, ao mesmo tempo simples e trágica: ainda se pode esperar democracia depois da vitória do presidente Bashar al Assad da Síria, mesmo que essa vitória venha a ser temporária, como preveem alguns? O que isso significa para as populações do Magreb e do Oriente Médio?

Para muitos, a primeira lição a se tirar do caso da Síria é óbvia: não se pode sempre ganhar a revolução, ou pelo menos não tão depressa quanto se gostaria. Até agora Assad saiu do conflito vivo, e até reforçado --ao custo da chacina de metade de sua população.

Sua longevidade serve para mostrar que estar errado e enfrentar dura oposição de dissidentes, de um Exército e grande parte da comunidade internacional não bastam para derrubar um ditador.

Ao matar tantos sírios, Assad também matou o sonho da democracia para muitos outros sírios, assim como para muitas pessoas em outras partes do mundo árabe.

Elas podem ver que um revolucionário frequentemente acaba virando um mártir, um prisioneiro torturado, um miliciano pago por forças estrangeiras ou um refugiado indesejado. E nem seus filhos nem seu povo estão melhor assim. Isso basta para semear dúvida até nas mentes mais democráticas e nos revolucionários mais fervorosos.

Então aqui está o primeiro efeito Assad: a percepção de que a democracia é cara --talvez cara demais.

Outra consequência da sobrevivência política de Assad é a ideia de que a revolução convida à predação do exterior. As elites políticas no mundo árabe pós-colonial, sejam conservadoras ou de esquerda, ainda são alérgicas ao apoio estrangeiro que endossa apelos locais por democracia: a memória da colonização mancha com suspeita qualquer ou quase toda forma de ajuda internacional.

Por exemplo, o governo argelino --muito conservador, um Estado policial e um aliado silencioso dos islamistas-- joga com a história do colonialismo francês para dar crédito a sua alegação de que uma "mão estrangeira" está promovendo a liberdade da população apenas para melhor desestabilizar os líderes.

Para o presidente Abdelaziz Bouteflika, da Argélia, as primaveras árabes foram "conspirações devastadoras". Segundo um canal privado da televisão egípcia, até "Os Simpsons" continham prova de desígnios estrangeiros desfavoráveis na Síria. O caos político na Líbia também promoveu a desconfiança.

A teoria da intervenção estrangeira é usada como arma contra dissidentes locais. Em 2016, Bouteflika, doente e imobilizado, anunciou que tentaria mais um mandato, depois de fazer emendas à Constituição para que pudesse ficar no cargo pelo resto da vida.

Quando seus adversários rejeitaram a proposta, invocando valores democráticos, a mídia do governo os acusou de traidores, agentes ocidentais ou sionistas.

O caso da Síria --sujeita a alianças com o Irã ou a Rússia e jogando contra a Arábia Saudita, o Catar ou os EUA-- reforça essa propaganda. Parece demonstrar que qualquer demanda por democracia acaba se traduzindo em caos, e o caos convida à volta do colonialismo.

O mesmo vale para a Líbia. Melhor, então, submeter-se a um ditador do que se comprometer com estrangeiros.

Curiosamente, as elites que rejeitam a intervenção do Ocidente fecham os olhos para um fato óbvio: a ameaça de intervenção de outros países. É uma armadilha típica da esquerda intelectual do mundo árabe pensar que a colonização é sempre ocidental, nunca russa ou iraniana.

Quando Moscou ou Teerã estão envolvidas, prefere-se falar em apoio ou ajuda. O presidente Vladimir Putin é antiocidental, portanto deve ser uma espécie de libertador, ou pelo menos um aliado, segundo o pensamento otimista.

Daí a segunda conclusão que está sendo tirada da experiência da Síria: a democracia é o cavalo de Troia do neocolonialismo ocidental.

Finalmente, há mais uma lição, que já se enraizou nas chamadas ruas árabes: é melhor um ditador que um califa. Em editoriais de jornais e nas redes sociais, as intervenções ocidentais são muitas vezes acusadas pela monstruosidade do Estado Islâmico: elas destruíram a barreira que os governos locais formaram contra seitas extremistas.

Desestabilizar o governo sírio abriu caminho para o Estado Islâmico. Mas Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do grupo, é pior que Assad, por isso a ditadura é preferível ao califado.

Assad conseguiu vender, não apenas para ocidentais, mas também às elites locais e ao público, a ideia de que a ditadura é uma muralha contra o radicalismo e um guardião contra o terror. O cenário na Síria é uma ilustração exagerada disso, mas a ideia também funciona, embora menos intensamente, no Egito e no Iêmen, e até no Marrocos, na Tunísia e na Argélia.

O governo Bouteflika, por exemplo, não se cansa de citar a "experiência" da Argélia no combate ao terrorismo --um pequeno lembrete ao Ocidente de que deve escolher entre apoiar uma ditadura ou sofrer o caos.

E aqui, seis anos depois de Ben Ali ter fugido da Tunísia, há um terceiro efeito Assad: a ideia de que se a democracia não leva à liberdade, mas ao islã, seria melhor manter a estabilidade de um regime repressor.

Mas alguma coisa disso é verdade?

É claro que não. São os ditadores quem, por meio da repressão, produzem os islamistas e os jihadistas, que ameaçam a estabilidade, o que justifica o regime autoritário. As ditaduras criam um círculo vicioso em benefício próprio.

Isto é, momentaneamente. Pois o processo só pode escalar: para manter-se no poder, os regimes autoritários tornam-se cada vez mais repressivos, perturbando cada vez mais pessoas, que então podem ser cooptadas pelos islamistas.

Assad ganhou, mas só ganhou tempo.

Por outro lado, quando ele finalmente cair, deixará a Síria sem alternativa. As primaveras árabes ainda terão deixado de resolver as difíceis opções entre caos e estabilidade, repressão e massacre, democracia e ditadura.

*Kamel Daoud é autor da novela "The Meursault Investigation".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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