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Não queremos golpe de Estado nem explosão social na Venezuela

Henrique Capriles

Henrique Capriles

41 anos, é governador do Estado de Miranda

Especial para o UOL

15/04/2014 06h00

Em meio ao cerco da mídia que o governo submeteu aos venezuelanos, na semana passada tivemos a oportunidade de, pela primeira vez em 15 anos, falar ao país em cadeia nacional de rádio e televisão.

Em 2013,Nicolás Maduro falou, em média, 28 minutos por dia. Este ano, em meio à crise, entre 12 e 16 de fevereiro, a média diária subiu para 1 hora e 52 minutos. Entre 27 de fevereiro e 12 de março, foram 89 minutos por dia. Era justo que a Venezuela ouvisse outras vozes.

Finalmente, os venezuelanos puderam confrontar dois modelos: um que defende a si mesmo, e o nosso, que defende os interesses e a união do povo.

A Venezuela é um país com mais futuro que presente, embora este governo insista em um discurso desatualizado e preso no passado, que busca dividir, e não solucionar os problemas dos venezuelanos.

Nós insistiremos em temas sensíveis como insegurança, escassez, alto custo de vida e crise na saúde. Nossa obrigação e responsabilidade será sempre ser a voz de todos aqueles a quem hoje o governo vira as costas. Queremos ser a voz dos mais pobres, que são os mais afetados pela crise econômica.

Problemas venezuelanos

Só a cesta básica custa três vezes mais que o salário mínimo, que é o segundo mais baixo das Américas. O valor de nossa moeda – o bolívar que eles chamaram de “forte” – desmonorou depois de múltiplas desvalorizações, mesmo que o governo tenha prometido não desvalorizar. Importamos mais de 80% do que consumimos. Este governo empobrece, todos os dias, os mais pobres.

Se há algum direito que eles não cumprem, é o direito à alimentação. Hoje, é humilhante fazer mercado na Venezuela. Os venezuelanos são marcados no braço quando querem comprar um produto, como se fossem animais. A falta de mercadorias encerrou o mês de março em 31%. E os preços de alimentos, segundo índices oficiais, subiram 75% nos últimos 12 meses.

A Venezuela está muito mal, vivemos uma situação extremamente crítica. À crise econômica, se soma a crise política. Queremos que isso se resolva, porque se essa situação permanecer, as consequências podem ser as que não queremos.

Não queremos golpe de Estado, nem explosão social. Tal como acreditavam Mahtama Ghandi, Martin Luther King e Nelson Mandela, o diálogo é a principal ferramenta dos movimentos que querem justiça e se negam a utilizar a violência como método.

Diplomacia

Na América Latina, há antecedentes que podem nos ajudar no processo de diálogo. Nosso continente ainda lembra do acordo de paz de Chapultepec, firmado no México em janeiro de 1992 entre o governo de El Salvador e a Frente Farabundo Martí para Libertação Nacional (FMLN), que pôs fim a 12 anos de guerra civil salvadorenha. É bom lembrar que a Venezuela desempenhou um papel importante neste processo de negociação.

Outro exemplo é o discurso de Patricio Alwyn (presidente do Chile entre 1990 e 1994) de 12 de março de 1990, sobre a necessidade de restabelecer o respeito e a convivência entre os chilenos independente de crença, ideias ou condição social, “sejam civis ou militares”. Estas últimas palavras foram rejeitas pela multidão presente [o Chile acabara de sair da ditadura de Augusto Pinochet]. No entanto, Alwyn não se intimidou, e bateu com mais força: “sim, sejam civis e militares, porque o Chile é um só”, no que recebeu a aceitação da plateia.

O presidente e o povo foram capazes de construir a unidade chilena, aceitando que a culpa de algumas pessoas não poderia comprometer a todos.

Condições para um acordo

Demorou anos para a Venezuela chegar a esse ponto, o caminho é longo, mas está claro que duas metades não fazem um país. Dialogar não significa recuar nos ideais, mas sim encontrar um caminho para nos reconhecermos.

O diálogo deve começar com a libertação dos presos políticos, como Leopoldo López e Iván Simonovis, de todos os estudantes detidos e da volta ao país dos perseguidos por causas políticas.

Também deve ser devolvido o mandato de uma de nossas deputadas e restabelecido o respeito à função parlamentar e ao debate na Assembleia Nacional. Também desejamos: o desarme dos paramilitares armados pelo governo, o fim da censura nos meios de comunicação e o comprometimento dos direitos humanos com nossa população.

São milhares de motivos para protestar na Venezuela, e o governo não pode criminalizá-los.

Maduro não pode continuar fabricando teorias de conspiração nas quais anônimos querem derrubá-lo. Deve entender que, se não mudar, o país explode. A bola está ao seu lado. É sua responsabilidade histórica colocar fim à violência e à repressão, e fazer as mudanças necessárias para revitalizar a economia e respeitar a Constituição e a democracia.

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