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Grandes grupos concentram editoras e livrarias, e disputa por espaço no mercado editorial é cruel

Especial para o UOL

31/05/2014 06h00

“Você ganhou o prêmio”.  A surpresa, na manhã de um dia sem graça, chegou por celular, em meio a compras numa loja de ferragens. Pensava em ganhar, ao enviar uma seleção de meus contos para o Prêmio Sesc de Literatura, instituição já respeitada àquela altura, com seis anos de existência. Mas tinha a disposição contraditória de quem aposta na loteria: esperava, sem muita esperança.

Convicção, só uma: não submeteria meu primeiro livro ao misterioso processo de seleção das editoras, que costuma durar meses e, para a maioria, acaba em decepção. Preferi a escolha de especialistas independentes, entre textos de concorrentes anônimos.

Luis Vilela, contista essencial, e o crítico e escritor Flávio Carneiro pescaram meu “Mentiras do Rio”, entre 51 finalistas. Parte do prêmio foi a publicação, pela prestigiada Record, com ilustração do premiado gravurista Rubem Grilo. E você, provavelmente, nem ouviu falar do livro. Não esteve entre os poucos que vendem muito na literatura nacional.

A obra ganhou críticas elogiosas em espaços modestos de jornal. Outros vencedores do prêmio Sesc tiveram maior divulgação e até indicações a prêmios como o Jabuti, o Portugal Telecom e o São Paulo. Nem todos tiveram destaque, apesar da boa qualidade.  Publicar, mesmo por uma grande casa editorial, é só o primeiro – pequeno - passo do estreante.

Muitos são os chamados, poucos os escolhidos. Livros condenados ao limbo pelo juízo dos jornalistas literários empilham-se nas redações, virgens, e são doados nos fins de ano. Na seleção para os grandes prêmios de literatura, jurados recebem apenas uma lista do que foi publicado, na suposição de que terão lido as obras merecedoras de destaque. Grandes grupos concentram editoras e livrarias, e é cruel a disputa pelas vitrines e balcões de exposição. Além de qualidade, a ajuda divina pode ser essencial para chegar ao grande público.

Em artigo recente, a simpática editora que viu nascer meu primeiro livro, Luciana Villas Boas, polemizou ao defender que editores e jornalistas literários valorizassem o gosto do “bom leitor médio” e buscassem autores para “as vitrines das livrarias”. A tese obscureceu uma crítica certeira do artigo, contra o apego dos críticos ao “charme intelectual da editora ou de quem apresenta o autor”, e à franca preferência do meio editorial pela publicação de autores nacionais que circulam no eixo Rio-São Paulo, com “esticadas ao Rio Grande do Sul” (e, quem sabe, a Curitiba).

Nos dez anos de Prêmio Sesc, a seleção baseada no anonimato e ineditismo revelou escritores de origens, idades e formações diversas. Muitos passaram do segundo livro. Em meu caso, o prêmio - associado à carreira como jornalista - serviu de cartão de visita para a encomenda de uma obra de não ficção, “Ascensão e Queda do Império X”, pela editora Nova Fronteira.

Antes, uma editora chegou a perguntar se eu teria um romance na gaveta; mas eu tinha projetos de não ficção e mais contos. Contistas - ouvi de uma executiva do meio, na última Flip - só interessam se portarem nomes sonoros como Dalton Trevisan.

Sem planos para mudar de nome, cresceu meu interesse por projetos inovadores que surgem na Internet; revistas eletrônicas como a luso-brasileira Pessoa, editoras virtuais, como a e-Galáxia, com seu selo “Formas Breves”. Afinal, suspeito, será nos celulares que meus filhos e seus amigos lerão minhas histórias curtas.

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