Inundar o Rio com as Forças Armadas não impede ataque terrorista

Marcelo Rech

Marcelo Rech

Especial para o UOL

Na semana passada, o país foi surpreendido com os resultados da Operação Hashtag, deflagrada pela Polícia Federal e que culminou com a prisão preventiva de uma dezena de brasileiros supostamente vinculados à organização terrorista conhecida como Estado Islâmico.

Ato contínuo, as autoridades trataram de minimizar os efeitos negativos da notícia, reafirmado que o país não corre nenhum risco de sofrer um atentado terrorista. O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, foi no mínimo contraditório ao explicar que o grupo fora detido "em atos preparatórios", mas que eram "amadores" e "desorganizados".

Presos preventivamente por 30 dias, os brasileiros estariam fora das ruas durante o período que antecede o início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Não ficou claro se após o evento serão liberados. As investigações correm em segredo de Justiça.

Vamos aos fatos: não existe terrorista amador, muito menos alguém que é apanhado em "atos preparatórios". Quem inicia a preparação de algo é porque já identificou o alvo, calculou as possibilidades de êxito, levantou inteligência suficiente para saber como chegar e onde posicionar-se. Mais: não está em "atos preparatórios" quem ainda não foi recrutado, treinado, ainda que minimamente, e conscientizado da missão a ser perpetrada.

Para tanto, os membros não precisam necessariamente se conhecerem. Podem ser apenas 1, 2, 5 ou 10 e cada um atuar sem relação direta ou indireta com o outro. Isso, longe de atenuar a importância da descoberta, a agrava. O que se condicionou chamar de "lobo solitário" é aquele que age por conta própria, inclusive nos "atos preparatórios", financiando com os seus recursos a aquisição dos insumos necessários para a excução do atentado.

Entendo que a mensagem transmitida pelas autoridades brasileiras a partir dessa operação visa atingir dois públicos distintos: as grandes potências que não confiam na capacidade do Brasil e de suas agências de inteligência em prover a devida segurança –a Operação Hashtag seria uma forma de mostrar que o país é capaz de atuar preventivamente–; e aqueles que estão mais preocupados com o impacto econômico dos Jogos –afinal notícias como essa afugentam não apenas turistas como patrocinadores.

Por fim, é preciso entender que o terrorismo, mais que qualquer coisa, é um fenômeno cujo teatro de operação é o mundo em toda a sua extensão. Terrorismo não se combate: se previne e se neutraliza. E não é com tanques de guerra ou aviões de caça que se alcançam os resultados objetivos, mas com inteligência.

O Estado precisa estar um passo à frente daqueles que têm a intenção de atentar, o que somente é possível com uma inteligência robusta, algo que o Brasil não possui.

O terrorista não improvisa, nunca. Ele sabe o que está fazendo e tem as suas razões, sejam elas compreendidas ou não. Alguém que é capaz de ir às ruas com um colete de dinamite, pode até ser parado num check point, mas isso não evitará que se exploda. O terrorista precisa ter êxito uma única vez, enquanto o Estado não pode falhar nem por um segundo. Essa é uma das grandes diferenças entre ambos.

Inundar o Rio de Janeiro com as Forças Armadas não impedirá que um ato terrorista aconteça. As Forças Armadas são treinadas para lidar com exércitos regulares, o que não é o caso das organizações terroristas, e, menos ainda, dos seus simpatizantes que abraçam uma causa sem exigir nada em troca.

Também não será apelando aos céus e à bondade de Deus que nos livraremos dessa chaga. Será com trabalho, coordenação, cooperação e muita, mas muita inteligência.

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Marcelo Rech

é especialista em Terrorismo e Contra-insurgência, Estratégias e Políticas de Defesa, Relações Internacionais e analista no Instituto InfoRel de Relações Internacionais e Defesa. E-mail: inforel@inforel.org

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